São Roque do Faial: A viagem que nos dá vida

Nestas terras altas por onde me perco, as montanhas parecem querer derrotar toda a desconfiança que sinto sobre o meu propósito de viver. Este miradouro, apelidado de “Balcões”, é o fim ou talvez o início das terras de São Roque. A metade não é com certeza, uma vez que a Metade é o nome da ribeira que corre lá em baixo, a mais de 800 metros dos meus pés e que vai desaguar na praia do Faial, na costa norte da Ilha da Madeira.

Por mais que queira avançar e abraçar as montanhas com os meus braços, não me é permitido dar mais um passo além do gradeamento da plataforma do miradouro. Só me resta andar para trás e voltar ao centro da freguesia onde me estabeleci. Mas virar as costas a esta vista é criminoso. Este sítio tem uma pureza cartunesca, onde os passarinhos, os tentilhões, uma espécie endémica, pousam nas mãos e nos ombros de quem, gentilmente, lhes faz uma oferenda. Do meu lado esquerdo ergue-se, compacto como as ondas em preia-mar, o Pico do Areeiro, que vai desenvolvendo para o lado direito até chegar ao Pico das Torres. Contudo, aquele que se destaca é o Pico Ruivo. Surge mais distante, mas conquista os olhos de quem o vê pelo seu rendilhado, que como uma renda de bilros, aguça a paisagem madeirense. Do miradouro não parece, mas é a montanha mais alta da ilha.

Ando para trás e refaço o quilómetro e meio de caminho que me levou até ali, a Levada do Ribeiro Frio, uma das mais frequentadas da Madeira. Confesso que, há cerca de duas horas, imitei o comportamento dos outros visitantes e deixei o carro estacionado na berma da estrada. Dizem que é o pior “tique” turístico madeirense, o de deixar o carro ao deus-dará, impedindo a circulação daqueles que realmente desejam passar. Mas não julgue que os madeirenses não o fazem. Eles fazem, mas o seu puro-sangue insular acaba sempre por lhes dar a absolvição.

Sigo de carro até ao coração desta freguesia de São Roque do Faial, o Sítio do Chão do Cedro Gordo. As localidades madeirenses estão organizadas por sítios, uma prática incomum no Continente. Uma pequena aldeia ou freguesia pode estar dividida em dezenas de sítios sem que se entenda muito bem a hierarquia e relação entre os mesmos. Em termos simples, um sítio é um pequeno aglomerado humano cujo único fator identitário que partilham é terem construído a sua casa ali e não alguns metros abaixo. Há sítios que são só quatro ou cinco casas dispersas ao longo de uma estrada. Outros, mais compostos, têm igrejas e capelas para fazer pirraça aos sítios que não têm.

Ainda assim, todos os habitantes dos sítios fazem questão de sobressair o seu espírito de freguês orgulhoso em São Roque do Faial. Um sentimento conjunto de forte união que vem da fé, folia, faina e família.

No Sítio do Chão do Cedro Gordo, aprendo uma curiosa história: todas estas populações das freguesias que circundam estas terras de São Roque são designadas por nomes, no mínimo, peculiares. Os populares de Santana, a sede do concelho, são os “bragados”, os do Faial são os labregos – que desfaçatez – e os de São Jorge são os caiados. Tal como suspeitava, as gentes de São Roque do Faial não poderiam fugir à regra: são os tabaqueiros.

Conta a voz do povo que, certa vez, um grupo de homens de São Roque do Faial desceu a serra para ir buscar um carregamento de tabaco em pó, ao porto da Fajã do Mar. Sem desconfiar de nada, subiram de novo às montanhas com a carga às costas, mas, quando lá chegaram, descobriram que lhes havia sido pregada uma partida. Devido a questões relacionadas com polícia local, os trabalhadores da Fajã trocaram o tabaco das caixas para colocar terra seca. Por não negarem as vicissitudes da vida, passou este povo a aceitar de bom grado a alcunha de tabaqueiros.

Desço um pouco até chegar ao sítio do Serradinho. Entro numa casa de gente simples, onde a mesa do almoço é farta e variada. É madeirense. Carne de vaca cortada em cubos, atravessada num espeto de louro e posta ao fogo a assar até ficar tenra como algodão, frutas frescas na fruteira, banana, abacate, kiwis, romãs e araçaís. No centro da mesa, está a ambrósia dos deuses do Olimpo madeirense: a poncha. – Sabes o que é isto? – pergunta-me um primo, homem-feito de barba rala, ostentando o pequeno objeto de madeira com o qual se mexe a poncha. – Roberto, para com isso, se faz favor! – repreende a voz solene do seu pai. – Ele tem de aprender pai. Tem de aprender a cultura madeirense. Dito isto, passa-me o tal “caralhinho” para as mãos e deixa-me à mercê de provar este néctar. Com o copo meio cheio de poncha, dirijo-me para o jardim e observo o verde plano.

À esquerda do meu olhar, mais alto do que o lugar onde me encontro, o sítio do Lombo dos Palheiros surge como uma cortina íngreme que cobre o sol e ensombra a estrada que desce até à ribeira. Ali morreu um homem. Um bom homem, um bom irmão, mas friamente assassinado, pois o seu grande coração não o livrou de ser envolvido numa conspiração familiar. Ao passar a estrada do Lombo dos Palheiros é surpreendido por dois primos seus que, imediatamente, saltam para cima dele e cortam-lhe a garganta para que não pudesse gritar.

A partir daí, poderiam fazer o que quisessem com o primo, uma vez que ninguém conseguiria ouvir os sons da sua derradeira angústia. Deram-lhe então cinco facadas no peito e mandaram o seu corpo pela ladeira, que acabou por parar nos terrenos do seu pai. Dois irmãozinhos da vítima que estavam a passar acudiram-no e chamaram o patriarca que logo se pôs a correr para o local. Mas a sentença de João estava dada. Assim que o pai pegou o filho nos braços, ele expirou, deixando uma esposa, filhos, e um “tabu” geracional. Um dos assassinos fugiu para os Estados Unidos da América, e o outro, apesar de ter sido apanhado, em pouco tempo se pôs a monte e foi ter com o irmão. Esta é uma história que me foi contada à margem dos ouvidos que nunca se esqueceram destes acontecimentos. Este é um tema sobre o qual não se fala em São Roque do Faial.

Na Madeira, existe um boato que diz que as terras de São Roque estão repletas de bruxas e feiticeiras que se escondem nas suas casas de montanha a lançar feitiços e a causar o caos. Contudo, a história de um santo que foge da ermida pelo seu próprio pé parece mais ser obra do divino do que do folclore maléfico e sobrenatural. A fé ao Glorioso São Roque, como lhe chamam, teve os seus altos e baixos. A lenda do nicho do São Roque (que ainda hoje pode ser visitado no Sítio dos Terreiros) conta que, nos tempos da colonização da ilha, apareceu uma imagem de São Roque nas fráguas da Penha d’Águia – uma colossal formação geológica que se ergue junto ao mar e divide os concelhos de Santana e Machico – para indicar o local ideal para construir a ermida.

Levantada a ermida e passado uns anos, desaparece misteriosamente o santo do altar e é encontrado novamente no local do seu primeiro aparecimento. Logo de seguida, cai um terrível temporal e, transbordante, a ribeira destrói a igreja e leva os seus destroços até ao mar. O povo interpreta que o santo tinha fugido para a montanha para se salvar e proteger as suas gentes. É levantado um novo santuário, trazida a imagem e um novo desaparecimento acontece. De seguida, o temporal e a enxurrada que leva as paredes laterais da igreja outra vez. E o santo, pela terceira vez, estava na rocha, quieto, mas não alheio à estranha situação que ali se estava a passar.

Ainda hoje o povo acredita ver a imagem de São Roque, acompanhado com o seu cão, como manda a iconografia religiosa, a deambular pelas escarpas da Penha d’Águia. Tantas são as tradições religiosas na Madeira, mas ainda mais são as tradições que advém do trabalho. Qual “A Portuguesa”? O hino da região é que canta as virtudes madeirenses, todas elas conquistadas pela força dos braços de quem arriscou viver na terra brava: “Herói do trabalho na montanha agreste,

Que se fez ao mar em vagas procelosas: Os louros da vitória, em tuas mãos calosas; foram a herança que a teus filhos deste.”

 Bem vi as escadas que os trabalhadores do século passado subiam, com trouxas de roupa à cabeça e pilhas de lenha às costas, desde o vale onde a ribeira corre até ao alto da encosta onde ficavam as suas casinhas penduradas. Eram centenas os degraus, com a altura de um joelho e com a largura que só permitia um pé de cada vez. Muito além de ver a tradição do trabalho, também ouvi.

O tocar do búzio é dos sons mais característicos que alguém pode escutar na Madeira e, neste momento, é praticamente exclusivo de São Roque do Faial. Esta tradição única tem origem nos levadeiros, os homens encarregues da distribuição da água e manutenção das levadas. Ao tocar o búzio, os levadeiros davam o sinal do início do “giro” da água, que fluía para o terreno das pessoas através de uma complexa rede de canais, permitindo, sobretudo, a rega, numa época em que a agricultura representava a larga base da economia madeirense.

Atualmente, com as redes sociais a dominarem as mentes das gerações mais recentes, a Casa do Povo de São Roque do Faial tenta contornar o paradigma ao organizar o concurso “Tocar do Búzio” e a ensinar aos mais jovens as tradições do trabalho que lentamente se perdem na bruma do tempo.

Este não é o Portugal das fotos, dos turistas e dos postais. Tampouco é a Madeira dos hotéis e dos cruzeiros. A viagem por Portugal só termina quando o último coração português deixar de bater, mas até mesmo os mortos podem ter uma história para contar. Em São Roque do Faial, confirmei a minha ideia: o nosso fado é trabalhar. Mas a viagem é que nos dá vida. Antes de me sentar para descansar, já parti para a próxima viagem. Descubro o meu destino quando lá chegar.