Há ruas que nos recebem. Outras que apenas nos toleram. E há aquelas que, como a Avenida da República numa tarde cinzenta de Lisboa, nos fazem sentir que estamos a ocupar temporariamente um lugar que não nos pertence. Saio do metro no Saldanha com a hesitação de quem ainda calcula os passos. Lisboa, para mim, é uma cidade emprestada. Caminho nela como quem percorre um museu de outra época – com respeito, mas sem intimidade.
Ao contrário dos lisboetas, não a reconheço pelo cheiro da calçada molhada, nem pelo ruído abafado dos elétricos. Reconheço Lisboa pelo Google Maps. Esta cidade estende-se à minha frente como um traço firme de urbanismo. Há um rigor quase europeu nas suas linhas, como se aqui a cidade quisesse provar algo a alguém, talvez a Paris, talvez a si mesma. Mas mesmo esse esforço de parecer “grande cidade” não disfarça a melancolia que paira entre os edifícios. Lisboa é triste, mas de um jeito formoso.
Entro na pastelaria Versailles, como quem atravessa um portal no tempo. Não sei se foi o dourado dos espelhos, a delicadeza das colheres a bater nas chávenas de porcelana ou o facto de lá dentro o mundo parecer ter desacelerado. Por um instante, senti que poderia pertencer ali. Peço um galão e um palmier como quem testa a possibilidade de ser local. Ouvi conversas cruzadas em português perfeito, com sotaques de outros tempos. Não era um português como o meu, das ilhas, moldado fora da cidade. Era um português cheio de chão, de rotinas, de memórias. Ali, percebi: mais do que deslocado, sou desprovido de raízes metropolitanas. E talvez por isso me atraia tanto este lugar onde tudo parece ter história.
De volta à Avenida, o Galetosurge como um contraste. Um lugar sem o peso da tradição, com uma modernidade meio datada, mas ainda viva. O garçon sorriu, e por um segundo até achei que me tinha reconhecido, apesar de lá apenas ter estado em duas ocasiões. Às vezes, confundo gentileza com pertença, sou sincero. As referências à palavra “Lisboa” quase que me fazem querer lembrar onde estou. Ou talvez fosse um teste: será que já te sentes daqui?
Continuo o passeio até ao Campo Pequeno, mas antes paro num palácio escondido entre edifícios de escritórios. É estranho ver uma estrutura tão grandiosa encostada à pressa de uma cidade. Lá dentro, o silêncio deve ter eco. E as paredes devem respirar tempo.
Sento-me um pouco. Observo. Há uma estranha paz em estar deslocado. Não há expectativas, nem rotina, nem pressa. Só o olhar de quem tenta entender. Lisboa, para mim, não é casa. Mas talvez seja espelho. Nela vejo a cidade que quero conhecer e o homem que talvez me torne ao tentar fazê-lo. No entanto, aqui não sou ninguém. E isso, confesso, às vezes sabe bem. Caminho sem ser notado. Ninguém me pergunta para onde vou. A cidade não exige explicações. Sou dos Açores. Lá, o silêncio não passa despercebido. Um passeio solitário é muitas vezes notícia. “Estás bem? Parecias pensativo ontem à noite.”
Cresci nesse tipo de proximidade, em que cada pessoa é parte da paisagem dos outros. Toda a gente se conhece. Toda a gente tem opinião. Há conforto nisso, mesmo quando incomoda. É como viver dentro de uma história partilhada, onde se é personagem e espectador ao mesmo tempo. Mas há dias em que essa liberdade pesa. Ninguém me conhece, ninguém me nomeia. Sou apenas “alguém” no meio de muitos. E esse “alguém” podia ser qualquer outro. Há uma paz em ser anónimo, mas também há uma certa solidão. Daquelas que não grita, só sussurra.
Quando chego ao Campo Pequeno, já é quase noite. A luz muda de tom, os prédios acendem-se. E eu sigo o meu caminho, entre o betão e a memória, entre o presente da cidade e o passado que não tive nela. Lisboa ainda não me chama pelo nome, mas já não me manda embora. E talvez isso baste, por enquanto.