Telma e Elias entram no edifício do Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA), em Benfica, com um brilho no olhar e um sorriso contido que contrasta com a dureza da sua realidade. À porta, são recebidos por voluntários já familiarizados com a sua presença regular. Assim que atravessam o pequeno átrio e chegam à sala, os olhos do filho mais novo percorrem rapidamente os cabazes alinhados ao fundo da sala. As mochilas que trazem às costas são rapidamente abertas, de onde saem três sacos vazios, que pouco depois regressaram cheios de alimentos e bens essenciais.
A felicidade e o alívio são visíveis à distância. Telma senta-se numa cadeira encostada à parede, pronta para partilhar um pouco da sua história. Enquanto aguarda, o filho, com um ar envergonhado, mas concentrado, começa a organizar cuidadosamente os produtos que lhe foram oferecidos: arroz, leite, conservas, massa e bolachas. O jovem segura um par de ténis usado, mas em bom estado na mão, depois de ter comprovado que lhe servia perfeitamente. Mesmo silencioso, o modo como os agarra diz tudo: é um presente que não esperava, mas que vai fazer a diferença.
O apoio da associação CASA tem sido uma salvação para esta família de cinco elementos: pai, mãe e três filhos, todos a frequentar os ensinos básico e secundário. Vivem num apartamento arrendado, onde os preços das rendas não param de subir. “Se não fosse o cabaz que recebemos todos os meses, muitas vezes, não havia nada na mesa para os miúdos. A renda come quase tudo. Sobra muito pouco para o resto”, confessa Telma.

A família saiu há uns anos de Angola rumo a Portugal para fugir das incertezas do país de origem. Ao chegar, tanto Telma como o marido conseguiram trabalho, empregos humildes, mas dignos, em limpeza e armazém. “Foi relativamente fácil encontrar trabalho, mesmo sem termos estudos superiores. Mas depressa percebemos que o custo de vida aqui é muito mais elevado do que imaginávamos. O ordenado mal dá para as despesas do mês”, confessa. Foi o desfasamento entre rendimento e custo de vida que os levou a procurar ajuda.
Através de uma amiga, ficaram a conhecer a associação CASA. Não hesitaram em tentar. Entregaram toda a documentação necessária – comprovativos de rendimentos, despesas, composição do agregado familiar – e aguardaram. “Foram três meses à espera. Foi um processo demorado, mas valeu a pena. Hoje, sabemos que temos um apoio que faz a diferença”, conta Telma com gratidão.
“Não pretendemos viver à custa de ninguém. Queremos apenas conseguir manter-nos de pé, cuidar dos nossos filhos e dar-lhes um futuro. A ajuda do CASA permite-nos respirar, permite-nos continuar.”
Desde então, de 15 em 15 dias, é Telma que se desloca à sede da associação para recolher os cabazes. A viagem faz-se sempre com o mesmo espírito: esperança e alívio. “Estes bens alimentares são uma ajuda preciosa. Mas também nos dão roupa, cadernos ou outras coisas que vamos precisando.” Cada saco cheio representa não apenas comida, mas também tranquilidade para mais uns dias. Apesar das dificuldades, Telma não se lamenta. Fala com serenidade, com um misto de resiliência e gratidão. “Não pretendemos viver à custa de ninguém. Queremos apenas conseguir manter-nos de pé, cuidar dos nossos filhos e dar-lhes um futuro. A ajuda do CASA permite-nos respirar, permite-nos continuar.”
“Procurámos tentar perceber em que é que podíamos apoiar estas pessoas… Hoje, em todo o país, ajudamos mais de seis mil pessoas.”
Carlota Aparício, coordenadora da delegação do CASA de Lisboa
De acordo com Instituto Nacional de Estatística (INE), existem dois milhões de pessoas em risco de pobreza em Portugal, 16,5% dos quais encontra-se na Grande Lisboa. É nesse contexto que o CASA – Centro de Apoio aos Sem Abrigo atua desde 2002. No início, a missão era distribuir refeições quentes a quem não tinha um teto ou o que comer, mas hoje distribui alimentos, bens, presta apoio psicológico e procura soluções de reinserção social a sem-abrigo, mas não só. A família de Telma é um dos 40 agregados familiares a quem esta entidade também presta apoio na zona da Grande Lisboa, mas ao todo são mais de 1500. Carlota Aparício, coordenadora da delegação do CASA de Lisboa, explica como tudo começou: “Procurámos tentar perceber em que é que podíamos apoiar estas pessoas. Uma das maiores dificuldades sentidas era o acesso a uma alimentação e uma refeição quente. Portanto, isto partiu tudo da ideia de podermos começar a confecionar refeições para entregar a estas pessoas. Em todo o país, ajudamos mais de seis mil pessoas.”





Quando o ordenado não estica
Telma deixa a rua Álvaro de Castro, onde se situa as instalações da CASA de Lisboa, na companhia do filho. Poucos minutos depois, a campainha volta a tocar. Na entrada, uma nova visitante: Emília, 40 anos, de rosto cansado, mas sorriso cordial. Entra com passos apressados e um saco nas mãos. Vive na periferia de Lisboa, num pequeno apartamento alugado que partilha com cinco outros familiares. A sua história, tal como a de muitas outras famílias em situação de vulnerabilidade, é marcada pela luta diária por dignidade e estabilidade. “É muito difícil conseguir dar conta de tudo. Por vezes, chego ao fim do dia sem força, mas tenho de aguentar porque os outros dependem de mim”, conta de forma emotiva.
Emília é mãe de dois filhos adolescentes, ambos estudantes do ensino público. Além deles, acolhe duas sobrinhas menores que ficaram ao seu cuidado, após a separação dos pais. No mesmo lar, vive ainda o pai, um homem de idade avançada que sofre de insuficiência renal crónica, dependente de uma alimentação regrada e de cuidados de saúde regulares. É Emília quem garante tudo isso – e consegue-o sozinha.
“Os cabazes são uma bênção. Sem eles, muitas vezes, não teríamos nada para colocar na mesa.”
Trabalha como empregada de limpeza em regime precário, recebendo o salário mínimo nacional. O rendimento, ainda que fixo, é insuficiente para cobrir todas as despesas de um agregado tão numeroso. “A renda aumentou para 700 euros. Pagamos porque temos medo de perder o teto. Mas depois, como é que damos de comer aos nossos filhos?”, desabafa, com os olhos marejados. “Os cabazes são uma bênção. Sem eles, muitas vezes, não teríamos nada para colocar na mesa.” A principal queixa das famílias carenciadas é, realmente, ao nível da habitação, o que requer muito mais esforço por parte do CASA. “Não basta darmos-lhes uma habitação”, sublinha Carlota Aparício.
O drama de Emília vai além da alimentação. A casa onde vive não está equipada com muitos dos eletrodomésticos que hoje consideramos básicos: não há máquina de lavar loiça, nem micro-ondas. Muitos móveis são doados, outros improvisados. As crianças partilham os mesmos materiais escolares, reciclando cadernos e mochilas entre anos letivos. A roupa chega maioritariamente através de doações. “Tudo ajuda”, refere Emília.

Em nome de uma causa social
Embora com meios limitados, a associação de apoio social tem sido uma salvação. Fornece alimentos, roupas e, em algumas ocasiões, até pequenos eletrodomésticos usados. “Eles fazem o que podem. E nós agradecemos com o coração cheio”, afirma. A funcionária da associação que a atende confirma: “A Emília é uma das utentes mais assíduas. Nunca pede mais do que precisa. É uma mulher batalhadora.”
Apesar das dificuldades, Emília recusa perder a esperança. Mantém os filhos na escola, ensina-os a valorizar o pouco que têm e sonha com um futuro melhor. “Quero que estudem, que tenham oportunidades que eu não tive. Que consigam sair deste ciclo.”
O caso de Emília não é único, mas é representativo de uma realidade que persiste, muitas vezes silenciosa, nas margens da sociedade. Entre rendas que não param de subir, salários estagnados e apoios sociais insuficientes, muitas famílias vivem num equilíbrio frágil, constantemente ameaçado pela instabilidade.
Nos últimos anos, verificou-se, segundo Carlota Aparício, uma mudança de mentalidades. Hoje, o CASA conta com 1500 voluntários no país. “A população mostrou-se mais recetiva a colaborar nas atividades organizadas, principalmente os jovens, através de projetos nas escolas e faculdades”, refere. As empresas têm sido outro grande apoio para a associação. “Começa a ser incutido nas empresas uma responsabilidade social. Já há equipas que se dedicam exclusivamente a esta causa social e em poderem proporcionar aos trabalhadores um espaço onde eles possam utilizar uma percentagem do seu horário para apoiar estas causas.”

Cabaz milagroso
Após alguns minutos de silêncio, a porta volta a abrir-se. Entra uma jovem magra de 20 anos, de olhar cansado e passos hesitantes. O ar exausto denuncia noites mal dormidas e dias marcados por preocupações constantes. Vem buscar, mais uma vez, o cabaz alimentar que a tem ajudado a sobreviver.
“Precisamos deste apoio com tudo o que tem acontecido. A casa está cheia de humidade, há dias em que nem conseguimos aquecer uma refeição decente… A gente sente vergonha, mas a fome é pior.”
Alexandra vive com a família, um agregado de cinco pessoas, composto por dois homens e três mulheres. Apenas dois elementos trabalham e os rendimentos, já por si escassos, mal chegam para cobrir as despesas mais básicas. A casa onde vivem é pequena, degradada e pouco funcional, o que agrava ainda mais o desconforto do dia a dia. A situação familiar é delicada: a irmã mais nova, Rita, ainda menor de idade, está grávida. A notícia abalou profundamente o núcleo familiar, já fragilizado pela precariedade e pela falta de perspetivas. “Precisamos deste apoio com tudo o que tem acontecido. A casa está cheia de humidade, há dias em que nem conseguimos aquecer uma refeição decente… A gente sente vergonha, mas a fome é pior”, desabafa. O cabaz que recebe de 15 em 15 dias da associação CASA torna-se um alívio temporário. “Tem arroz, massa, leite, coisas básicas. Com isso, dá para ir esticando os dias. Às vezes, partilhamos entre todos o que há e rezamos para que chegue até à próxima entrega.”




Em certos casos, os momentos de entrega das refeições funcionam, como constata Carlota Aparício, como a única forma que estas pessoas têm de receber algum tipo de afeto: “Ao longo dos anos, fomos criando ligações com as pessoas que estão na rua. Não é só a refeição, mas também é um momento de partilha. No entanto, também temos aquelas que não são nada faladoras ou que acabam por descarregar um bocadinho as suas frustrações em nós.”
“Só quero arranjar um trabalho fixo. Voltar a ter uma rotina, dar uma vida decente às pessoas que amo. Ainda acredito que é possível.”
Alexandra partilha que a maior dor não vem apenas da falta de dinheiro ou de comida, mas da sensação constante de impotência. “Não é só sobreviver. É viver com a dignidade em pedaços. Tento sorrir pela minha família, mas há dias em que me apetece desaparecer. Parece que estamos sempre a cair num buraco sem fundo.” Esta realidade, apesar de comum a muitas famílias em situação de vulnerabilidade, raramente é exposta de forma tão crua.
A jovem, no entanto, não perdeu totalmente a esperança. Apesar das circunstâncias adversas, continua a acreditar que um futuro melhor pode estar ao seu alcance. “Só quero arranjar um trabalho fixo. Voltar a ter uma rotina, dar uma vida decente às pessoas que amo. Ainda acredito que é possível.” A força com que pronuncia estas palavras contrasta com a fragilidade física que aparenta, revelando uma resiliência silenciosa.
A ajuda da CASA não é a solução definitiva, mas representa, para Alexandra e muitas outras pessoas, um sinal de que não estão totalmente sós. “É o que me faz aguentar mais uma semana”, diz, enquanto segura o saco com os alimentos. “Talvez um dia, em vez de vir buscar ajuda, possa vir dar.” Carlota Aparício tem consciência da relevância do projeto que integra, mas sabe que é uma gota no oceano. “A ajuda que damos é importante, mas não substitui políticas públicas eficazes no acesso à habitação.”