
“Vai dizer que a peça foi roubada”. Foi o que pensou João Neto, diretor do Museu da Farmácia, quando se deparou com um homem que chorava, ao observar uma das exposições da casa. Tratava-se de um cidadão iraquiano e o artigo em questão constituía a farmácia islâmica do século XIX adquirida, na altura, para integrar o espólio do museu. Apesar da surpresa, o mal-entendido durou pouco e, anos mais tarde, o responsável pelo museu ainda se emociona ao lembrar as palavras que ouviu do visitante, assim que o abordou. “Ainda bem que esta peça está aqui. Estou a viver em Portugal e isto liga-me à minha história”, confidenciou-lhe, entre lágrimas.
Para o diretor, “é isto que um museu deve ser”. À frente da direção do espaço desde a fundação, em 1996, João Neto explica que o seu “diferencial está no esforço da equipa em criar referências emocionais em quem aqui passa”. A aposta na criação de vínculos com o público tem sido uma constante ao longo da história – quase trintenária – do Museu da Farmácia e, para o responsável pelo espaço, é essa característica que o distingue no cenário museológico português. “Não quero que as pessoas levem todas as peças no coração, mas uma, aquela que lhes tenha feito mais sentido”, sublinha.

As visitas guiadas são um elemento fulcral para a identidade do espaço. “Não podem ser como cassetes. Têm de ser emocionalmente ricas”, defende. Dentro da diversidade social de visitantes que recebe, João Neto realça que as conexões com o público são fruto da maneira como a comunicação é feita pelos guias e exemplifica a singularidade das sessões, ao recordar a vez em que recebeu “um grupo de mulheres africanas” e, abdicando do papel convencional de anfitrião, se limitou a ouvi-las. “Vocês é que me vão dizer como é que era a vossa saúde e o que é que os vossos avós faziam perto destas peças africanas. Saíram todas com um sorriso na cara”, recorda, emocionado.
“Quem não nos conhece pensa sempre que somos um museu de caixinhas e frasquinhos”, brinca o também ex-presidente da Associação Portuguesa de Museologia. No entanto, poucos minutos pelos corredores do edifício na Rua Marechal Saldanha, em Lisboa, são suficientes para perceber que não é esse o caso. Das reconstituições em tamanho real de farmácias históricas portuguesas aos kits farmacêuticos portáteis utilizados em viagens espaciais, até o diário científico original usado pela farmacêutica e professora catedrática Odette Ferreira, na investigação que culminou na descoberta do vírus VIH do tipo 2, faz parte da coleção.
“Tem sido muito importante dignificar todas as culturas e civilizações e mostrar que, ao longo da história, a farmácia recebeu contributos de todas.”
A par dos artigos mais inusitados, o museu apresenta-se – não fosse João Neto historiador de profissão – como uma verdadeira montra da farmácia pelo mundo. China, Grécia Antiga e Mesopotâmia são algumas das civilizações contempladas no retrato espaciotemporal da área que o local oferece, a partir de objetos – alguns deles milenares – de diferentes zonas geográficas que marcaram a evolução das ciências da saúde. “Tem sido muito importante dignificar todas as culturas e civilizações e mostrar que, ao longo da história, a farmácia recebeu contributos de todas.”

Da ciência às referências populares
Ao percorrer os expositores do museu, a curiosidade e o questionamento são, num primeiro momento, inevitáveis. Agatha Christie, Sherlock Holmes e Eça de Queirós são algumas das personalidades que cruzam os olhos dos visitantes no Museu da Farmácia. Antes de ler os textos que complementam as exposições, a relação entre os elementos pode parecer estranha, mas, na verdade, é tudo planeado. “A estratégia é criar boas histórias”, elucida João Neto. Um livro, uma música, um filme, tanto faz: o diretor agarra em objetos de universos artísticos e coloca-os no museu. A vacina contra o cancro, presente na obra cinematográfica Medicine Man, é um exemplo. Com este método, o diretor ambiciona que as pessoas “criem relações entre aquilo que conhecem e as peças da casa”.
“Nunca comprei nenhuma peça por ser bonita, mas sim por aquilo que pode dar de conhecimento às pessoas.”
A reflexão a partir dos objetos é essencial para o historiador. Ainda sobre Medicine Man, destaca que “a ação se desenrola na floresta Amazónica e que destruir a natureza, na verdade, pode significar a eliminação de pistas para novos medicamentos.” Nessa ótica, justifica: “Nunca comprei nenhuma peça por ser bonita, mas sim por aquilo que pode dar de conhecimento às pessoas.” Quase como o detetive britânico representado na coleção do século XIX, investiga passo a passo os objetos para o local. “Sou completamente viciado nisso. Os meus filhos dizem que tenho dois olhos: um para ver o mundo e o outro para caçar peças”, partilha.

Para os de fora, o Museu da Farmácia pode ser compreendido apenas como um espaço de celebração da ciência. Porém, as vivências de João Neto no local demonstram o contrário. No primeiro piso, pode ser visto um dente de narval, conhecido como um corno do unicórnio, elemento utilizado na farmácia desde a Idade Média para tratar várias doenças. Enquanto aos mais novos o objeto remete para programas televisivos, para outras pessoas é um símbolo da religião cristã de pureza e divindade. “A fé move muitas pessoas, já encontrei algumas a rezar com a mão no unicórnio.”

O amor pela história que desafia a modernização
O desejo de existir um espaço que preservasse o património farmacêutico nacional vinha, como conta o historiador, desde o início do século XX. Numa das primeiras salas, o convidado entra numa máquina do tempo que o transporta para 1890, ano em que surge a primeira farmácia liberal em Lisboa. Os móveis em madeira, os recipientes de medicamentos que mais lembram peças de arte e a porta que indica o laboratório do químico farmacêutico Alcindo Teixeira em nada se parecem com os estabelecimentos farmacêuticos do presente.

Com a entrada de Portugal na União Europeia, sintoma da vontade de evoluir tecnologicamente o país, “pressionou-se” o próprio mobiliário das farmácias. Um exemplo de resistência é a Farmácia Barreto, localizada no Largo de Camões. “É preciso ter um grande amor à sua história para que aqueles armários ainda lá estejam”, salienta João Neto. O Museu da Farmácia, que celebra estas e outras descobertas do passado, presente e futuro do ramo científico, apresenta-se, segundo o diretor, como “um dos melhores cartões de visita da dignificação que o farmacêutico representa na salvaguarda da saúde”.
“Quando me perguntam se já tenho tudo, a resposta é sempre não. O museu está sempre incompleto.”






Apesar da variedade de objetos que já se encontram no museu, João Neto garante que, ao fim de 30 anos de portas abertas a público, a coleção está longe de ser concluída, até porque, segundo explica, “estão sempre a aparecer novos medicamentos”. O número de peças vai continuar a aumentar, fruto, por um lado, da paixão pela investigação do diretor, mas também da própria evolução da humanidade. “Quando me perguntam se já tenho tudo, a resposta é sempre não. O museu está sempre incompleto”, assegura.