Jovens agricultores em Portugal: trabalhar por gosto também cansa

Num Portugal com cada vez menos jovens agricultores, Francisco trocou a vida de estudante pelos campos alentejanos. Joaquim continua a especializar-se para melhorar a atividade na região. Enquanto a maioria dos jovens ruma aos grandes centros urbanos para estudar, os dois levantam-se antes do sol nascer para tosquiar ovelhas, lavrar a terra e manter viva uma tradição agrícola que poucos da sua idade querem seguir

A máquina de tosquiar para de trabalhar, o suor invade os olhos de Francisco e as lágrimas impedem-no de continuar aquilo que, para ele, é o serviço mais duro da sua profissão. “O calor do sol, das ovelhas e o esforço físico é terrível”, desabafa. A seu lado está Jeremias igualmente coberto de suor. Jeremias é pai, patrão e a companhia diária de Francisco, um jovem de 20 anos que, ao contrário da maioria das pessoas da sua idade, trocou a caneta pela enxada, o computador pela motosserra e os transportes públicos pelo trator. É um jovem agricultor. “Com quatro anos já ia com o meu pai para o campo e com dez comecei a trabalhar a sério”, conta. 

Dados mais recentes da DGES indicam que, em dezembro de 2025, existiam quase 448 mil estudantes inscritos no ensino superior, mas existem apenas 2685 jovens agricultores e muito poucos se encontram a frequentar qualquer universidade. Em junho deste ano, o ministro da Agricultura anunciava que, em 2026, existiam mais dois mil jovens no setor e que já tinha recebido 50 mil candidaturas a apoios estatais, mas os mais novos na atividade são cada vez mais uma minoria.

Francisco Marques ou Chico, como lhe chamam os amigos, preferiu não continuar a estudar. “Eu sempre quis ser agricultor. Por isso, assim que acabei o secundário preferi ir logo trabalhar.” Os pais ainda incentivaram o jovem a prosseguir com os estudos e, hoje em dia, Francisco reconhece que poderia ter uma vida melhor se lhes tivesse dado ouvidos. No ensino secundário, tirou a formação profissional de Técnico de Produção Agropecuária. “No curso, tínhamos aulas práticas com animais, máquinas e visitas a herdades agrícolas, mas também disciplinas típicas de uma escola normal como Português, Matemática e Geografia”, indica. 

Nesta atividade, o dia começa cedo. São 5h30 da manhã. Francisco e o pai acordam primeiro do que o sol. Ouvem-se os pássaros e o vento, que sopra entre as folhas dos sobreiros que envolvem a pequena aldeia da Portagem, em Marvão, distrito de Portalegre. De fato de macaco e com as botas calçadas, metem mãos à obra. Há que afiar as máquinas, abastecer o gerador, colocar todo o material necessário na carrinha e, só depois de engatar o reboque, comem uma sandes.

O café fica para a primeira paragem. Entram na carrinha e seguem para o Tachinho, um restaurante tipicamente alentejano no coração da aldeia raiana. Chegam ao destino por volta das sete da manhã. Quem está no estabelecimento a esta hora prepara-se para ir trabalhar, a maioria são agricultores. Aqui delegam-se tarefas e define-se a ordem de trabalhos. Hoje é dia de tosquia, mas o serviço nem sempre é o mesmo. 

Homem dos sete ofícios 

O ofício da agricultura é algo sazonal. Francisco enfrenta diferentes serviços ao longo do ano. Entre dezembro e janeiro, é tempo de apanhar a azeitona. Mais tarde, limpam-se sobreiros e azinheiras, e transformam-se árvores em lenha. Em maio, é cortado o feno que dará origem aos fardos. Também neste mês começa a tosquia, que só termina em julho, juntamente com a extração da cortiça. A época da vindima é em setembro. Já a colheita das castanhas e das nozes fica para outubro. O final do ano está reservado para as lavouras e sementeiras. 

“O que mais gosto de fazer são lavouras e tudo o que envolva tratores e máquinas”, admite o jovem agricultor. Por outro lado, Francisco Marques considera que “tirar cortiça e a tosquia são os trabalhos mais duros”, nomeadamente por causa do calor. Embora adore aquilo que faz, sonha ainda, um dia, “ter um terreno com vacas”. Depois do café, fazem-se à estrada. A sua carrinha ainda é a única no alcatrão desgastado do Alentejo. Os caminhos acidentados tornam a viagem atribulada, tal como a conversa entre Francisco e Jeremias. 

A relação do jovem com o pai é algo complicada, porém de cumplicidade. Muitas vezes, têm ideias diferentes sobre o trabalho, mas acabam sempre por chegar a acordo. “Geralmente, dou uma ideia e o meu pai outra. E a que colocamos em prática tem o melhor das duas”, assume Francisco. No fim do dia, Jeremias deixa de ser patrão e é apenas pai. O mesmo revela que ambos metem o “trabalho para um canto e família para outro. Em casa, evita-se falar sobre o tema”. Francisco admite que o lado bom de trabalhar com o pai é que pode dar a sua opinião, mas a responsabilidade que carrega é muito maior que a dos outros empregados. Trabalhar com o pai é uma faca de dois gumes. 

Francisco Marques trabalha com o pai. A tosquia das ovelhas é, por causa do esforço físico e do calor, das atividades que considera ser das “mais duras” no quotidiano laboral de um agricultor

Trabalhar de sol a sol

Os ponteiros do relógio assinalam 7h50 e o sol já queima em Portalegre. A primeira tosquia está prestes a começar. O dono das ovelhas recebe os dois agricultores e encaminha-os para junto dos animais. Começam por ligar o gerador que alimentará as máquinas de serviço, trazem sacas para a lã e água para combater o calor. A tosquia começa. O dono traz duas ovelhas de cada vez. Francisco agarra numa e Jeremias pega noutra. A inquietação dos animais pede mão firme e perícia para manusear a máquina. Ao ser cortada, a lã é imediatamente armazenada nas sacas. As próximas duas horas serão ocupadas por esta atividade monótona, em que os movimentos são quase sincronizados entre pai e filho.

No fim desta longa dança entre os tosquiadores e os animais, Francisco e Jeremias Marques estão encharcados de suor. Arrumam o material, transportam-no de novo para a carrinha e seguem caminho. Está na altura de fazer uma pausa. Voltam à Portagem e aproveitam para parar num café à beira da estrada. Enquanto bebem uma cerveja, Francisco recorda a sua viagem à Estónia.

Uma experiência além-fronteiras   

Depois de ter ganho as olimpíadas da agricultura a nível nacional juntamente com cinco colegas, representou Portugal no AgroChallenge 2024, que contou com uma equipa de cada nação europeia. O desenvolvimento da agricultura no país báltico surpreendeu o jovem Francisco. “Na Estónia, eles conseguem produzir o dobro de Portugal. Não vimos uma pedra, não vimos uma serra, o terreno era todo direito.” No AgroChallenge, os concorrentes empilharam fardos, ordenharam vacas e trocaram pneus de trator, tudo em tempo recorde. 

A pausa é curta. Ainda há muito trabalho pela frente e não se pode perder tempo. Voltam para a carrinha e dirigem-se ao próximo campo de batalha. Desta vez, são eles os donos do rebanho. Tornam a montar um autêntico cabeleireiro animal ao ar livre. O calor aperta e seguem-se mais duas horas de tosquia. O ritual repete-se tal como de manhã. Porém, desta vez, chegam reforços: a cadela pastora Janes, fiel guardiã daquele rebanho, e Joaquim, amigo e companheiro de trabalho de Francisco.   

Joaquim Lopes estuda Agronomia, na Escola Superior de Biociências de Elvas, mas continua a trabalhar no campo. Ambiciona ter a sua própria corticeira ou uma empresa de consultoria agrícola

Camarada de longa data

Joaquim Lopes ou Quim, para os mais chegados, tem 20 anos e começou a trabalhar e a ganhar dinheiro no campo aos 12. O jovem adora aquilo que faz. “A vida no campo é bonita, o melhor para descomplicar a nossa mente. O corpo massa, mas a cabeça anda livre”, confessa. Todavia, certas adversidades do trabalho agrícola levaram Joaquim a prosseguir com os estudos. Está a estudar Agronomia, na Escola Superior de Biociências de Elvas (ESBE) não só para “escapar um pouco à roupa suja e às dores do corpo”, bem como para desenvolver a agricultura na sua região. “Estou a tirar um curso para subir de nível, não é para fugir ao trabalho do campo, quero melhorar os seus aspetos negativos”, afirma. Os estudos também são um caminho para Joaquim alcançar os seus objetivos: “Era mesmo um sonho ter a minha própria corticeira ou estar associado a uma empresa de consultoria agrícola.”

Terminada a segunda tosquia, a fome e a fadiga consomem os agricultores. Dirigem-se até casa, onde a mãe de Francisco os espera com almoço. Vivem numa quinta rodeada pela natureza, onde têm cães, galinhas e porcos. A mesa está posta, a comida é tipicamente alentejana e a família reúne-se. Come-se com calma à moda do Alentejo e ao som dos pássaros. Depois de levantar a mesa, a mãe de Francisco avisa-o que para a semana chegarão clientes de França. 

Do Alentejo para o mundo

A maioria dos clientes são do Alentejo, mas alguns vêm de França, Holanda, Espanha, Alemanha e até do Brasil à procura de vinho, ginja e azeite. “A gente vende em feiras e quem compra vai passando a palavra. Se tivéssemos redes sociais da exploração não teríamos produtos suficientes para tanta procura”, explica. 

Depois de recuperarem as forças, os agricultores partem para a última tosquia. O palco da dança final é exatamente no meio da imensidão da Serra de São Mamede. Para além de o jovem conhecer o terreno como a palma da sua mão, este rebanho também lhe é muito familiar. Francisco tem uma ligação forte com uma ovelha em particular chamada Linda, a única que tem nome. Esta foi alimentada a biberão, após ter sido abandonada pela mãe à nascença. Linda tem lã castanha ao contrário da mãe e da irmã, cobertas de lã branca. A causa do abandono foi a cor. Apesar de ter sido criada por Francisco, Linda fica muito agitada quando chega o momento de ser tosquiada. Como diz o dono, “fica brava que nem cornos”. O facto de passar tanto tempo sozinho no campo aproxima o jovem dos animais, da natureza e de si próprio. 

Muitas vezes, Francisco prefere trabalhar sozinho, uma vez que anda mais calmo. “Ninguém me chateia e é bom para desanuviar a cabeça.” Joaquim pensa o mesmo. Para o jovem, trabalhar sozinho no campo é como ir ao psicólogo: “Não tenho mais nada a moer-me o juízo, sou só eu e Deus.”

Trabalho não falta a Joaquim e, por vezes, a família tem receio que isso venha a prejudicar os seus estudos. “Os meus pais são contra eu deitar a mão a tanto sítio, mas eu não digo “não” a ninguém.” O jovem trabalhador-estudante não é capaz de ver um negócio e não o apanhar, “mais três ou quatro horas de trabalho são 100 euros”, que não quer deixar escapar. Frequentemente, Joaquim chega a casa tarde e já nem sente o corpo. Contudo, todos os dias estuda para a universidade, pois considera que “tem de haver espírito de sacrifício para ter um rumo na vida”.

A vida social dos jovens agricultores é limitada pela sua profissão. Francisco tem horas para entrar no trabalho. Porém, nunca sabe a que horas irá sair. “Às vezes, combino coisas com os meus amigos, mas já sei que vou chegar sempre atrasado.” Na perspetiva de Joaquim, “abdicar de prazeres e momentos de convívio é doloroso”. No entanto, como considera, “a honra e dignidade de cumprir a sua missão no campo têm mais valor”. 

O dia chega, finalmente, ao fim. Francisco, Jeremias e Joaquim estão exaustos. É com alívio que soltam o último rebanho e arrumam todo o material na carrinha. Depois de despirem 110 ovelhas, retiram o fato de macaco coberto de suor, terra e lágrimas de cansaço. O relógio aponta para as 17h00 e nada mais anseiam do que chegar a casa. A tosquia já dura há duas semanas e amanhã não será diferente. “Os dias são todos iguais.”