A geração que encontrou uma casa no K-pop

Em tempos um fenómeno musical vindo da Coreia do Sul, hoje uma comunidade que atravessa fronteiras. Em Portugal, milhares de pessoas juntam-se para celebrar a cultura do pop sul-coreano, seja em concertos, comunidades online, ou em cafés

Num café pequeno em Setúbal, a música mistura-se com o som das conversas. À entrada, uma parede cheia de assinaturas, desenhos e mensagens de fãs. Mas há uma que chama mais a atenção: “Finalmente, temos uma casa. Obrigada, Dona Maria”. A mensagem dirige-se a Maria Fernanda Bruno, proprietária do café, como um agradecimento pela criação deste espaço.

No J Coffee, um espaço dedicado a Jimin, um dos membros do grupo sul-coreano BTS, os detalhes acumulam-se. Vemos uma decoração cheia de fotografias, posters, dedicatórias e símbolos que são deixados pelos fãs que ali passaram.

Depois de uma viagem à Coreia do Sul em 2017, Maria Fernanda Bruno, com 67 anos, conheceu o K-pop e apaixonou-se perdidamente por este novo mundo. Anos mais tarde, em 2023, regressou ao país numa viagem oferecida pelo marido e visitou, em Busan, terra natal de Jimin e a segunda maior cidade da Coreia do Sul, o café pertencente ao pai do artista. Foi aí que nasceu a ideia de criar, em Setúbal, um espaço dedicado aos BTS.

Por mais que toda a gente fosse contra esta ideia, o J Coffee foi inaugurado no dia 13 de março de 2024 e hoje é gerido com a ajuda do marido e conta com o apoio do filho e do neto.

Neste espaço, que é como uma casa para quem lá passa, cruzam-se fãs de K-pop, que, fora dos ecrãs, conseguem encontrar um lugar físico onde esta identidade é partilhada.

@jcoffeestb

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♬ Heaven – RM

Espaço de pertença

A expressão “é como um abraço quentinho” surge naturalmente quando Alexandra Ferreira, 22 anos, tenta explicar aquilo que a liga ao grupo sul-coreano. Para muitos, o K-pop deixou de ser apenas um estilo de música e passou a ser um espaço de conforto, identificação e pertença.

Entre álbuns, MVs sigla usada para os videoclipes do mundo do K-pop – e mensagens sobre o amor próprio, quem admira estes artistas consegue encontrar uma comunidade que ultrapassa barreiras e ecrãs.

Nicole Duque, 20 anos, acompanha o grupo BTS há quase oito anos e acredita que foram eles que marcaram uma grande parte da sua adolescência. “Devem ter sido um dos maiores marcos no desenvolvimento da minha personalidade”, admite, acrescentando que “músicas como Answer: Love Yourself ou Life Goes On destacam-se por passarem mensagens ligadas ao amor próprio e às dificuldades da vida. E também músicas como Silver Spoon, que fazem críticas à sociedade”.

Música como refúgio

Foi também durante a pandemia que muitos fãs reforçaram a ligação que tinham com o grupo. Em 2020, os BTS lançaram Life Goes On, uma música marcada pela ideia de continuar apesar do isolamento e da incerteza, transmitindo mensagens de esperança num período de instabilidade. “Eles apareceram na minha vida no momento em que eu mais precisava”, recorda Alexandra Ferreira.

Nicole Duque começou a publicar conteúdos sobre o K-pop no TikTok durante a pandemia. “Eu simplesmente estava entediada, tinha aqueles vídeos e pensei porque não postar”, partilha. Através desses vídeos, fez amizades que mantém ainda hoje. Apesar de as redes sociais serem um ponto importante para esta comunidade, Alexandra Ferreira não deixa de referir a importância da existência de espaços físicos ligados à cultura coreana, em Portugal. “O facto de haver um espaço físico dá para todos nós nos encontrarmos, colocarmos conversa em dia, trocar photocards, conhecer pessoas novas e fazer mais amizades”, afirma, enquanto explica como os espaços físicos são um ponto de socialização.

É dessa necessidade de conviver que surgem espaços como o J Coffee. Durante anos, a comunidade de fãs do K-pop viveu através de grupos no Whatsapp, TikTok e Instagram, e, por isso, hoje precisam de locais onde essas ligações possam ganhar forma fora dos ecrãs. O café tornou-se um ponto de encontro tão forte, que, segundo a proprietária, já recebeu fãs de diferentes partes do país, mas há uma visita em particular que lhe ficou na memória.

No dia 20 de maio de 2025, durante a manhã, entrou um sul-coreano que tinha viajado até Setúbal com o objetivo de conhecer o J Coffee e ver de que forma a cultura do seu país estava a ser representada num pequeno café português. É neste espaço, com uma decoração de fãs para fãs, que a distância entre Portugal e a Coreia do Sul parece, por momentos, desaparecer.

Em maio, Maria Fernanda Bruno recebeu a visita de um sul-coreano que viajou até Setúbal para conhecer o J Coffee

Porta de entrada para um novo universo

“Dizerem que é só música é realmente só olharem para a pontinha do iceberg”, alerta Nicole Duque. O K-pop é também dança, estética visual e criatividade. No caso de Alexandra Ferreira, foram precisamente as coreografias que despertaram o interesse por este estilo musical. Atualmente, o K-pop “tem vários grupos”. Só pela indústria principal, composta pelas quatro maiores empresas de entretenimento da Coreia do Sul, estima-se que existam mais de cem grupos ativos.

De acordo com a IFPI (International Federation of the Phonographic Industry-Federação Internacional da Indústria Fonográfica), a presença sul-coreana tem-se tornado cada vez mais consistente no panorama global. Em 2022, o grupo BTS alcançou o segundo lugar na lista dos artistas mais populares do mundo, ficando logo atrás da Taylor Swift. Um ano depois, este crescimento ficou mais evidente com o K-pop a dominar a tabela do ranking global de artistas: o grupo Seventeen ocupou a segunda posição, os Stray Kids a terceira, os Tomorrow X Together a sétima e as NewJeans a oitava. Além disso, a Coreia do Sul manteve-se entre os dez maiores mercados musicais do mundo, ocupando o sétimo luga, tanto em 2022 como em 2025.

Dados mais recentes mostram ainda que a presença do K-pop se mantém na lista de músicas e álbuns mais ouvidos. APT, de Rosé e Bruno Mars, liderou o ranking global de singles, enquanto Golden, das Huntrix, do filme KPop Demon Hunters, ocupou o segundo lugar. O álbum da mesma produção cinematográfica ainda alcançou o terceiro lugar entre os mais consumidos do ano.

Vencedor do Oscar de Melhor Animação, o filme “KPop Demon Hunters” é um dos maiores êxitos de sempre da Netflix

Pode-se dizer também que o crescimento do K-pop nos últimos meses aconteceu mais pelo sucesso deste filme. Produzido pela Sony Pictures Animation em conjunto com a Sony Pictures Imageworks, o grande êxito da Netflix já superou os 345 milhões de streams e tornou-se num fenómeno global, ajudando também a aproximação de novas gerações para este universo.

Esta produção teve um impacto cultural tão estrondoso que, a 15 de março de 2026, venceu o Óscar de Melhor Filme de Animação e a canção Golden arrecadou o prémio de Melhor Canção Original, contribuindo para renovar o interesse pela cultura pop sul-coreana para um público ainda mais vasto.

A americana Audrey Nuna e as cantoras sul-coreanas Ejae e Rei Ami são as intérpretes musicais do grupo protagonista do filme

Crescimento do K-pop em Portugal

Em Portugal, não tem sido diferente. O crescimento do K-pop reflete-se não só no aumento do número de fãs, mas também no aparecimento de projetos e iniciativas dedicadas à comunidade. Um desses exemplos é a K-Pop Covers Portugal (KCP), uma organização criada em 2015 por um grupo de fãs com o objetivo de divulgar os covers de canto e dança inspirados nas músicas sul-coreanas. A ideia surgiu de forma inesperada. Uma das fundadoras “queria simplesmente arranjar um motivo para usar um vestido formal que tinha comprado” e, juntamente com amigos que também tinham o mesmo interesse pelo K-pop, decidiu organizar uma gala dedicada aos covers.

O que parecia apenas uma ideia divertida entre amigos, acabou por revelar algo maior. “Percebemos que existia vontade da comunidade em participar em iniciativas do género”, explica uma das organizadoras da KCP.

Na altura em que criaram esta organização, a comunidade portuguesa ainda era muito pequena. Muitos conheciam-se através de fóruns, grupos online e redes sociais. Hoje, segundo a KCP, “existe muito mais visibilidade, mais fãs, mais criadores de conteúdo e também mais eventos espalhados por todo o país”. Algo que o K-pop Covers Portugal dá a conhecer. O site reúne ainda uma lista de todas as lojas e espaços ligados à cultura coreana que estão espalhados por várias regiões do país.

Em Lisboa, por exemplo, há mais de 20 estabelecimentos relacionados com a cultura coreana, sendo a maior parte restaurantes. Esta tendência mostra como esta cultura tem vindo a ganhar espaço em Portugal e como o interesse por este universo parece estar longe de desaparecer.

“Em termos globais, Portugal também tem vindo a ganhar maior visibilidade no panorama do K-pop, com a realização de grandes eventos internacionais no país, como o Music Bank, e com a crescente presença de artistas sul-coreanos”, explica uma das organizadoras do KCP.

Este crescimento de eventos também é visível em iniciativas de maior dimensão. A Festa da Cultura Coreana, que aconteceu dia 7 de junho de 2026 no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, é um evento, organizado pela Embaixada da República da Coreia e pelas Festas de Lisboa (EGEAC), dedicado a workshops de atividades tradicionais coreanas como pintura tradicional, gastronomia, maquilhagem coreana e trajes tradicionais (hanbok). Mas o ponto com mais destaque é o K-pop World Festival, uma competição internacional organizada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul, mas que conta com o apoio do Ministério da Cultura, Desporto e Turismo e com o apoio da KBS, um canal público da televisão coreana.

Para quem é realmente fã, o K-pop não se mede pelos rankings, festivais e números de streams. Para Alexandra Ferreira, o impacto está nas pessoas que conheceu graças a esta comunidade. “Nós acabamos por ser uma big family”, explica.

Nicole Duque não deixa escapar a oportunidade para partilhar uma visão semelhante. Ao longo dos últimos oito anos como fã, viu a comunidade portuguesa crescer e tornar-se visível. Ainda assim, acredita que, apesar de ter melhorado, “ainda há muito preconceito só pelo facto de eles serem asiáticos e ainda há muita gente que olha de lado”.

Apesar disso, as duas jovens defendem que o K-pop lhes deu muito mais do que música. Proporcionou-lhe um espaço onde conseguem pertencer, “uma forma de expressão através da dança, da moda, da criatividade e até da forma como socializam”. Para Alexandra Ferreira, este fandom ocupa uma dimensão extrema na sua vida: “É uma casa.” Talvez seja por isso que aquela mensagem escrita na parede do J Coffee se destaque de todas as outras.