Evitar notícias: a nova tendência do consumo de informação

“Não vejo telejornais e não leio jornais. Quando algo me interessa, faço a minha própria pesquisa.” A frase é de Paula Ribeiro e descreve o que os investigadores chamam de ‘news avoidance’, um comportamento em que o cidadão, de forma consciente, decide afastar-se da informação diária. Segundo o 'Digital News Report Portugal', 35% dos portugueses admite não consumir notícias com frequência e cerca de 70% evita-as em algum grau. A tendência tem-se reforçado ao longo da última década, revelando um padrão cada vez mais consistente

EA sensação de que as notícias estavam a afetar a saúde mental e a estabilidade emocional começou a ser evidente de dia para dia. Perante esta constatação, Paulo Ribeiro começou a distanciar-se de forma gradual da informação. “Apercebi-me que as notícias me afetavam, que me faziam sentir impotente perante tanta tragédia. Sentia-me mal e como não podia fazer muito para mudar aquilo, decidi afastar-me”, conta.  Este fenómeno não é exclusivo para Portugal.  Há um aumento consistente em praticamente todos os países do centro e sul europeu, em particular no Reino Unido com 47%.

Vanessa Miranda vive em Londres e reconhece esse padrão.  “Aquilo que percebi é que havia informação que não me estava a fazer diferença, só me criava ansiedade. Reparava que, se começasse o meu dia a ler notícias, já não tinha tanta vontade de sair, o meu espírito já não estava tão positivo e acabava por estar focada em coisas que eu não podia alterar.” Para ela, foi também um mecanismo de defesa. «Embora goste muito de estar informada e de ler, decidi que, para o meu bem-estar psicológico, era melhor fazer essa escolha, não ver quando não quero ver, e quando vejo, fazer uma seleção extra daquilo que leio.”

Miguel Paisana, investigador do CIES (Centro de Informação e Estudos em Sociologia) do ISCTE e um dos redatores do Digital News Report Portugal, confirma que o fenómeno ganhou força num período marcado pela acumulação de assuntos de grande carga mediática. “Foi uma vaga da pandemia, as legislativas de 2022 e a antecâmara da guerra da Ucrânia. São três temas difíceis, são pesados.”

Tiago Mendes também sentiu necessidade de se afastar e recorda que foi nessa fase que o impacto se tornou evidente: “Lembro-me de ter começado na altura da guerra da Ucrânia. Era a primeira guerra dentro da Europa na nossa geração e isso teve um enorme impacto. Estava constantemente a acompanhar as notícias, no tablet, nas redes sociais, enquanto jogava ou estava com amigos. Lembro-me de ter passado duas semanas a consumir informação sobre o conflito. Mas chegou a um ponto em que pensei: ‘Parece que o mundo está sempre em colapso.’ Criei uma perceção da realidade baseada apenas naquilo que as notícias me mostravam.”

Excesso de informação e sensacionalismo

Os especialistas têm identificado que a saturação informativa tem sido também uma das principais causas deste distanciamento. Vivemos num mundo cada vez mais digitalizado, onde temos sempre um ou mais dispositivos a transmitir sons, vibrações e estímulos constantes. A sucessão de notificações, atualizações automáticas e fluxos contínuos de conteúdos faz com que a informação circule mais rápido do que a capacidade humana para a assimilar. Como explica o psicólogo Hugo Henriques, “o nosso cérebro tem limites em termos de atenção, de processamento emocional e de informação que conseguimos também absorver. Quando esta exposição ultrapassa estes limites, surgem os mecanismos naturais de autoproteção.” A mesma linha de raciocínio é sublinhada por Miguel Paisana: “Pode acontecer que estejamos simplesmente fartos de receber conteúdos. Nem tem a ver com o facto de serem conteúdos noticiosos.”

Entre as conversas, há mais uma ideia que se repete a falta de equilíbrio nas notícias. Tiago Mendes formula-a desta forma: “O modo como os meios de comunicação constroem as notícias contribui muito para o mal-estar. Os jornais, sejam online, impressos ou televisivos, querem captar a atenção do público. E o que atrai mais visualizações? As desgraças. Por isso, constroem as narrativas de forma a prender as pessoas, muitas vezes de maneira tendenciosa.” Vanessa Miranda sente o mesmo: Acho que o dia a dia está cheio de sensacionalismo. O sensacionalismo está um bocadinho desmedido e sem regras.” Paula Ribeiro vai mais longe: “O público está viciado nesse tipo de conteúdo porque é o que lhe é oferecido. Hoje em dia, ninguém está completamente bem informado. Nenhuma informação é totalmente isenta. Há sempre manipulação ou omissão.”

A velocidade com que a informação circula dificulta a verificação por parte do público e torna mais exigente o trabalho jornalístico. Ricardo Brigas da Costa, jornalista da TV Record Europa, considera que “a falta de renovação nas redações é um dos principais fatores que explicam a atual perda de confiança do público no jornalismo”. E justifica: “Há menos pessoas na redação a trabalhar, o que implica muito mais trabalho e menos tempo para conseguir ver e fazer as coisas bem. Os nossos editores, os nossos chefes, querem tudo ao minuto, querem ser os primeiros e, às vezes, a notícia não vai correta.”

A repetição constante de conteúdos contraditórios, alarmistas ou não verificados aumenta a sensação de desorientação e contribui para o desgaste emocional. Vanessa Miranda descreve o processo com precisão: “Há muita notícia do género ‘aconteceu isto’ e depois carregamos e, afinal, não tem nada a ver com a história, ou é um bocado criada só para gerar cliques. Acaba por trazer à pessoa uma sensação enganadora. Antes, sabíamos que uma notícia era verdadeira; agora é preciso alguém vir dizer se é ou não.” Quando a distinção entre fontes credíveis e conteúdos manipulados exige esforço permanente, a tendência para o afastamento torna-se compreensível.

Reconstruir a confiança

Em 2025, segundo o mesmo relatório, 71% dos portugueses declararam sentir-se incomodados com a desinformação e a dificuldade de distinguir o que é real ou falso na internet, um grau de apreensão bastante acima da média mundial de 58%, o que posiciona Portugal entre os países mais alarmados com este fenómeno. 

Ricardo Brigas da Costa sublinha que a desinformação não é produzida pelo jornalismo profissional: “Os canais têm feito um grande esforço para detetar essas notícias falsas, que não são feitas por nós jornalistas.» Contudo, reconhece que “esse esforço ainda não é suficiente, uma vez que é necessário reconquistar a confiança do público, atualmente mais inclinada para partidos políticos e figuras públicas. Divulgam aquilo que querem, passam a mensagem que querem e depois dizem que é a maior verdade. As pessoas acreditam, porque já não acreditam no jornalismo.” Apesar desta realidade, o jornalista nota que o setor tem procurado reagir: “Os canais agora, e os próprios jornais, têm criado plataformas de verificação de notícias e estão a fazer o seu melhor, comprovando com factos e com provas.”

A visão crítica dos entrevistados reforça a necessidade para essa mudança. Paula Ribeiro resume o sentimento de muitos: “Gostava que houvesse mais equilíbrio entre o negativo e o positivo. Existem muitas coisas boas a acontecer no mundo e raramente ouvimos falar delas. As notícias deviam ser mais verdadeiras e menos tendenciosas.” Por sua vez, Tiago Mendes relaciona essa esperança com o modo como o jornalismo é apresentado: “Se houvesse uma mudança no formato, um jornalismo menos alarmista, mais construtivo, talvez voltasse a ver aos poucos. Se as notícias mostrassem também soluções, dados e contextos, em vez de apenas problemas, o consumo seria menos pesado. Talvez voltasse a ver o telejornal enquanto fazia o jantar, sem sentir aquela carga negativa.”

O trabalho de reconstrução não cabe apenas aos media. O psicólogo Hugo Henriques sublinha a importância de estratégias de autocuidado, literacia e seleção por parte do público. “É necessário limitar o tempo e a frequência da exposição. Por exemplo, consultar as notícias uma ou duas vezes por dia, em horários definidos, e não ser uma coisa que se vai fazendo quando se tempo livre.” O terapeuta alerta ainda para riscos específicos: “É muito importante evitar este consumo antes de dormir porque notícias à noite têm sempre aquele efeito catastrófico dos pesadelos.” E deixa um conjunto de orientações práticas: “Selecionar fontes confiáveis e equilibradas, definir temas prioritários para evitar sobrecarga e recorrer a técnicas de regulação. Respiração, exercício físico, coisas que ajudem a combater a reatividade emocional às notícias.” Por fim, Hugo Henriques chama a atenção para um ponto central: “O que é mais importante é começarmos a ter aqui mais literacia mediática, isto é, ensinarem as pessoas também a discriminar o que são factos de opiniões. As pessoas têm de saber selecionar melhor o que é que é dito e não tomar tudo como verdade.”

A nova relação com as notícias

Para muitos leitores, espetadores ou ouvintes, a relação com as notícias deixou de ser apenas um hábito e passou a ser uma escolha para o bem-estar. Paula Ribeira é perentória: “Sinto-me muito melhor. Tenho a certeza de que se voltasse a ver notícias, iria tornar-me a sentir pior.”  Vanessa Miranda encontrou a maneira para estar informada sem ficar com a vida em pausa: “Eu não quero deixar de viver ou deixar de ir aos sítios. Quero proteger-me para ir com confiança e estar feliz. E acho que foi essa a forma que encontrei. Vejo isso como: ‘não podes comer doces todos os dias, portanto. não podes consumir notícias todos os dias.” Tiago Mendes reconhece a mudança: “Agora, sinto-me diferente. Tenho consciência do que acontece, mas sem que isso me pese tanto. Percebo que há realidades difíceis, mas não são a minha. Hoje sei a sorte que é poder desligar: basta mudar de canal ou pousar o telemóvel, e o problema deixa de estar à minha frente. Nem todos têm esse privilégio.”

As três vozes não representam um afastamento uniforme nem definitivo, mas revelam um sinal da atualidade. Num mundo saturado de estímulos, informar-se já não significa estar sempre ligado. O desafio, para os media e para o público, será, como sugere Hugo Henriques, “encontrar um ponto onde a informação não deixe de cumprir o seu papel e onde o equilíbrio não implique o afastamento”.vitar notícias: a nova tendência do consumo de informação

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