Pobres meninos ricos

Há determinados fenómenos que se encontram a milhas, ou a léguas – ainda não decidi – dos arames farpados que balizam a minha perceção. Um deles é o dos novos-ricos.

Antes, os ricos estavam ocupados a ser ricos no seu pomposo mundo tingido de sumptuosidade, requinte e ostentação. Viver numa bolha própria ocupava-lhes a vida. Um dia tinham uma mariscada à beira-mar, no outro uma festa repleta de mulheres, algumas drogas e, com sorte, animação com anões – creio que agora também está na moda. No dia seguinte, um passeio num dos seus 15 carros e assim levavam a vida, distantes das grandes massas, das redes sociais e dos odores da plebe. Tudo se resumia apenas ao luxo e o maior transtorno que podiam enfrentar era ficar com resquícios de lavagante entranhados nos dentes.


Hoje, a nova vaga de ricos, os da Geração Z, tornaram-se interventivos e maçadores. A ostentação extrapolou para uma espécie de proselitismo diário nas redes sociais, em que se não aderirmos a um qualquer negócio online, não passamos de um pobre conformado com a miséria. Uma espécie de Jeovás que, em vez de espalharem a palavra do Senhor, propagam a palavra do senhor que tem um supercarro.

Super carro que, para além de ser dos termos mais engraçados que já ouvi para designar um automóvel bastante evoluído, é uma peça chave para aquilo a que chamam o “futuro de sonho”, que consiste numa super vida. É a supercasa, o super carro, o super iate, a super namorada que, muitas vezes, não sai à noite, nem tem amigos rapazes e só não vive trancada e amordaçada numa cave a comer ração de combate a todas as refeições porque também não são nenhuns animais.

Assim vão vivendo até se lhes esgotar a validade. Aí chega a super paragem cardíaca, o super caixão, feito de uma super madeira, para, com o decorrer dos anos, os super bichos contribuírem para a sua super decomposição ao absorver os seus super órgãos e tecidos.

Encerro este texto que escrevi na minha varanda porque tenho de ir, urgentemente, dar um mergulho ali à praia do sul. Sem super carros, nem outros super a não ser o das prateleiras repletas de comida que preciso para sobreviver, confesso que me sinto estranhamente rico. E parece-me que alguém muito rico está a perder a verdadeira noção da experiência de viver.