É possível sentir falta de uma época que não vivi? Nostalgia de um objeto, hábito ou até crença que não me foi incutida, mas que, como por magia, aprendi a carecer? Olho em torno da paisagem obsoleta do meu quarto e atento as possessões que mais zelo: a máquina de escrever, cujas manchas amareladas personificam as décadas que soma a mais do que eu; o gira discos ao meu lado que, apesar de recente, faz rodopiar velharias usadas; os livros já em estado de decomposição avançado que me enamoram, ao ponto de confundir o seu fogo fátuo com o brilho de uma estrela reluzente…
A minha vista viaja ainda pela paisagem do quarto: cassetes que não tenho como ouvir; consolas herdadas; bandas desenhadas com mais rugas que eu… noto-me em cada coisa, incapaz de afirmar que me pertencem. Não são meus, muito menos desta geração. A nós cabe-nos o digital: o impalpável; o aparente; sem qualquer prova ou testemunho físico. Resume-se a nossa existência finita ao infinito scroll por páginas e páginas de futilidade que falham em preencher-nos e, talvez o mais grave do presente, comover, viciando-nos apenas.
Percorro a folha do jornal ao meu lado com a ponta do dedo indicador, sentindo a irregularidade do papel. Por que é que ele me alicia? Por que me aliciam as outras possessões? Aproximo-me do meio da página com a mente a querer ferir-me de tanta saudade: qual o propósito de me fazer imaginar uma carícia paralela na pele? De onde emana esta estima?
Não é algo exclusivo, já percebi. O conforto irreal de um passado que não nos pertence acolhe um vasto número de pessoas, esses que se autointitulam de almas antigas, uma forma poética de dizer que sofrem da mesma doença infecciosa, a do “antigamente é que era”. Tem que se lhe diga. É importante salientar que tentar justificar essa hipocrisia, por vezes, cai no ridículo junto daqueles que verdadeiramente o viveram, os manifestantes em prol do “agora é que é fácil.” Por muito extrema que a diferença arda, as duas chamas azuis acabam por unir-se numa só, um fogo de cor quente.
É dessa brandura que se tem pelo que já foi que florescem as amizades mais esdrúxulas: um carinho desmedido pela vizinha idosa do 3.º B que me ouviu cantarolar versos das canções de Sinatra, essa que depois me presenteou com a sua antologia bonita de músicas favoritas, acompanhada pelo baixo contínuo do ruído da agulha a arranhar o vinil que ao longe rodava; a saudade daquele professor que me apanhou a devorar as páginas de uma coletânea de poemas e fragmentos de textos de Pessoa, cuja voz radiofónica, momentos depois, me embalou no doce declamar das suas rimas favoritas…
Antevejo um sorriso em todas as faces, tão imperfeitamente belos. Quer tenham eles um dente a menos, quer sejam ligeiramente tortos, a sua afabilidade é um beijo direto na minha bochecha carmim, no meu coração e na minha alma antiquada. E aqueles da minha idade, aqueles que partilham o mesmo gosto pelo ultrapassado… A nossa comunhão é um aconchego constante.
“Que vais tu fazer com estas quinquilharias senão ocupar espaço?” Interrogou-me uma vez um familiar, àquele que outrora pertenceu a tralha. “Qual a vantagem de utilizá-las quando tens ao teu alcance as mais recentes inovações? Faz-te mal o pó, bem sabes. Mas, se isto te diverte…”
Hoje, ao pensar na sua perífrase crítica e ao escrever, chego à resposta que toda essa comunidade partilha: amar. Amar o que possuo, o que conheci, vi e aprendi ao escutar, mirar e ler. Num mundo em que o amor se banalizou, onde vivemos a veracidade e emoção através do digital numa espécie de ataraxia transacional e encenação incessante, é essa ternura incomum que nos une e, realmente, completa.
Somos atores de um filme nicho cuja estreia já foi, onde os nossos nomes não constam nos créditos. É, naturalmente, uma longa-metragem que nunca ninguém verá, dado que o seu DVD é incompatível com os sistemas de reprodução atuais. Mas arrisco dizer que é essa saudade e raridade que nos faz verdadeiramente apreciá-la e, de sorriso rasgado, vivê-la todos os dias.