Ouvem-se os rolos de tinta a girar nas máquinas de escrever; o som metálico das teclas a preencher a sala. O telefone fixo não para de tocar. Talvez uma fonte, talvez o editor. O estafeta do correio deixa sobre a secretária um novo envelope carimbado. Numa sala ao lado, o cheiro a químicos denuncia o laboratório fotográfico: as imagens do dia estão a ser reveladas, num processo demorado até surgir a fotografia para a primeira página. Lápis, borrachas, papéis e cinzeiros disputam espaço nas mesas sobrecarregadas. Estamos numa redação portuguesa da década de 80.
Quarenta e cinco anos depois, o cenário é outro. O tilintar das teclas deu lugar ao som discreto dos teclados modernos. O correio físico desapareceu, substituído por e-mails instantâneos, e as fotografias já não se revelam, editam-se com um clique. Já não há máquinas de escrever, há máquinas que escrevem.
Primeiro estranha-se, depois faz parte da rotina
É como diz o famoso slogan, quase como um ditado popular, criado por Fernando Pessoa para o lançamento da Coca-Cola em Portugal, em 1920: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.” Mas há quem ainda esteja preso à primeira frase. “Há muitos jornalistas que não conseguem aceitar toda a evolução digital atualmente. Não querem evoluir também com ela”, afirma João Pedro Fonseca, jornalista da Agência Lusa.
Apesar do receio que acompanha a ascensão da Inteligência Artificial nas redações, a realidade está longe daquilo que muitos imaginam. A IA não escreve a maioria das notícias que os portugueses leem. O que faz, na verdade, na maior parte das vezes, é o trabalho “invisível”. Acelera, automatiza, auxilia.
Segundo o estudo Jornalistas e Inteligência Artificial: perceções, práticas, desafios e oportunidades, do Observatório Social para a Inteligência Artificial, 40,5% dos jornalistas inquiridos usam a IA para otimizar o tempo e 75,7% recorre a ferramentas de tradução automática, como o Google Translate e o Deepl.
Deste modo, compreende-se que a IA seja, sobretudo, uma muleta que poupa minutos preciosos, mas nunca substitui a revisão humana. “Já há jornalistas que não se imaginam a viver sem as ferramentas de transcrição e tradução, mas nós somos sempre responsáveis pela notícia que escrevemos. Tem de haver sempre verificação, porque às vezes as ferramentas interpretam mal certas palavras”, assegura João Pedro Fonseca. E o próprio jornalista sabe-o bem. Ou, pelo menos, acompanhou de perto quem o teve de aprender da pior maneira.

A desinformação artificial
Nos corredores da Lusa, a história tornou-se lendária. Era 2014, dia de anúncio dos Prémios Nobel, um dos dias mais caóticos do ano. Notícias de última hora, segundos cronometrados e a pressão de publicar antes da concorrência. Um jornalista, responsável por escrever as peças, recorria a uma ferramenta de tradução automática para ganhar tempo. Recebia o nome do vencedor em inglês, traduzia num clique e disparava a notícia para o país. Até que chegou o Nobel da Química: Stefan Hell. O jornalista colocou o nome na ferramenta e, em segundos, a máquina devolveu: “Stefan Inferno.”
O erro foi rapidamente detetado e apagado, mas ficou o alerta. A Inteligência Artificial é eficiente, mas apenas interpretativa. E se nas tarefas operacionais a confiança é ainda moderada, no que toca à produção de conteúdo ou à pesquisa informativa, o cenário muda. Ferramentas como o ChatGPT ou Perplexity são impressionantes, mas carregam consigo um problema ainda maior: a desinformação convincente.
Segundo o estudo IA Generativa: Riscos e Oportunidades para o Jornalismo, do Observatório da Comunicação (OberCom), as principais preocupações nas redações portuguesas são a falta de rigor da informação e a perda de qualidade dos conteúdos, com cerca de 85% dos inquiridos a votar. O plágio e violação de autor registaram 67%. Ou seja, o grande medo não é perder o emprego para uma máquina, mas que a máquina comprometa a credibilidade do jornalista.
O alerta vai para além das traduções erradas. Luís Moniz Pereira, investigador em Ciências da Computação e Inteligência Artificial, recorda que, em vários países, do Japão à Arábia Saudita, existem pivôs de telejornais que, de facto, não são reais – são Inteligência Artificial: “O público não distingue. Já não se consegue distinguir se é realmente humano, a não ser que seja presencial. Fazem telejornais com estes avatares.” A linha entre a realidade e o virtual está a tornar-se cada vez mais ténue, e o jornalismo sente o impacto diretamente.
A credibilidade dos dispositivos
É neste cenário que a transparência deixa de ser apenas uma preocupação ética e passa a ser essencial. Se avatares conseguem enganar o público de forma convincente, até que ponto os jornalistas devem revelar quando uma máquina participou no processo, seja na tradução, transcrição, pesquisa, edição ou até na escrita? Para Paulo Couraceiro, o foco não deve estar tanto na tecnologia usada, mas sim nas fontes que efetivamente sustentam a informação: “Importa muito mais ser transparente com as fontes. Se há informação-chave retirada de um determinado site, o que interessa é esse contributo e não se o link nos foi sugerido pelo Google, pelo ChatGPT ou por outra ferramenta. A IA aqui funciona apenas como mediadora”, defende, sublinhando que a credibilidade reside na confirmação humana dos factos e não no intermediário que os aponta.

Do outro lado da discussão está Ana Marta M. Flores, investigadora do ICNova, da Universidade Nova, na área do jornalismo e media digitais, para quem a omissão da presença de IA representa um risco para a confiança do leitor: “A transparência é parte da credibilidade. Mesmo que o uso seja técnico, o leitor tem direito a saber quando uma máquina participou no processo. Identificar ‘assistência por IA’ é um ato de ética e responsabilidade editorial e deveria tornar-se prática comum.”
Apesar desta atenção crescente, relativamente ao tema, o retrato real das redações portuguesas mostra que a transparência ainda está longe de ser regra. De acordo com o estudo já mencionado – Jornalistas e Inteligência Artificial: perceções, práticas, desafios e oportunidades -, metade dos jornalistas afirmou que a identificação do uso de IA “não se aplicava” ao seu contexto. Apenas 12,2% reconheceu que as ferramentas eram mencionadas ao público.
O problema é estrutural. Esse mesmo estudo revela que menos de 3% das empresas de media possuem diretrizes específicas para o uso de IA, apesar de 98,6% dos jornalistas considerarem urgente definir normas claras que garantam a integridade ética do trabalho.
Os números refletem uma necessidade de regulamentação e alinham-se com o estudo da OberCom, que revela que 90% dos documentos analisados pelos criadores desse mesmo estudo defendem que o uso da IA deve ser divulgado ao público, sobretudo quando ultrapassa funções meramente auxiliares. A mensagem é clara: a transparência deixa de ser opcional e torna-se central, para manter a confiança no jornalismo.
O jornalista do futuro
A questão não se resume à ética. A Inteligência Artificial já não é apenas uma presença discreta nas redações. Se antes funcionava quase como um ruído de fundo, hoje provoca mudanças que poucos jornalistas conseguem ignorar. O chão parece mover-se debaixo dos pés, não apenas porque há tarefas que a IA executa mais depressa, mas porque está a redesenhar o próprio mapa do que significa ser jornalista.
Tal como é mencionado no estudo IA Generativa: Riscos e Oportunidades para o Jornalismo: “A suposição de que a automação irá apenas eliminar empregos ignora a possibilidade de que novas classes de empregos sejam criadas, particularmente empregos que exijam competências associadas ou complementares à IA.” Nessa mesma investigação, 82% dos profissionais inquiridos na área do jornalismo afirma que as novas ferramentas estão a alterar funções e responsabilidades dentro das redações. Mas enquanto a IA acaba por criar funções para os jornalistas, coloca diante dos jornalistas o desafio de lidar com máquinas cada vez mais sofisticadas e potencialmente autónomas.
E é exatamente esse desafio que Luís Moniz Pereira analisa. Para o especialista, os dispositivos podem tornar-se progressivamente autónomas. “As máquinas vão evoluir em conjunto connosco e nós vamos ensiná-las. Vamos dar-lhes autonomia e ter confiança nessa autonomia. Para termos confiança, temos de lhes dar as capacidades necessárias para aquilo que estamos a pedir delas. Poderão ter capacidade de autocrítica, de olhar para dentro de si, detetar erros, raciocinar”, explica.
O futuro da autonomia das máquinas gera muita incerteza nas redações. Contudo, é certo de que a IA está a criar cargos e funções para os jornalistas. No final de 2023, o The New York Times inaugurou o cargo de diretor editorial de Iniciativas de Inteligência Artificial, responsável por integrar soluções generativas na rotina da redação. Ainda assim, o estudo da OberCom sublinha que a formação contínua é urgente. A profissão exige uma preparação dos jornalistas, para que consigam interpretar, contextualizar e validar conteúdos produzidos por IA. João Pedro Fonseca acredita: “A Inteligência Artificial não vai acabar com o jornalismo. No entanto, quem não dominar as ferramentas de IA não terá lugar nesta profissão.” No fundo, não se trata de substituir o jornalista. Trata-se de prepará-lo para um mundo onde a máquina já não é apenas uma ferramenta, mas uma nova linguagem.