A revolta da vizinha é melhor do que a minha

Perante um estado de coisas tão danoso para a Europa como o que se impõe recentemente, seria menos aborrecido se a moda pegasse. Com os problemas na habitação a levar manifestações a 40 cidades espanholas, as mais de 6500 detenções a marcar os protestos estudantis em França e as 30 mil pessoas que marcharam contra os cortes orçamentais na Bélgica, seria de esperar um rápido contágio europeu. Mas Portugal ficou aquém.

O que falta é uma reação. É verdade que em Portugal, Itália e Grécia há e houve igualmente manifestações com pessoas a sair às ruas para se mostrar descontentes, sobretudo em relação a problemas no ensino e na habitação. Mas, sem grande repercussão política ou atenção mediática que se preze, a tendência foi morrer no desuso. Ressuscitou com tendas na portuense Praça D. João 1 e com ameaças de tijolos voadores.

Há países que, ainda que por meios pouco aconselháveis, levam às ruas um barulho que envergonha a pequenez das manifestações que se têm visto em Portugal. Nestes países, os políticos, que também representam os manifestantes, não se atrevem a ser comichosos perante a exigência popular: em Paris, uma tenda não é desordem pública.

Os franceses atormentaram um ministério da educação, desarrumaram as intenções de voto para as presidenciais da próxima primavera e bateram de frente com uma polícia de atuação muito firme. Os protestos tornaram-se motins, a manifestação transformou-se em criminalidade generalizada e a violência fez-se ferramenta do descontentamento. O engenho, se a história não nos falha, há de correr-lhes no sangue. Com o embalo do descontentamento juvenil, a esquerda francesa de Jean-Luc Mélenchon ergueu-se, levantando um vis-à-vis com a direita de Le Pen. Os protestos abanaram o panorama político.

A sul na geografia, os espanhóis imortalizaram a história de Maricarmen a favor da luta pelos direitos à habitação. O Primeiro-Ministro Pedro Sanchéz, mais maleável que os governantes franceses, ouviu as ruas e levou a luta política para o parlamento, que dissolveu por falta de consenso sobre as medidas habitacionais. Os espanhóis, mais modestos que os franceses a protestar, viram alguns frutos nas reivindicações das 70 mil pessoas que se concentraram em Madrid.

Em Portugal, as manifestações foram pela habitação, seguindo a tendência castelhana. Mas cá, Montenegro pediu menos egoísmo, uma vez que estes conflitos de interesse “não têm respaldo na sociedade portuguesa”. São Bento interpretou as frustrações como mesquinhez da esquerda política e os ministros promoveram uma narrativa de quem “não vai ceder aos gritos da rua”. Vão ceder a quem?

É comum, nestes momentos após a agitação e nos quais os ânimos se põem frios, assistir a críticas excessivamente elaboradas sobre as proporções e comportamentos dos protestos. Mas parece descabido levantar interpretações intrincadas sobre o modus operandi destes movimentos sociais quando o objetivo popular é (apenas) fazer pedidos. Compreender as reclamações das pessoas não requer uma manobra intelectual muito complexa, mesmo que ela dê jeito – como é hábito, criou-se luta partidária. 

A meio destas equações, acostumámo-nos a ver o debate perder-se nas entrelinhas da polarização. O líder do governo português acusa partidos políticos e outros movimentos associativos de importar “climas de contestação”, chamando para a conversa, sorrateiramente, um atrito entre esquerda e direita. É um truque de ilusionismo que tem funcionado. Peca por não compreender que aquilo por que a “esquerda radical” advoga é, agora, um problema da maioria. Portanto, a habitação é de todos.

A maré dos protestos já não foge com a corrente e, com o revolver das águas, continuará a vir à tona a crise da habitação. Virar a cara a uma deficiência gritante e estrutural da nossa sociedade põe em causa a capacidade de resposta a futuros problemas socioeconómicos. Assim sendo, se se pretende assegurar a saúde democrática, o país dos brandos costumes depara-se com a urgência de forçar a ação governativa a ir ao encontro do desejo popular.

Há qualquer coisa agradável na consumação do desagrado comum: faz surgir uma ideia, que se havia perdido, de que as preocupações de cada um de nós ainda têm energia para circular entre todos, sem depender das câmaras de eco do digital nem das limitações das urnas. Ainda assim, é um agrado insuficiente para quem levanta cartazes. Sem governos que façam um reconhecimento genuíno, público e recorrente das dificuldades das pessoas, corre-se o risco de perder o apetite pela democracia.