Por entre os ventos atlânticos, o nevoeiro da serra de Sintra e os solos arenosos, resiste uma das mais singulares tradições vínicas de Portugal. Em Colares, uma região que sobreviveu à devastação da filoxera, a autenticidade continua a ser o principal ingrediente de um vinho raro e identitário.
No coração do concelho de Sintra, encontra-se a Adega Regional de Colares. Fundada em 1931, é considerada a cooperativa vinícola mais antiga em funcionamento, em Portugal. Mais do que uma unidade de produção, é um pilar na preservação das práticas locais, mantendo métodos de vinificação que atravessaram gerações. Num contexto de mudança e desafios, a adega é reconhecida por ter desempenhado um papel essencial na continuidade da identidade vínica de Colares, apostando na qualidade e na ligação ao território, mesmo que isso signifique produzir em menor escala.
“Cada garrafa tem de contar uma história. A nossa história”, afirma José Vicente Paulo. Como explica o administrador da adega, “um vinho só é autêntico se expressar o terroir – conjunto de fatores naturais e humanos que influenciam as suas características – e a herança de onde provém”. Neste canto da costa portuguesa, as vinhas são plantadas diretamente na areia, uma prática quase extinta no mundo. “A qualidade é uma aposta fundamental”, reforça.
A particularidade do solo arenoso permitiu à região escapar à filoxera, a praga que devastou a maior parte dos vinhedos europeus no século XIX. Em Colares, as videiras crescem em pé-franco, sem porta-enxertos, como se fazia antigamente. Mas manter essa tradição exige mais do que respeito pelo passado. É necessária visão de futuro. Apesar do apego às práticas ancestrais, a região não virou costas à inovação. Em Portugal, e em Colares em particular, a modernização tem sido seletiva, aliando novas tecnologias à sustentabilidade e ao respeito pelos métodos tradicionais.


Resistência à uniformização
Do Douro ao Alentejo, são cada vez mais os produtores abraçam esta fusão entre o antigo e o novo. Adegas renovadas, técnicas enológicas avançadas e um olhar atento às questões ambientais têm permitido elevar a qualidade dos vinhos nacionais, sem sacrificar a sua autenticidade. Em Colares, a produção continua – garante o administrador – “exigente, cuidadosa e resistente à lógica da massificação”. José Vicente Paulo explica que “a paciência e o conhecimento técnico são indispensáveis”, sublinhando que “é um caminho feito com convicção e não por conveniência”.
No centro de tudo, está o conceito de terroir. Em Colares, essa ligação é considerada em cada etapa do processo, do campo à garrafa. João Paulo Martins, jornalista e crítico especializado, reconhece na região um exemplo raro de continuidade: “Existe uma relação clássica com o vinho e, felizmente, irá manter-se.”
Num país onde o mercado vitivinícola se reinventa a cada geração, Colares tende, segundo o crítico, a resistir à uniformização, o que torna os seus vinhos relevantes. Em tempos de produção acelerada e sabores previsíveis, esta região vinícola lembra que “há valor e futuro em preservar o que é único”.

Setor em constate inovação
Enquanto Colares resiste com convicção, outras regiões portuguesas avançam num movimento de renovação que está a transformar o mapa do vinho nacional. Nos últimos anos, Portugal tem mostrado que tradição e inovação podem andar lado a lado, não como forças opostas, mas como aliadas estratégicas. Em adegas de norte a sul, o passado é respeitado, mas o futuro é encarado com olhos bem abertos.
A mudança faz-se notar tanto nas vinhas como nas pessoas. A modernização chegou através da introdução de práticas agrícolas mais sustentáveis, do uso criterioso da tecnologia e de uma aposta na autenticidade como fator de valor. A transformação vai, no entanto, além da técnica. Tem também uma dimensão social. Em setores antes dominados por homens, as mulheres ganham protagonismo. São elas que lideram as equipas de enologia, coordenam projetos de produção e dão voz a marcas que hoje se destacam não apenas pela qualidade, mas também pela inovação e diversidade.


O segredo por detrás do consumo
Num mundo vitivinícola cada vez mais padronizado, onde meia dúzia de variedades reina de forma quase hegemónica, o País resiste com mais de 250 castas que lhe dão carisma. De norte a sul, a diversidade de uva, de terroirs e de estilos de vinificação reflete a riqueza e a multiplicidade das tradições regionais, espelhando a íntima relação entre o vinho e o território. A vinha e o vinho são um património que distingue o povo português e que deve ser preservado e valorizado para as gerações futuras, tal como reconhece o Instituto da Vinha e do Vinho. “Portugal é produtor de vinhos desde a fundação da nacionalidade; desde que somos país, sempre se produziu vinho”, afirma o jornalista.
O crítico lembra que “a relação com o vinho não se limita às vinhas, adegas ou provas profissionais. Estende-se também à esfera mais íntima e doméstica”. Em sua casa, o vinho é escolhido não apenas em função do prato, mas também do perfil dos convidados. “Admito as garrafas ao gosto e ao nível de conhecimento dos seus amigos, procurando proporcionar uma experiência à altura.”
O ato de partilhar uma garrafa de vinho à mesa é, para muitos povos, um gesto de união, de pertença e de continuidade cultural. A tradição vitivinícola foi solidificada pela influência romana e, ao longo dos séculos, integrou-se profundamente na vida das comunidades, tornando-se indispensável em festas populares, cerimónias religiosas, celebrações familiares e rituais de hospitalidade que reforçam os laços comunitários. “O vinho é cultura desde a agricultura até à mesa”, refere José Vicente Paulo. Entendimento semelhante tem João Paulo Martins. O jornalista e crítico de vinhos do Expresso, Revista de Vinhos e outros títulos descreve, com leveza, como o “néctar dos deuses” acompanha todos os momentos de celebração e de convívio: “Se chega alguém, uma visita que nós temos prazer em receber, a primeira coisa que fazemos é abrir uma garrafa.”
Em Portugal, o vinho é mais do que um produto: é um ponto de encontro. “Há muito esse lado de interesse coletivo que leva as pessoas a juntarem-se em torno do vinho”, refere João Paulo Martins. E talvez seja esse o verdadeiro segredo: o vinho como expressão de um território e, ao mesmo tempo, de uma comunidade. A tradição continua presente, mas já não caminha sozinha.
O jornalista chama a atenção para a dualidade do mercado nacional, onde vinhos de 1,40 euro coexistem com garrafas de centenas de euros. Assim como identifica dois tipos de portugueses: “Há quem beba vinho para se embriagar e quem o veja como uma experiência sensorial.”
Com ironia, o cronista pinta o retrato de um país dividido entre dois mundos vínicos: “Há quem viva no universo dos bag-in-box e nem equacione gastar 50 euros numa garrafa e há quem aprecie vinhos de milhares de euros como se fossem obras de arte.” Reconhece-se no meio termo. Para o crítico com vasta obra publicada sobre o tema, esta diversidade revela não apenas gostos distintos, mas realidades socioeconómicas profundamente contrastantes: “uma dualidade que desafia qualquer tentativa de uniformizar o perfil do consumidor português”.
A mudança não está apenas na experiência, mas também no saber adquirido. Mais do que divulgar, o especialista combate mitos. Questiona romantismos sobre a superioridade dos vinhos antigos e alerta para a perda de identidade causada pela uniformização global. Para o jornalista, é essencial educar: “É preciso promover uma literacia sensorial que valorize o vinho como produto cultural.”
A verdade desmistificou o mito: o de que o vinho velho é sempre melhor. O crítico não tem dúvidas: essa ideia resistiu tempo demais, alimentada por romantismos e clichés. Mas a realidade é bem mais frágil, tal como os próprios vinhos antigos. “Se for muito velho, do almoço para o jantar, estraga-se”, conta, lembrando o episódio em que levou para casa o resto de uma garrafa rara, aberta ao almoço, apenas para encontrar um vinho oxidado à noite. “Já estava estragado.” Insistir no envelhecimento por si só é um erro comum que desvaloriza a qualidade do vinho. E reitera, sem rodeios: “Acabou o conceito de que quanto mais velho melhor. Isso só se for no vinho do Porto ou no vinho da Madeira.”
Da experiência para o papel
Apesar da autoridade que hoje lhe é reconhecida, João Paulo Martins não teve uma formação vínica formal. O conhecimento, diz, foi construído na prática, “na tarimba”, como sublinha com simplicidade. “Tudo o que aprendi de vinhos foi a fazer provas.” A experiência sensorial repetida, o confronto entre copos, a comparação entre aromas e texturas: foi assim que começou a afinar o olhar e o paladar. “Juntar aqui meia dúzia de amigos, pôr quatro ou cinco copos e perceber que os vinhos não são iguais. É isso que faz a diferença”, explica. Para o entusiasta, a aprendizagem do vinho está ao alcance de todos. Basta curiosidade, atenção e vontade de perceber. É através das suas crónicas que também relata a experiência que tem vindo a adquirir.
“Já bebi vinho do Porto de 1804. Foi o mais antigo que provei. Já bebi Madeiras de 1812, Portos de 1815 e de lá para cá imensos anos”, recorda, ao evidenciar a capacidade única de alguns vinhos resistirem ao tempo. E explica porquê:“Daqui a cem anos, alguém que vá provar este vinho, vai perceber que está parecido com o que está agora. São vinhos que têm uma evolução muito lenta, uma acidez muito forte. A acidez é um dos principais conservantes do vinho.”
A longevidade, neste caso, não é mito. É ciência e tradição combinadas. No seu entender, “um objeto cultural de exceção, capaz de atravessar séculos”. No entanto, afirma, “nem sempre os gostos são consensuais”. Mas uma coisa é certa. Na região de Colares e no panorama nacional, o vinho permanece como elemento estruturante da identidade. É património, prazer, estatuto e memória.