Pergunta: o lugar onde a democracia se sustenta

As luzes acendem-se uma a uma, até que o estúdio ganha vida. O ar é atravessado por um zumbido elétrico. Há o brilho frio das câmaras, o som breve do microfone a ser testado, o murmúrio de vozes que se calam no momento certo. O político ajusta o nó da gravata, o jornalista endireita-se na cadeira. É entre o silêncio e a primeira pergunta que se ergue a relação mais frágil da democracia: a do poder e de quem o questiona

“O jornalismo, em Portugal como nas democracias, é um reflexo da pirâmide social, cultural, política e desportiva de um país”, diz Vasco Ribeiro, professor e investigador na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com a voz firme de quem já foi, em tempos, assessor de imprensa. O autor do livro “Assessores de Imprensa e Jornalistas” admite que a profissão que vive do interesse público, que ergue narrativas sobre factos, começa a perder terreno e a dissolver-se no ruído. “Hoje em dia, o jornalismo não pensa”, atira, num diagnóstico frio.

No topo da pirâmide, vêm o Governo, a Assembleia da República e os tribunais. Surgem as figuras de poder, as instituições que falam em nome de todos. Na base, o povo é invisível. Só ganha destaque quando faz algo que a estatística não prevê. A entrevista, enquanto prática jornalística, é a ponte entre o poder e quem o elege: a sociedade civil. Permite que dois mundos se cruzem à mesa, unidos pela necessidade de se ouvirem, ainda que por razões distintas. “Procuro ser um intermediário entre o pensamento do entrevistado e os destinatários do meu trabalho”, afirma Carlos Andrade, jornalista, com a experiência de quem já soma quase 50 anos de profissão.

Carlos Andrade na moderação do programa “O Princípio da Incerteza”, na CNN Portugal

O cofundador da TSF defende que “a entrevista não pode ser tratada como um espaço de entretenimento. Não basta arranjar uma frase que abra o telejornal, nem alimentar um ciclo de polémicas rápidas”. O propósito do entrevistador, explica, é outro: “obter declarações com valor-notícia que permitam ao público formar uma opinião sobre quem presta contas”. Tem de haver relevância. Afinal, o que está em jogo são decisões e medidas que têm impacto na vida de quem está em casa a assistir. “A entrevista é um encontro de interesses”, refere o apresentador do programa da CNN Portugal, “O Princípio da Incerteza”.  E completa: “Um encontro frágil, tenso, mas essencial – porque é nessa fricção que a democracia respira.”

 Verdade editada

A máquina do poder trabalha em silêncio. Não se vê, mas está em todo o lado. Molda o que lemos, o que ouvimos, o que acreditamos. E o som do seu poder é ensurdecedor. Vasco Ribeiro conhece-a por dentro. Chama-lhe “um processo de construção plástica de narrativas”. Outros conhecem-na como propaganda. Uma engenharia de perceção. Uma força que manipula. Escolhe o que mostrar, apaga o que incomoda. O investigador defende que “por detrás de cada frase, há uma realidade moldada à medida de quem detém o poder – seja ele económico, político ou institucional”. Com a praticidade de quem sabe o que é estar do outro lado da moeda, explica que “no centro desta engrenagem, estão os assessores de imprensa. Predominam em todos os setores da sociedade, desde as grandes indústrias até aos hospitais, e têm vindo a influenciar o trabalho nas redações. São eles que moldam os números, cortam as frases, constroem títulos prontos a copiar e colar nas primeiras páginas”.

 Vasco Ribeiro lembra que “há 20 anos, 60% da informação provinha de conferências de imprensa, inaugurações, declarações públicas – fontes previstas, identificáveis, com hora marcada. Hoje, o cenário mudou. A dependência é muito maior. Mas há uma diferença: as notícias circulam sem rosto, sem uma origem clara. Chegam já prontas, envoltas em comunicados, revestidas de interesse, empacotadas com urgência. Falta tempo. Falta dinheiro”. O confronto entre as fontes cede ao imediatismo.

O barómetro Sonda +M confirma a realidade: 86% dos jornalistas inquiridos apontam o atual modelo de financiamento como o maior problema do setor mediático em Portugal. É o golpe que mantém as redações reféns dos grupos empresariais e das suas agendas. “Este é o drama do jornalismo”, afirma o investigador, como quem coloca o dedo na ferida.

 A pergunta que rasga o guião

Com a postura de quem conhece os bastidores, Carlos Andrade considera que “a entrevista é o espaço onde o jornalista tem a oportunidade de recuperar a autonomia, de desmontar o poder que se constrói ao espelho”. Segundo Vasco Ribeiro, “as televisões sempre premiaram os políticos que falavam em frases curtas, moldadas à medida dos noticiários – declarações rápidas, fáceis de editar e de encaixar no tempo de antena. A tendência intensificou-se. Os gabinetes de comunicação não se limitam a difundir só informação: ensaiam também os gestos, afinam tons, controlam enquadramentos e definem estratégias perante a câmara”. Uma imagem que é, cada vez mais, como explica, “consolidada nas redes sociais, onde tudo é breve e estético”.

De acordo com o Reuters Digital News Report 2024, o tema sobre o qual os portugueses dizem ter encontrado mais desinformação no online é a política (28%). As publicações virais tornam-se uma espécie de prime-time alternativo – podem, à primeira vista, parecer notícias, mas é necessário olhar para além da app. “O jornalista tem ao dispor uma arma absolutamente fundamental, que é a do poder da pergunta”, refere o jornalista. O timbre mantém-se sereno, mas cada sílaba sai medida. Carlos Andrade acredita que “é através dela que se desarma a retórica da comunicação política”. Nesse instante, a atmosfera muda. “O político não gosta quando são expostas as suas contradições. Teme o olhar que faz estalar o verniz que abrilhanta as suas palavras. Entra na entrevista com um plano traçado: quer usar o espaço como megafone.”

Para Alexandra Figueiredo, da ERC, o papel do jornalista é sempre o de desconstruir e de fazer perguntas de forma crítica, baseada em factos e nunca em opinião

O jornalista passa a ser visto como potencial adversário. A fronteira entre um juízo opinativo e a desconstrução de um argumento torna-se estreita. E daí podem surgir acusações de falta de isenção ou de parcialidade. “Nós tentamos ser o mais neutros possível”, afirma Alexandra Figueiredo, analista de média na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Fala num tom técnico, metódico, despojado de adornos e sem vacilar: “O papel do jornalista é sempre o de desconstruir e de fazer perguntas de forma crítica, mas baseadas em factos, não em opiniões do próprio.” É preciso citar números, estatísticas e declarações; construir provas que resistam à dúvida, mesmo quando a pressão aperta. Entre os critérios que mais pesam na avaliação do regulador está o dever de garantir informação com rigor e isenção. Mas, num tempo em que cada palavra é escrutinada, permanece a questão que inquieta: será que quem mede a verdade pode, de facto, ser neutro?

Um equilíbrio difícil de aplicar

Carlos Andrade não hesita: “Os jornalistas devem estar atentos à ideia de que uma entrevista deve ser combativa no conteúdo, cordial no tom.” A frase é curta, mas carrega um princípio essencial. A firmeza, explica, “vive na substância – na pergunta que não falha, no contexto que não tropeça, na palavra que não treme”. O desempenho corporal, sublinha, revela tanto como o discurso. “Não estamos no quadro da Inquisição”, ironiza.

O dedo que aponta, os braços que se cruzam são gestos breves, capazes de distorcer o propósito da entrevista. Diante da câmara, o corpo também revela convicções. A objetividade, admite, é uma ambição inatingível: “Nenhum de nós é 100% isento. Cada jornalista carrega a sua leitura do mundo, mas isso não o dispensa da responsabilidade de se aproximar, com rigor, do ideal de neutralidade.”

A missão é dura: perguntar sem deixar marcas do seu ponto de vista. Dar espaço a quem responde, para que exponha as ideias, mas impedir que a entrevista se transforme num ato propagandístico. Este jogo de equilíbrio dá origem àquilo que designa de “interrupções irritantes”. Como esclarece: “Surgem no momento em que o entrevistado se refugia em frases longas, vagas, sem densidade. Para que a entrevista não perca o fôlego, torna-se necessário reconduzi-lo ao terreno que interessa ao perguntador. O terreno do escrutínio público. Quando tal não acontece, o jornalista sente o impulso de insistir, de arrancar as respostas que o outro tenta esconder.” E é aqui que se encontra o perigo. A tentação está lá, mas o preço é alto: o público, que espera ser informado, é arrastado para um duelo estéril. “A entrevista não é um debate”, alerta Carlos Andrade, num tom que não deixa margem para dúvidas. A gestão torna-se um exercício decisivo. O princípio da diversidade de informação e de conteúdo é claro. Alexandra Figueiredo lembra que a Lei 72-A obriga a que, em período eleitoral, todos os candidatos “tenham igualdade de acesso aos meios de comunicação”. E, com isso, tempos de antena equilibrados, oportunidades equivalentes para abordar os temas de interesse público.

Quando uma entrevista contraria este dever, perde-se muito mais do que equilíbrio: instala-se a monotonia, restringe-se a liberdade de expressão do entrevistado e compromete-se a pluralidade que a lei protege. Não é apenas um erro. É uma fratura ética que nenhum jornalista deve permitir que aconteça.

Luz ao fundo do túnel?

Segundo a analista da ERC, “há a perceção de um ligeiro aumento de participações, o que indica uma discordância do público em relação à forma como as entrevistas são conduzidas”. Não é um dado estatístico, mas um sintoma de inquietação que encontra eco no diagnóstico de Vasco Ribeiro. O investigador fala de uma “opinião pública dissonante – fragmentada, desancorada dos factos, que acredita naquilo que lhe convém”. Uma dissonância que – acredita – “já se reflete na polarização dos resultados eleitorais, num país onde se vê a mentira a ganhar caminho”.

Um estudo do Instituto Politécnico de Coimbra revela que 48,1% dos jovens populistas inquiridos expressam animosidade perante quem tem uma visão política diferente da sua. Num espaço público que acredita em certezas embaladas para consumo rápido, ainda conseguirá a entrevista cumprir o seu propósito? No final, sobra apenas a pergunta. A ferramenta que rasga o silêncio, expõe contradições e ilumina o que tantos querem ocultar. Enquanto houver pergunta, há dúvida. E onde há dúvida, a democracia encontra a sua morada.

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