Com o aumento da esperança média de vida e a transformação das estruturas familiares, os lares tornaram-se, para muitos, o último capítulo da vida. Um capítulo que, embora seguro e confortável, é frequentemente marcado por sentimentos de abandono, invisibilidade e uma profunda carência afetiva. A solidão nestes espaços não se revela apenas na ausência de familiares, mas também na falta de escuta ativa, de conversas com tempo, de gestos com significado.
Através de testemunhos de residentes, cuidadores e especialistas, procuramos entender como se vive e sobrevive à solidão dentro das paredes de um lar. É um retrato íntimo e real de uma condição que não escolhe idade, mas que encontra terreno fértil na velhice institucionalizada. Porque falar da solidão é, também, uma forma de combater este flagelo num país tão envelhecido como Portugal.
Antídotos contra a solidão no lar
No Lar da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, a solidão não é ignorada: é combatida com criatividade, persistência e empatia. Ana Carreira, diretora técnica da instituição, destaca o esforço diário para manter os residentes envolvidos em atividades que estimulam o convívio e o bem-estar emocional. “Todos os dias há atividades, umas mais ao encontro dos gostos de um, outras mais ao encontro dos gostos de outros. Mas todos os dias há. De segunda a sexta, e, por vezes, ao sábado também”, afirma. As propostas são diversas, desde ginástica orientada por dois professores com estilos diferentes, até ao xicunga, uma arte marcial adaptada, passando também por sessões de tango, jogos de bola e de palavras. “Têm que falar uns com os outros, têm que interagir, quebrando assim a solidão”, explica Ana Carreira.

Ainda assim, a equipa reconhece e respeita a individualidade dos residentes. “Temos connosco um senhor que diz que gosta de estar sozinho. Isso respeitamos. O combate à solidão no lar passa também por um trabalho de proximidade e sensibilidade. Célia Coelho, animadora sociocultural da instituição, sublinha a importância de observar com atenção os sinais menos visíveis. “Conseguimos perceber quando a pessoa está mais triste, ou está mais deprimida. É por observarmos e tentarmos ir de encontro a esta pessoa.” Para Célia Coelho, a participação dos idosos nas atividades não pode ser imposta. É um processo que exige empatia e tempo. “A pessoa, para participar nas atividades, tem de ser conquistada. Não é só chegar aqui e dizer “Olha, agora estás sozinho, vais fazer isto.”
A profissional reconhece que os casos mais desafiantes são os das pessoas com maior grau de dependência. “Aquelas que talvez sofram mais são aquelas que estão mais dependentes e que não são capazes de dizer.” Muitas vezes, estas pessoas já não conseguem expressar o que sentem ou participar nas dinâmicas. Nestes casos, cabe à equipa encontrar formas de envolver e “aconchegar” cada residente, mesmo quando a demência avança e limita o contacto com o mundo exterior.
A intervenção psicológica no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Cascais é pensada para promover o bem-estar emocional e a inclusão social dos residentes. A psicóloga da instituição, Liliana Guerra, explica que a maioria das atividades propostas tem uma componente coletiva, pensada para estimular a interação. E especifica: “Propomos algumas atividades em grupo; a maioria são em grupo. Eu sou psicóloga, e faço algumas atividades individuais com quem tem mais dificuldade de socializar.” Para além das dinâmicas internas, há uma aposta clara na ligação com o exterior, através de iniciativas promovidas pela Câmara Municipal ou pela Junta de Freguesia, bem como parcerias com escolas e creches. “Propomos atividades de interação com a creche, com a escola primária e com a escola americana também.”, afirma Liliana Guerra.
Este cuidado estende-se às relações do dia a dia, especialmente no contacto direto com as auxiliares, que assumem um papel fundamental. “No combate à solidão, acabam por ter um tratamento mais familiar”, comenta. O objetivo é garantir que todos se sintam vistos e ouvidos, mesmo nos momentos mais silenciosos. “Se um está ali mais caladinho, é ir ter com ele, ver o que é que se passa, tentar ter assim uma proximidade.” As festas e o convívio são também momentos chave para reforçar o sentido de pertença, independentemente do estado cognitivo de cada um. “Quer tenham mais demência ou não, é para que se sintam todos juntos e que isto é uma casa.”

O conforto da última casa
Entre os residentes, as palavras de José Cruz, 95, refletem uma experiência vivida com energia, sentido de humor e gratidão. Aos poucos, foi encontrando no lar não só um espaço de cuidados, mas também de pertença. “Penso que sou bem tratado aqui, estou bem colocado. Tive sorte”, conta. Dinâmico e bem-disposto, descreve com entusiasmo as várias atividades que preenchem os seus dias, desde jogos de bola e dominó, ao Baile da Primavera, no Casino Estoril. “Há várias atividades que nós fazemos cá… Ainda ontem houve o aniversário da casa, que teve grupos de cantigas. Alegraram a festa.”
Apesar das limitações físicas causadas por um AVC, José Cruz não se deixa vender pela doença: participa em fisioterapia, jogos cognitivos, eventos com a comunidade escolar e até atividades como a bóssia. “Fazemos excursões, o grupo dos amigos do entulho… fomos a Torres Vedras.” E entre uma brincadeira e outra com os colegas, conclui com simplicidade: “Sinto-me bem. Isso é o importante.”
Através da história de vida de Vitória Reis, 71, o retrato da vida no Lar das Fisgas ganha novas camadas de profundidade. À primeira vista, a residente destaca-se pelo seu espírito lúcido, pragmático e generoso. “Sinto-me muito bem acolhida. Fui muito bem acolhida e continuo a ser. Mas é um lar. Não é o nosso lar. É o lar de todos.” Numa frase simples, Vitória Reis resume o paradoxo de muitas pessoas institucionalizadas: o conforto da estabilidade versus a saudade da autonomia e do espaço pessoal. Embora tenha sido difícil, partiu por vontade própria, com a clara intenção de não sobrecarregar a família: “A gente também tem de pensar nos outros e naqueles que estão perto de nós. Eu nunca podia ser feliz naquela situação.”

Com cerca de três anos de estadia no lar, Vitória Reis procura manter-se ativa mentalmente, mesmo que a mobilidade física já lhe seja negada. “Gosto muito de participar em todas as atividades. É bom para a cabeça.” Trabalhos cognitivos deixados pela psicóloga, atividades manuais e exercícios de memória são parte da sua rotina, sempre acompanhados por uma notável força de vontade. No entanto, confessa que nem sempre participa nas propostas que lhe são deixadas: “Eu não os faço. Ainda tenho muitas ideias… mas sou já velhota.” A forma como se refere a si própria, com uma pitada de humor e autoironia revela também um mecanismo de defesa diante das dificuldades que enfrenta com dignidade.
Vitória Reis não esconde que sente solidão. Apesar da presença de outros residentes, muitos apresentam quadros avançados de demência, o que limita as interações mais significativas. “Sinto-me muitas vezes sozinha porque sou muito independente. Desde que entrei, habituaram-se à minha independência… agora já me custa fazer certas coisas, mas faço.” Aqui, a autonomia torna-se uma espada de dois lados: é sinal de força, mas também a isola de apoios que poderiam aliviar-lhe o esforço. Sente que por a considerarem capaz, acabam por deixá-la por conta própria em momentos em que a ajuda seria bem-vinda.
A relação com os outros residentes é seletiva, como a própria admite, sobretudo devido às dificuldades de comunicação com quem tem deficiências sensoriais. Ainda assim, estabelece ligações significativas com algumas pessoas, como é o caso de José Cruz, com quem partilha o gosto pela conversa lúcida. “Ele também está muito bem da cabeça”, comenta, reconhecendo a importância do diálogo com quem a compreende no mesmo registo.
Em relação aos funcionários, Vitória Reis tem uma opinião concreta: “Acho que fazem o melhor que podem. Já disse a algumas que eu não era capaz de fazer este trabalho.” Compreende bem as exigências físicas e emocionais de lidar com idosos frágeis, muitos deles com demência avançada, e demonstra respeito pela dedicação da equipa. “Há demências simpáticas, e há demências muito antipáticas.” Esta observação, simultaneamente empática e realista, reflete a sua consciência da diversidade de perfis com que convivem diariamente os cuidadores.
Apesar de tudo, Vitória Reis mantém laços fortes com a família. Vai regularmente a casa da sobrinha, em Oeiras, e ainda partilha momentos com os irmãos e sobrinhos. “Tenho uma família pequenina, mas presente. E isso é o importante.” Esses encontros funcionam como âncoras que lhe conferem sentido, para além da vida na instituição. Almoços em família, visitas ao restaurante e aniversários são marcos que lhe devolvem, ainda que temporariamente, a sensação de pertença ao seu círculo original.
Como tantos outros idosos institucionalizados, Vitória Reis representa um equilíbrio sensível entre resiliência e vulnerabilidade. A sua história evidencia a importância de respeitar a autonomia de cada residente, sem descurar a necessidade de apoio emocional e social.

Memórias que perduram
Os últimos acontecimentos da vida de Cipriana Campaniço, 83, correspondem a um retrato tocante, cru e cheio de humanidade sobre o envelhecimento, a perda de autonomia e a adaptação a uma nova realidade no Lar das Fisgas. As suas palavras, cheias de espontaneidade e verdade, transparecem as dores físicas e emocionais da velhice, seja a fragilidade do corpo, a perda da visão e a solidão, como também o humor, a aceitação e a solidariedade com os outros residentes.
A história pessoal, marcada por quedas, internamentos, lutos e mudanças, é narrada com uma lucidez impressionante, mesmo quando a memória já começa a falhar. Apesar do carinho e gratidão por ser bem tratada, Cipriana Campaniço não esconde os momentos difíceis, mas também não deixa de sublinhar o que ainda consegue fazer: lavar-se, vestir-se, ajudar no que pode, preservando assim o sentido de utilidade e dignidade. “Vou ajudando as pequenas, que elas têm muito que fazer”, comenta.
Cipriana Campaniço fala ainda das suas memórias em Arcos de Valdevez, ou das visitas familiares, no seu caso, do filho e do neto, uma muleta muito importante neste tipo de situações. E mesmo quando a vida se resume a um quarto, um andarilho e uma rotina entre paredes conhecidas, Cipriana Campaniço representa tantas outras mulheres da sua geração: resistentes, atentas, cheias de histórias e saberes.
A importância dos pequenos gestos
A solidão, nos lares, tem muitas faces, e nenhuma é simples. Entre o isolamento provocado por limitações físicas ou cognitivas e a própria personalidade de alguns idosos, as equipas técnicas e de animação enfrentam, todos os dias, o desafio de criar ligações humanas num ambiente onde o tempo, os recursos e as capacidades variam tanto quanto as histórias de quem ali vive.
A psicóloga Liliana Guerra sublinha que há causas muito concretas para a solidão: “Algumas são físicas. Por exemplo, uma pessoa que está a perder a audição acaba por estar isolada ou tem mais dificuldade em participar em determinadas atividades.” A mesma atenção é dada aos residentes com perda de visão, como no caso de Cipriana Campaniço. “Temos que adaptar as atividades, explicar o que está a acontecer, descrever as imagens, para que todos se sintam incluídos”, afirma a terapeuta.


A animadora sociocultural partilha a mesma preocupação com a integração. “Quando o idoso chega, há um trabalho de conquista. Tentamos envolvê-lo numa atividade de grupo mais animada, mais mexida. Isso ajuda.” Mas nem sempre é possível. “Há pessoas que gostam de estar sozinhas. Ou têm uma personalidade mais difícil. Tentamos, respeitamos. Mas às vezes não se consegue.”
Há uma diferença clara entre os residentes que recebem visitas e os que não têm família. “Muitos já são ‘da casa’. Fazemos esse papel de família. Damos o aconchego possível.” Outros, mesmo com visitas esporádicas, sentem a ausência. “Dizem que estão tristes. Que sentem falta de casa.”, declara Célia Coelho.
Nos casos mais severos de demência, a equipa adapta-se. Há uma sala mais pequena e resguardada, onde se protege os residentes do excesso de estímulos. “Ali, evitamos ter a televisão com notícias tristes. Colocamos música calma, criamos um ambiente sereno. Porque já não conseguem dizer se querem ou não, se estão bem ou incomodados. Temos de intuir, observar.”, afirma.
A musicoterapia é um dos poucos momentos em que alguns destes idosos mais dependentes ainda respondem. “É uma das poucas atividades que conseguem fazer. E vê-se que lhes dá prazer”, conta Célia Coelho. Mas para os que têm mais lucidez, há espaço para amizade e convivência. “Vão escolhendo as suas companhias, tentamos sentá-los por afinidades. Criticam-se, riem-se, convivem. É bonito de ver”.
A diretora técnica sublinha que até nos momentos mais simples, como vestir-se, promove-se esse cuidado relacional: “Perguntamos o que querem vestir. Vamos falando, mesmo com quem não responde. Porque essa ligação, essa atenção, faz parte dos cuidados.”, diz.
Mas há limites. A falta de financiamento e meios logísticos impede saídas regulares. Como partilha Ana Carreira: “A maioria adora sair, ver o mar, ir ao quiosque. Mas não temos carrinhas adaptadas, nem pessoal suficiente. É sempre o mesmo grupo que pode ir. A tangoterapia, por exemplo, só continua graças ao apoio de uma empresa privada. Às vezes, fazemos nós com o que temos, inventamos”, relata a diretora técnica.
Para os residentes com demência avançada, o maior desafio é perceber o que ainda lhes dá prazer. “Mesmo a estimulação cognitiva individual falha. A pessoa não responde a nada. Mas tentamos. Porque é isso: dar momentos positivos ao longo do dia”, conta Ana Carreira. A diretora técnica sintetiza bem esse esforço: “Não é só cuidar. É fazer com que se sintam acarinhados.” E mesmo quando a realidade é dura, como no caso da mulher que todos os dias procura o filho que nunca teve, a resposta é humana. “Não a contrariamos. Fingimos que ligamos aos bombeiros. Que o filho está bem. Porque ela vive aquilo”, diz.
Numa casa onde os recursos são poucos e a solidão é muitas vezes invisível, há um esforço contínuo para fazer da convivência uma ponte, mesmo que frágil, entre o presente e a memória. Entre o isolamento e o cuidado.