A madrugada que Albino Rodrigues (não) esperava

O rosto de Albino Rodrigues, hoje com 76 anos, é o espelho de um homem que, mesmo querendo a democracia, teve de cumprir as ordens da ditadura. A 54 dias de concluir o serviço militar, foi acordado de sobressalto na caserna, sem imaginar que os exercícios de sempre se transformariam na rendição dos militares que tinham tentado desencadear um golpe de Estado

As ordens que ouviu eram simples: levantar depressa e deixar a caserna. Como cabo do “pronto a sair”, o pelotão que estava sempre de prevenção, Albino Rodrigues estava mais que habituado a ouvir aquelas palavras, mas nunca àquelas horas: seis e meia da madrugada. Os exercícios faziam-se sempre ao fim de semana, mas nunca antes do pequeno-almoço. Mesmo estranhando, não fez perguntas: levantou-se, pegou nas armas, no capacete e saiu.

O estômago resmungava pela falta do pequeno-almoço, mas, para Albino e para os colegas, tudo não passava de uma simples brincadeira. Tinha acordado para mais um exercício, mais uma “fantochada”, como costumavam chamar-lhe. “Já se andava a prever que podia vir aí um golpe de Estado. As pessoas estavam insatisfeitas, eram presas por qualquer motivo. O meu pelotão ficava de serviço ao fim de semana justamente para intervir caso houvesse uma revolta. Mandavam-nos sair de vez em quando, mas aquilo nunca dava em nada.”

A “fantochada” daquela madrugada levou os carros da unidade de Santarém à entrada de Rio Maior. Seria a primeira vez que um exercício seria realizado tão longe da base, mas Albino não estava preocupado. A expectativa era chegar à cidade, fazer o exercício e regressar. É então que, por ordem de um general do comando da região militar de Tomar, a coluna para. Os alferes reúnem-se durante quase um quarto de hora. “Quando o alferes volta para perto de nós, estava branco como a cal da parede”, conta Albino Rodrigues. A “fantochada” acabava de se tornar uma coisa muito mais séria. “O alferes virou-se para nós e disse: ‘Meus meninos, vocês estão aí na brincadeira, mas isto agora não é para brincar. As Caldas revoltaram-se’.”

Durante as primeiras horas da madrugada de 16 de março de 1974, o regimento de Infantaria 5 tinha saído das Caldas da Rainha com o objetivo de marchar sobre Lisboa e derrubar o regime. No entanto, alguma coisa falhara. As ordens que o cabo Albino ouvia agora do seu alferes eram tão simples quanto as que tinha ouvido às seis e meia da madrugada: garantir que as Caldas se rendiam. “Se eles se rendessem, ia correr tudo bem. Se não, ia ter de haver fogo.” Ainda sem acreditar plenamente naquilo que tinha acabado de ouvir, Albino Rodrigues meteu-se no carro, juntamente com os seus companheiros de pelotão.

A estrada levou-os a um terreno que ficava a cerca de 10 quilómetros do quartel das Caldas da Rainha. E qualquer dúvida que ainda pudesse existir sobre a tal “fantochada” desapareceu no instante em que Albino viu aproximar-se outra unidade de Santarém, a Cavalaria 7 de Leiria e dois aviões, que se puseram a sobrevoar o quartel. À data, com apenas 23 anos, Albino estava a 54 dias de acabar o serviço militar, mas nunca se habituara à presença das armas de fogo. Lembra-se, até hoje, das balas no equipamento dos militares da Cavalaria 7 e daquilo que sentiu quando um tenente começou a atirar-lhe as granadas para distribuir pelo resto do pelotão. “Parecia que me estava a atirar maçãs”, lembra. Olha para as mãos como se ainda pudesse sentir o peso das granadas. “Disse ao tenente que, ou me dava apenas uma granada de cada vez para distribuir ou então não aceitava nada.” Esta resposta valeu a Albino Rodrigues o risco de uma participação, mas o cabo pouco se importou. Organizou-se uma nova coluna. Com as armas carregadas, Albino Rodrigues e os companheiros arrancaram em direção ao quartel revoltado.

Albino Rodrigues (o quarto da esquerda para a direita) e os colegas na unidade de Santarém

Horas e horas de espera

A missão era fazer com que os revoltosos se rendessem, evitando mortes ao máximo. “Aquilo era muito perigoso”, recorda. “Nós estávamos em grupo, numa espécie de cova atrás do quartel. Se os gajos se lembrassem de atirar meia dúzia de granadas, matavam-nos a todos”.

As granadas nunca vieram, mas o cerco que se instalou ao quartel durou horas. Albino Rodrigues manteve a esperança de que não seria preciso abrir fogo. Mas à medida que o tempo foi passando, as ordens foram mudando de tom. “Quando lá chegámos, disseram-nos: se eles não se quiserem render e fugirem, atirem para as pernas. Mas aquilo não estava a correr nada bem. Umas horas depois, disseram-nos para atirar para o peito.” Por volta das quatro da tarde, já a fome era muita e a paciência pouca quando o cabo recebeu ordens para matar. E ficou indignado. “Mas onde é que já se viu, um colega matar outro colega?”.

A espera durou até depois do pôr do sol. Albino Rodrigues estava a preparar a escala para os turnos da noite quando recebeu a notícia: os militares que se tinham revoltado tinham-se rendido. Albino e os colegas podiam finalmente regressar a Santarém. Mas o povo estava longe de estar contente. Albino Rodrigues lembra-se até hoje dos insultos que ouviu quando regressou à unidade, perto das dez horas. “Como não tinha havido golpe de Estado, as pessoas estavam revoltadas”, explica. “E a nossa missão foi fazer com que eles se rendessem. Chamaram-nos traidores, cobardes, bufos…”

Se a madrugada de 25 de Abril de 1974, passou, naquele instante, ao lado de Albino Rodrigues, o colega que se encontra à direita acabou por ser o motorista do tanque onde seguia Salgueiro Maia

As marcas de um dia para esquecer

A tensão do dia 16 de março deixou marcas na sua memória. “Quando somos jovens, não estamos bem dentro das coisas. Sabia que não se podia falar assim de qualquer maneira, mas só mais tarde é me apercebi o que é que aquilo podia originar e não originou por sorte.” Como tantos outros colegas que estavam prestes a acabar o serviço militar, Albino temia o início de uma guerra civil. E foi esse receio que o fez ficar dentro da unidade na madrugada da Revolução dos Cravos. “O capitão Maia estava cheio de certezas, mas eu achava que aquilo podia correr mal, como tinha acontecido nas Caldas. Naquela altura, sair de Santarém e ir para Lisboa não era uma coisa fácil… E se houvesse um fracasso outra vez e a unidade ficasse retida? Só ficámos descansados quando ouvimos o comunicado na emissora nacional. Foi uma alegria. Já ninguém dormiu o resto da noite”.

Se soubesse com 23 anos o que sabe hoje aos 76, Albino Rodrigues teria aceitado fazer parte do golpe de Estado – tanto que se ofereceu para ajudar a deter os membros da PIDE. Com a saída da tropa marcada para o dia 9 de maio, o último serviço que fez enquanto cabo na unidade de Santarém foi no primeiro dia daquele mês. E ao contrário do 16 de março, este é um dia que Albino tem prazer em recordar. “Depois do meu casamento, foi o dia mais feliz da minha vida”, conta, com um sorriso. “Eram milhares de pessoas penduradas umas nas outras, a abraçarem-se como se fossem família. Nunca vi uma coisa assim”.

O soldado Albino Rodrigues e os colegas em exercícios militares

Atualmente com 76 anos, o rosto de Albino Rodrigues é o mapa da vida de alguém que começou a trabalhar com onze anos, que aprendeu o ofício da mecânica aos 14 e que entrou para a tropa aos 18. A mulher não sabe, mas chegou a oferecer-se para ir para o Ultramar, no lugar de um colega que era casado e que, até hoje, nunca mais voltou a ver.

Albino Rodrigues diz que dificilmente verá um novo 1º de Maio. “Naquela altura, a liberdade era mais bonita porque as pessoas entendiam-se, respeitavam-se. Agora ofendem-se. Não têm respeito umas pelas outras. Mas um dia há de parar.”. Quanto ao 16 de março, Albino não tem dúvidas: “Esse foi mesmo um dia para esquecer”.