A burca na mira da demagogia

Longe de ser apenas uma questão estética, a roupa funciona como uma linguagem. O que vestimos comunica valores e posicionamentos sociais. Quando determinados elementos do vestuário são transformados em símbolos políticos, assiste-se a um enviesamento ideológico e a uma "guerra cultural" sem sentido

Ao caminhar pelas ruas do Martim Moniz, em Lisboa, contrariamente ao que o debate político sugere, é raro encontrar alguém a usar burca. Cada esquina é marcada por um movimento constante das mais diversas pessoas, com lojas, restaurantes e bancas que refletem diferentes culturas e origens. Ouve-se várias línguas, cruzam-se rotinas e percursos distintos, num ambiente onde a diversidade faz parte do dia a dia. Ainda assim, essa diversidade não se traduz na presença desta indumentária, tantas vezes colocada no centro de discursos sobre liberdade, integração e identidade, na prática quotidiana. Apesar disso, ocupou um lugar de grande destaque e urgência na arena política e mediática.

A discrepância entre o visível e o debatido levanta uma questão central: de que forma é que a indumentária se transforma num campo simbólico de disputa política? Toda a literatura na área da semiótica tem comprovado que a moda, enquanto linguagem social, nunca é neutra. Como sublinha Inês Aparício, jornalista da revista de moda e lifestyle Saber Viver: “Não vestimos apenas o corpo, mas falamos também através das peças com as quais o cobrimos.”

“Temos de dar voz a quem habitualmente fica na sombra, porque a moda nunca será apenas estética. Faz-nos refletir sobre a atualidade, influencia a forma como vivemos, pensamos e nos organizamos enquanto sociedade.”

Inês Aparício, jornalista de moda e life & style

Nesse sentido, a roupa não se limita a cumprir uma função estética ou utilitária: participa na construção de significados sociais, na afirmação de identidades e até na discussão de causas políticas. “Temos de dar voz a quem habitualmente fica na sombra porque a moda nunca será apenas estética. Faz-nos refletir sobre a atualidade, influencia a forma como vivemos, pensamos e nos organizamos enquanto sociedade”, defende.

É precisamente por causa dessa dimensão comunicativa que a moda se distingue de indumentária. Se vestir pode ser entendido, num primeiro nível, como uma necessidade prática ligada à proteção e ao contexto cultural, a moda introduz uma camada adicional de intenção e interpretação social, em que as escolhas individuais são também leituras coletivas. Aquilo que se usa não é apenas o resultado de uma necessidade, mas também de um sistema de códigos que circula entre o corpo, a sociedade e o tempo histórico, tornando o vestuário num espaço privilegiado de expressão e de disputa de significados.

Esta dimensão política do vestuário não é nova. Ao longo da história, diferentes estilos, cortes e códigos visuais foram utilizados para distinguir classes sociais, géneros e pertenças culturais. Como refere a ex-deputada do Bloco de Esquerda, Sandra Cunha, a moda “representa também uma forma de estar e de ver o mundo, sendo que cada época produz os seus próprios códigos visuais de identidade”.

A ideia de liberdade total no vestuário é, em grande parte, ilusória. Os papéis de género são um exemplo claro disso. Atualmente, um homem que use saia tende a ser alvo de julgamento, tal como uma mulher não pode andar sem t-shirt na rua sem ser imediatamente questionada.”

Sandra Cunha, ex-deputada do Bloco de Esquerda

A relação entre vestuário e poder não se limita, no entanto, à expressão individual ou cultural. É também moldada por normas sociais e estruturas de controlo. A forma como os corpos são cobertos ou expostos, o que é considerado aceitável ou transgressor, revela sempre uma negociação entre liberdade individual e regulação social. Esta tensão entre a liberdade e o condicionamento torna-se visível se observarmos o vestuário para além do indivíduo e quando se tem em conta o contexto em que está inserido. A roupa que uma pessoa escolhe vestir não existe isoladamente: é sempre lida e avaliada por quem está presente. O que é entendido como “adequado”, “provocador” ou “respeitável” varia consoante o tempo e o lugar, mas raramente escapa à lógica de escrutínio.

Como refere Sandra Cunha: “A ideia de liberdade total no vestuário é, em grande parte, ilusória. Os papéis de género são um exemplo claro disso. Atualmente, um homem que use saia tende a ser alvo de julgamento, tal como uma mulher não pode andar sem t-shirt na rua sem ser imediatamente questionada.”

O véu da política

É neste contexto que o debate sobre a busca em Portugal se torna relevante. Apesar de ocupar um lugar recorrente no discurso político, a sua presença no espaço público português residual. Esta discrepância levanta a questão de saber por que motivo um vestuário tão pouco visível se tornou tão central na discussão pública. Desde logo, importa clarificar conceitos que, muitas vezes, são usados de forma indistinta. A burca tapa todo corpo na totalidade, incluindo o rosto, enquanto que o hijab se refere apenas ao lenço que cobre o cabelo, deixando a face visível. Apesar destas diferenças, o debate tende a agregá-los num mesmo campo simbólico para leituras generalistas.

A discussão em Portugal não surge isolada. Noutros países europeus, como França, foram aprovadas leis que proíbem o uso de vestuário que cubra o rosto em espaços públicos, enquadradas sobretudo por argumentos de segurança. Estas medidas têm servido, em muitos casos, como referência para o debate nacional, ajudando a enquadrá-lo numa tendência mais ampla, mas também a importar tensões que nem sempre correspondem à realidade portuguesa.

Segundo a ex-deputada, o debate em torno da burca “não é sobre os direitos nem sobre a proteção das mulheres, mas sim sobre poder, receios culturais e discursos de identidade nacional. Neste sentido, a burca torna-se menos um objeto de análise e mais um símbolo mobilizado em conflitos ideológicos mais vastos”.

No meio do ruído político e da demagogia, aquilo que parece estar em jogo não é uma peça de roupa. A ex-deputada fala mesmo de uma “guerra cultural; um confronto que vai ganhando espaço pouco a pouco, onde símbolos como a burca ganham um peso desproporcional porque são fáceis de apontar o dedo, denegrir, discriminar.”

«A moda tem um enorme poder na construção de imaginários, aceitação de novas realidades e consciencialização para um conjunto infinito de questões.»

Inês Aparício

O que diz a roupa

A roupa, enquanto elemento pessoal e social, raramente se esgota na sua função prática: carrega significados, projeta narrativas e pode tornar-se alvo de disputas simbólicas que ultrapassam largamente o seu uso concreto. É entre aquilo que vemos e o que é atribuído ao visível que se inscreve a leitura proposta por Inês Aparício. Se, no caso da burca, o foco do debate parece deslocar-se da experiência das mulheres para a construção de um símbolo político, também no universo da moda esse processo de significação está constantemente em jogo.

Para a Inês Aparício, “esta dimensão comunicativa do vestuário não é uma leitura abstrata, mas uma realidade observável no quotidiano da indústria e do jornalismo de moda”. Ainda que frequentemente desvalorizado, este campo é, na sua perspetiva, “um espaço onde se cruzam tendências estéticas e debates sociais mais amplos, tornando visível aquilo que, muitas vezes, permanece implícito noutras áreas da cultura”.

A jornalista sublinha que “esta desvalorização da moda enquanto objeto de análise crítica persiste, mesmo no jornalismo”. E critica: “Temos profissionais com mentalidades retrógradas que continuam a acreditar que o jornalismo se limita às hard news, uma perceção que se traduz em preconceitos estruturais, visíveis desde a formação até ao exercício profissional.”

É precisamente naquilo que é considerado “leve” que se encontram, muitas vezes, questões profundamente políticas. “Podemos dizer ao mundo quem somos. Mesmo que vistamos simplesmente uma camisa branca, conseguimos posicionar-nos em relação a temas que nos são mais próximos, seja a igualdade de género, questões relacionadas com a comunidade LGBTQIA+ ou o ambiente”, que ao longo das últimas décadas, tem surgido não apenas como estratégia de comunicação, mas também como forma de posicionamento ideológico. Campanhas, desfiles e até peças icónicas, como as t-shirts com mensagens políticas criadas por diferentes marcas, como “We Should All Be Feminists”, lançada por Maria Grazia Chiuri enquanto diretora criativa da Dior, demonstram como o vestuário pode funcionar como veículo direto de mensagens sociais.

Esta evolução não significa, contudo, que todas as marcas ou iniciativas sejam movidas pelas mesmas intenções. Para Inês Aparício, é possível distinguir entre o ativismo genuíno e a apropriação oportunista de causas sociais: “Existem marcas que surfam a onda do momento, alterando a sua identidade para correr atrás de algo que não valorizam ou até se identificam, apenas porque acreditam que, dessa forma, se manterão relevantes e os consumidores escolherão a sua marca.”

Neste contexto, o papel do jornalismo torna-se central. Longe de se limitar à cobertura de tendências ou lançamentos, o jornalismo de moda assume, segundo Inês Aparício, uma função de mediação crítica. Cabe-lhe investigar práticas da indústria, expor contradições e dar visibilidade a projetos que, de outra forma, permaneceriam na margem. Ao fazê-lo, contribui também para a construção de uma leitura mais informada sobre a relação entre moda, sociedade e política.

“Acredito que, em parte, esse papel recai sobre nós, jornalistas. Apesar da evolução das tecnologias e do surgimento das redes sociais, gosto de pensar que continuamos a ser os mensageiros, aqueles que alertam, consciencializam e educam. Investigamos, falamos com especialistas, cruzamos fontes, expomos problemáticas, etc.”

Inês Aparício

No centro da disputa mediática

É exatamente em trabalhos jornalísticos que se expõe alguns dos episódios mais problemáticos de distorção do debate em torno da burca. Recordamos um caso de 2025.  Após uma declaração sobre a possibilidade de proibição da burca, a jornalista Djelma Fati afirmou que “sairia de Portugal se chegasse ao ponto do hijab também ser proibido”. A frase foi rapidamente retirada do seu contexto original e amplificada nas plataformas digitais, onde políticos e comentadores passaram a associá-la a imagens de outra mulher, sugerindo incoerência ou encenação.

Nas redes sociais multiplicaram-se as interpretações e acusações, com comentários que apontavam para uma alegada manipulação mediática: “Tudo orquestrado (…) com o objetivo de enganar as pessoas!” ou “Pode um canal de televisão enganar e manipular deliberadamente os portugueses, recorrendo à encenação e à mentira, sem qualquer consequência?”. Este episódio ilustra como o debate em torno da burca ultrapassa frequentemente o campo político e se desloca para um terreno de disputa mediática, onde a circulação de imagens e excertos descontextualizados contribuem para a construção de narrativas polarizadas.

Ao refletir sobre as decisões e o debate público mais recente, é evidente que a discussão está longe de ser apenas sobre uma peça de roupa. É, acima de tudo, sobre visões de sociedade que se confrontam. Neste contexto, a burca tem vindo a assumir um lugar central num debate onde se cruzam argumentos sobre liberdade individual, direitos das mulheres, identidade cultural e segurança.

No entender da ex-deputada do Bloco de Esquerda, “pode-se defender perfeitamente o direito a usar a burca, mesmo quando se reconhece que esse direito não é, para todas as mulheres, uma escolha”. Para algumas, acrescenta, “trata-se de algo que é uma imposição do patriarcado ou mesmo uma imposição cultural, sem que isso exclua o facto de poder ser também uma marca de identidade, cultural e pessoal”. A coexistência destas dimensões tem marcado o debate público, evidenciando a dificuldade em enquadrar o tema de forma linear.

Ao longo dos últimos meses, a discussão pública tem oscilado entre diferentes leituras, nem sempre centradas nas experiências concretas das mulheres que usam este tipo de indumentária. Em vários momentos, o foco deslocou-se para o plano político e mediático, onde a burca surge frequentemente como um símbolo mobilizado em discursos mais amplos sobre imigração, religião e identidade nacional.

Também a cobertura mediática tem contribuído para esse enquadramento. A simplificação de propostas legislativas, a circulação de declarações fora de contexto e a amplificação de episódios polémicos nas redes sociais ajudaram a consolidar uma narrativa marcada por contrastes e interpretações imediatas. Neste processo, a complexidade do tema tende a perder espaço para leituras mais acessíveis, mas menos informadas.

Ainda assim, diferentes vozes têm chamado a atenção para a necessidade de uma abordagem mais equilibrada. A distinção entre imposição e escolha, bem como o reconhecimento da dimensão identitária associada ao vestuário, surgem como pontos centrais para uma compreensão mais abrangente do fenómeno. Tal como noutras áreas em que a roupa funciona como forma de expressão, também aqui os significados não são fixos nem universais. A forma como é discutida, e por quem, torna-se parte integrante do próprio problema. Enquanto o foco permanecer sobretudo no símbolo, e não nas realidades que lhe estão associadas, a discussão tenderá a manter-se incompleta.