O corredor de turistas que começa a chegar à Volta do Duche, ao final da manhã, cruza-se com Celeste, uma artista de rua que, com as suas pinturas em azulejo, rompe com a tendência dos tradicionais souvenirs e do comércio de massas. Há quase duas décadas que vem para Sintra pintar e vender as suas peças. “Os portugueses ainda cá vêm, mas há sempre mais turistas estrangeiros”, partilha. Celeste tem visto a paisagem humana a mudar e assiste às vagas de pessoas que, chegando ao Centro Histórico de Sintra, se dirigem para os famosos estabelecimentos, como a pastelaria Piriquita ou o Café Paris.
Todos os dias milhares de pessoas usufruem dos serviços da região. A empresa Parques de Sintra, que gere a atividade turística associada aos monumentos e património locais, conta com mais de três milhões de visitas por ano, das quais retirou uma receita total de 34 milhões de euros, em 2023, segundo o próprio relatório anual de contas. Em média, 8.200 turistas visitam todos os dias património ou monumentos sintrenses, a que se somam visitantes sem ingressos, que ficam de fora desta estatística. Em mês e meio, Sintra recebe quase tantos visitantes como o número de residentes de todo o concelho, que é de aproximadamente 400 mil.
Em média, 8.200 turistas visitam todos os dias património ou monumentos sintrenses, a que se somam visitantes sem ingressos, que ficam de fora desta estatística.
O turismo começa a revelar as fragilidades da região nas respostas à lei da oferta e da procura: “A gestão do território tem demonstrado uma visão segmentária focada nos monumentos enquanto fator de atração turística, e não uma visão integrada que valorize Sintra como património vivo e habitado”, contesta Nuno Agostinho, vogal da associação de moradores QSintra, que procura alertar para os desafios que a região enfrenta com o crescimento do turismo.
Turismo à boleia
A encosta não se mostra desafiante aos curiosos que sobem as apertadas ruelas e se dissipam entre monumentos, lojas, bares e restaurantes. O comércio vira-se cada vez mais para o turismo, mas esta tendência alerta para um desenvolvimento desequilibrado. “O despovoamento e a turistificação do centro histórico são processos que se estão a alimentar reciprocamente”, avisa Nuno Agostinho, numa altura em que se teme o afastamento da população local para os concelhos vizinhos. “Quantos mais visitantes, menos comércio de proximidade, mais lojas de souvenirs e menos habitantes”, acrescenta.

Catarina Casinhas tem 21 anos e trabalha em Sintra para pagar os estudos. Sentada atrás de um comprido balcão que expõe produtos de cortiça e os licores tradicionais, serve maioritariamente os estrangeiros que por ali passam. A loja, escondida nas costas de uma porta acanhada que interrompe os degraus de acesso ao Miradouro da Ferraria, tem uma oferta muito heterógena. Ainda que dirigido aos turistas, é um estabelecimento que procura satisfazer as necessidades dos habitantes locais: “Sabemos que as pessoas não têm padarias, talhos ou farmácias aqui perto. Por isso, os nossos fornecedores já enviam os produtos a contar com um pouco daquilo que elas precisam.”
“O problema do trânsito é um fator dissuasor das outrora habituais visitas. Passear ou vir cá almoçar passou a ser uma experiência difícil.”
Problemas de mobilidade
A sobrelotação que as ondas de turistas causam alastra-se para os problemas de mobilidade que afetam quem passeia, bem como os que precisam de chegar a Sintra para trabalhar. Catarina descreve o trânsito como caótico e assume que tem “manhas e truques” para conseguir lugar de estacionamento. As estradas que ligam os bairros históricos de Sintra também já não servem os habitantes locais. Carrinhas, pequenos autocarros e muitos dos famosos “tuque-tuques” competem na apetecida tarefa de levar os visitantes entre os pontos atrativos da capital portuguesa do romantismo.

Quem chega de comboio pode ser recebido por um enxame de carros UMM, da antiga União Metalo-Mecânica, única empresa portuguesa de automóveis. Estes jipes estão estrategicamente colocados para agarrar a atenção dos que desejam uma volta mais rápida pela região. A mobilidade precária nos bairros históricos de Sintra afeta a atividade turística e económica num círculo vicioso. “O problema do trânsito é um fator dissuasor das outrora habituais visitas. Passear ou vir cá almoçar passou a ser uma experiência difícil”, explica Nuno Agostinho. Os negócios que alimentam a tendência de fazer turismo à boleia dominam as ruas de Sintra.
As cancelas da estação ferroviária não são vigiadas por funcionários da CP, mas por guias palradores que dão as boas-vindas aos visitantes com arrojadas ofertas de passeios pela vila. “Uma volta em Sintra num novo Mercedes-Benz preto”, grita um dos guias que se deixou estacionado à saída das carruagens. Estes trabalhadores já nem dão uso ao português, mas alguns carregam megafones.

O movimento na região é motivado pela oferta turística e o que se tem vindo a notar é que a sua intensificação prejudica quer visitantes, como os que vivem do turismo. Pelo menos, é o que defende Ricardo Castro, gerente da “I Tour You”, uma destas empresas que organizam visitas a Sintra, que se queixa da morosidade nas deslocações entre os principais pontos turísticos: “A cada ano que passa temos mais dificuldades em circular e chegar ao centro histórico.”
“Sintra não tem capacidade para receber tantos carros e autocarros, já que uma única estrada é usada para chegar ao centro da vila.”
Um outro constrangimento a que o negócio de Ricardo Castro se vê sujeito é que, como constata, “Sintra não tem capacidade para receber tantos carros e autocarros, já que uma única estrada é usada para chegar ao centro da vila”. A esta enchente de veículos soma-se a falta de estacionamento, o que, segundo acrescenta, “leva a que os carros tenham de continuar em movimento repetido, que deixa as ruas bloqueadas nas horas de maior afluência”.

Os moradores dos bairros de Sintra, como São Pedro de Penaferrim, Santa Maria e São Miguel, já se juntaram aos movimentos contra a falta de controlo do turismo. Os cartazes que fazem cair sobre as fachadas das casas exigem respostas do poder local. “Sintra: trânsito congestionado no paraíso”, ou “Sintra ≠ Disneyland” são algumas das chamadas de atenção que se materializam nos cartazes. Ricardo Castro confessa que partilha da “frustração” que sentem os habitantes locais que se deparam com o “trânsito caótico e o estacionamento selvagem”: “Não vejo que tenham sido adotadas medidas por parte das autoridades competentes na resolução destas questões.”
A associação QSintra lançou esta iniciativa em julho de 2024, mas, passados dois anos, considera que “não há capacidade de escoamento para a carga atual”. Nuno Agostinho elenca as principais fragilidades: “longas filas de trânsito, falta de estacionamento periférico e a fraca resposta dos transportes públicos”.
A partir de 19 de março deste ano, a autarquia de Sintra acionou um conjunto de medidas e restrições ao trânsito, numa tentativa de reorganizar o território e pôr um travão no caos instalado na vila e estradas de acesso aos principais monumentos. O percurso até ao centro da vila está condicionado e os autocarros apenas circulam num perímetro pré-definido, além de só terem autorização de paragem para deixar sair e recolher os passageiros. As medidas foram monitorizadas durante o período da Páscoa, uma das épocas do ano com mais visitas, e que irão ser reajustadas em função dos resultados.
Em declarações à Imprensa, Anabela Macedo, vereadora responsável pelo pelouro da Segurança e Fiscalização Municipal, garantiu que haverá estacionamento para toda a gente, avançando que o parque do Lourel tem 543 lugares gratuitos. Informou ainda que há mais 450 no parque norte da estação da CP da Portela e 350 junto ao edifício municipal do Urbanismo. No total, segundo a autarquia, são cerca de 1300 lugares pagos e igual número de gratuitos. A Polícia Municipal e a GNR instalaram pontos de controlo operacional em vários locais de acesso ao centro da vila para encaminhar os automobilistas para os parques periféricos, assim como para fiscalizar e garantir que as regras são cumpridas.
O Diário LX contactou várias vezes a Câmara Municipal de Sintra para obter comentários às queixas sobre a mobilidade na vila e para perceber se as medidas recentemente acionadas estão a obter os resultados previstos, nomeadamente conseguir diminuir o impacto que o excesso de turismo tem nas populações, mas até à publicação deste artigo, a autarquia não respondeu a nenhuma das questões apresentadas.