Escola Afonso Domingues: manifesto crítico contra o progresso não cumprido

Fundada em 1884 e outrora apelidada de “a universidade de Xabregas”, a antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, permanece hoje como um esqueleto de betão esquecido pelo tempo. Encerrada abruptamente em março de 2010 para dar lugar à projetada Terceira Travessia do Tejo, um plano ferroviário de alta velocidade que a crise económica acabou por ditar o seu congelamento, a
instituição viu o seu papel vital na comunidade de Lisboa ser substituído por anos de vandalismo e profunda degradação. Onde antes se formavam gerações de operários especializados e mentes ilustres, como o Prémio Nobel José Saramago, hoje restam apenas salas de aula despidas, corredores em ruínas e memórias que resistem à demolição iminente do complexo.
Esta decadência silenciosa ganha agora uma nova narrativa através das lentes do Diário LX, numa reportagem fotográfica que capta o contraste entre a antiga vivacidade escolar e o vazio atual. Cada imagem serve como um arquivo visual da perda de património público, revelando quadros-negros partidos, grafites que cobrem as paredes antes povoadas por milhares de estudantes noturnos e a
vegetação que reclama o pátio. Mais do que documentar a ruína física daquela que foi uma referência do ensino profissional, o registo fotográfico funciona como um manifesto crítico sobre as promessas não cumpridas do planeamento urbano da capital, forçando o leitor a confrontar o preço do progresso que nunca chegou.

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