Quinta pedagógica na Lourinhã: aprender a respeitar a Natureza

Numa época em que os adultos vivem sobrecarregados pela correria do trabalho e as crianças recorrem cada vez mais a meios digitais como forma de distração, a Quinta Pedagógica da Ti Tila, situada na aldeia da Abelheira, concelho da Lourinhã, pretende trazer visibilidade à zona rural, mas sobretudo promover o contacto de miúdos e graúdos com a Natureza

Maria Clotilde Vicente, conhecida localmente por Tila, 70 anos, trabalhou durante anos, num Vogelpark, um parque especializado em aves, na Alemanha. A experiência despertou-lhe o amor por promover o contacto das crianças com a Natureza. Em 2018, colocou alguns porquinhos-da-índia no quintal da sua casa, na Abelheira, e o momento haveria de ser o início de algo muito maior. A Quinta Pedagógica abriu as portas a 4 de julho de 2026 e hoje já conta com uma horta pedagógica, bem como diversos animais, desde o burro Gaspar até ao cão Tobi. 

Como se fosse uma pequena arca de Noé com um fim educativo, os objetivos principais de Maria Clotilde Vicente passam por criar uma amostra das espécies que coabitam com a atividade humana no meio rural e, como refere, “ajudar a distinguir o que cresce em cima da terra daquilo que cresce em baixo”. Afinal, reforça ainda, “o primeiro passo para respeitar a Natureza é compreendê-la”.

Raízes do projeto

O processo de evolução da quinta foi relativamente lento, mas com a devida ajuda e motivação foram-se colhendo resultados. “Há qualquer coisa que sempre me empurrou”, relata a responsável. A divulgação intensiva, tanto nas redes sociais como nas autarquias locais, revelou-se determinante para dar visibilidade ao projeto. Contudo, garante que “foram as pessoas que tornaram tudo possível”.

No início do ano de 2026, os trabalhos da quinta ficaram atrasados devido às tempestades que atingiram a zona. Foi aí que Carlos Vicente, filho de Tila, largou o trabalho na Áustria para vir ajudar a mãe. Hoje, passados meses em Portugal, diz que já não sabe se vai regressar.  Apesar de ter noção de que “nem todos os negócios começam bem”, mostra-se muito confiante, sobretudo, devido ao sucesso que o vídeo de divulgação alcançou. “Já recebemos um casal com duas crianças do Porto”, afirma Carlos Vicente, com orgulho.

Apesar de terem aberto as portas no início do verão de 2026, tanto Tila como o filho reconhecem que o trabalho ainda está longe de terminar: “Os animais nascem, crescem e morrem. A quinta é uma obra que nunca vai acabar.”

O espaço recebe grupos de escolas, campos de férias e instituições, além de estar preparado para acolher diversas cerimónias, desde festas de aniversário a batizados. Um dos motivos que mais agradam aos visitantes parece ser o ambiente familiar da quinta.

Os responsáveis querem dinamizar ainda mais a experiência através da inclusão de workshops, que proporcionaria a oportunidade aos visitantes de criarem bens artesanais ou iguarias confeccionadas com os produtos da horta pedagógica, como por exemplo marmelada. Além destas iniciativas, preveem a inclusão de um espaço de banho e tosquias para animais de estimação, já que, como explicam, “estes não são permitidos na área onde se encontram os outros animais”.

Maria Clotilde Vicente com uma colaboradora, na quinta pedagógica situada na rua do Pinhal, na Abelheira, concelho da Lourinhã

Semear afeto e colher confiança

A entrada no recinto principal da Quinta Pedagógica da Ti Tila é gratuita, pelo que as pessoas podem apenas parar para conversar e tomar um café. “Nunca vi isto como um negócio. É um espaço de terapia para mim e para todos”, refere a proprietária. Maria Felicidade, 82 anos, é vizinha de Maria Clotilde Vicente e, por ter muito tempo livre, vem visitá-la com frequência. Gosta de passar tempo ao ar livre e sente que “os animais não deixam pensar em mais nada”. Devido à idade, a caminhada pelo espaço da quinta já não é o ideal, pelo que prefere ficar sentada na zona do bar. “O que mais aprecio é o ambiente de convívio com as crianças. Pego nos animais e fico a mexer-lhes. Assim, quando as crianças veem, perdem o medo”, conta. Maria Felicidade admira o especial dom da vizinha no contacto com os animais. “É a pessoa certa para ensinar aos mais pequenos a tratá-los bem.”

Outro dos grandes propósitos da quinta é o de ajudar as pessoas, sobretudo as crianças, a compreender os animais. O “cantinho dos afetos” convida os mais novos a ter um momento de pausa onde se podem sentar e acariciar porquinhos-da-índia pelo tempo que desejarem. Amelie, de apenas quatro anos, acredita que faria mais sentido se a designação do local fosse “quinta de festinhas”. Através do site do projeto, as pessoas podem ainda apadrinhar muitos dos animais da quinta.

O espaço não é só destinado para crianças. Tatiana e Cláudia vêm de Santo António dos Cavaleiros. As duas jovens dizem que aquilo de que mais gostam na quinta é “a vista, o silêncio, a paz e as frases bonitas que estão espalhadas pelo espaço”.

Pela evidente preocupação pedagógica, a quinta apresenta-se como uma boa oportunidade para as crianças aprenderem sobre animais, mas também para os pais recuperarem o contacto com a Natureza. Apesar de se estar a aproximar o inverno, época de menor movimento, os pedidos de atividades não diminuem, assim como o otimismo de Carlos Vicente: “Até agora, não vi ninguém que saísse sem um sorriso.” É assim que Maria Clotilde Vicente vê nascer os frutos do seu amor às crianças e aos animais naquilo a que chama o seu “projeto de coração”.