“Uma vez quase correu muito mal”, confessa Rui Figueiredo. “Um dos meus amigos disse-me que havia um sítio espetacular que era num pavilhão municipal, por cima de um telhado. Estávamos a pintar e apareceu um jeep da GNR, que começou a abrandar e parou no local”, conta. Naquele momento, Rui ponderou “entre saltar e ‘partir as pernas’ ou descer e ser apanhado pela polícia”. Incapaz de decidir entre estas opções, deitou-se numa zona onde a luz não batia e esperou que não fosse apanhado: “O meu coração parou de bater nesse momento.” A estratégia resultou e não foi preso nessa noite, mas foi aí que percebeu que não queria continuar a correr riscos pela arte e que deveria começar a expressar-se apenas de forma legal.
Rui Figueiredo tem 38 anos e, desde que se lembra, sempre teve uma “veia artística”. Aos onze anos, rendeu-se ao impulso do graffiti: “Era uma lata cor-de-rosa que estava no chão da garagem de um amigo do meu pai. Peguei naquilo, experimentei na parede e adorei.” Depois dessa experiência, nunca mais parou de pintar. Começou a comprar as próprias latas e a graffitar com um amigo durante toda a adolescência.
Nessa altura, juntou-se a um grupo de jovens que nutriam o mesmo gosto pelo desenho e pelo graffiti. Começaram a pintar em comboios e fábricas abandonadas e foi nessa época que aprimorou a técnica artística. “Eles mostravam-me o que sabiam e eu partilhava o que sabia. Também víamos coisas na internet, por isso evoluímos bastante na nossa técnica. O facto de poder pintar em grande escala sempre me fascinou”, explica.
“O graffiti sempre foi um gosto, uma paixão. No início, foi quase o mundo, o mundo que eu adorava.”
Rui Figueiredo
Quando atingiu a idade adulta, percebeu que se continuasse a perseguir a adrenalina proporcionada pela pintura ilegal, podia acabar por destruir a sua vida. Decidiu procurar formas de fazer a sua arte de forma legal. Trocou as linhas dos comboios e as pontes nas autoestradas por muros privados, nos quais pintava com a autorização dos proprietários. Nem a forte “paixão” que sentia o fez continuar por caminhos arriscados. Os episódios com a polícia fizeram-no pensar realmente no que queria para a sua vida, artística e pessoal, e foi levado a navegar por outros mares.
Apesar de a pintura nunca ter sido a sua fonte de rendimento principal, Rui manteve-se na área por realmente ter amor à arte. “O graffiti sempre foi um gosto, uma paixão. No início, foi quase o mundo, o mundo que eu adorava”, confessa. Alguns anos após a estreia na vertente legal, começou a fazer trabalhos pontualmente pagos. Chegou a trabalhar em eventos como a Comic Con, onde pintou murais para a promoção de filmes e, em 2022, também participou no festival Jardins Efémeros, em Viseu.



Do lado ilegal da arte
Tal como Rui Figueiredo, MAR também começou a pintar de forma ilegal e, apesar de atualmente fazer trabalhos legalizados e até pagos, tais como parcerias com a Câmara de Lisboa, municípios e até com iniciativas fora do País, admite que o gosto pela adrenalina e pela ilegalidade ainda vive dentro de si: “Ainda tenho o meu lado muito ilegal e ainda costumo pintar de forma ilegal”, afirma. E acrescenta: “Só acontece se não interferir diretamente com ninguém em particular.”
A aventura no mundo “clandestino” no graffiti começou quando Gonçalo Ribeiro, de verdadeiro nome, passou a deslocar-se todos os dias para Lisboa para frequentar a universidade: “Moro na Margem Sul e comecei a ver as paredes pintadas com desenhos espetaculares, com coisas que me fascinavam mesmo a nível de cores e de formas”, conta. Hoje em dia, é mais conhecido por MAR, o nome artístico que adotou.
A primeira colaboração do artista foi com a Câmara do Seixal, com a qual criou e participou em alguns projetos, tais como o evento Seixal Graffiti, que tinha como objetivo juntar artistas e promover a arte urbana. Em 2008, foi convidado, juntamente com mais sete artistas, para integrar os projetos da Galeria de Arte Urbana de Lisboa (GAU), instituição criada esse ano em parceria com a autarquia de Lisboa. A crescente ascensão da street art na capital foi uma mais-valia para esta colaboração: “Esta cultura urbana estava a instalar-se em Lisboa e alguém pensou que ‘se não os consegues derrotar junta-te a eles’. Foi o que fizeram: criaram a Galeria de Arte Urbana e tenho muito orgulho em ter feito parte desse início.”
“O graffiti perde a sua essência quando passa a ser legalizado. Aí deixa de ser graffiti e passa a ser street art.”
MAR
Desde então, MAR tem colaborado com a GAU em várias iniciativas, nomeadamente no “Às 5 no Mercado!”, projeto que surgiu no seguimento das obras de reabilitação do antigo Mercado do Chão do Loureiro, sob proposta da EMEL, entidade gestora do espaço que foi transformado num parque de estacionamento e que serviu como o local de pintura para os artistas.
Embora ainda graffite de forma ilegal e admita que “o graffiti perde a sua essência quando passa a ser legalizado, pois aí torna-se street art”, MAR acredita que a institucionalização trouxe mais liberdade aos artistas, na medida em que criou oportunidades que nunca seriam alcançáveis de forma independente: “É uma liberdade gigante. Quando comecei, nunca pensei que pudesse pintar prédios gigantes, e sozinho não conseguia.”




GAU: a institucionalização da arte
“Limpo” não é a primeira palavra que se associa ao graffiti. No entanto, foi o projeto ‘Limpar o Bairro Alto’ que deu origem à Galeria de Arte Urbana de Lisboa (GAU), em 2008, instituição da Câmara de Lisboa, fundada com o objetivo de criar um espaço legalizado e estruturado para a street art. Depois da limpeza nas paredes do Bairro Alto e que foi considerada por muitos como “indiscriminada” por ter feito desaparecer não só os “rabiscos”, mas também os graffitis que eram vistos como bonitos, surgiu a GAU.
O principal objetivo da instituição era conseguir que o graffiti passasse a valorizar o património cultural da cidade e a ser usado para reaproveitar os espaços a nível artístico. Com um desejo e a vontade de darem uma melhor reputação – e uma imagem mais “limpa” – aos graffiters, os fundadores e responsáveis pelo projeto pegaram em artistas e renovaram artisticamente as paredes dos bairros de Lisboa. Hugo Cardoso, atual coordenador da galeria, explica que “na altura, a GAU considerou, juntamente com a Câmara de Lisboa, que esta seria uma estratégia de promoção artística e de valorização patrimonial que podia colocar o graffiti ao mesmo nível das outras intervenções artísticas”.

A galeria serviu de catapulta para muitos artistas portugueses. Vhils, Miguel Januário, MOSAIK e Gonçalo MAR são alguns dos nomes que fazem parte da coleção de colaboradores pensados pela GAU. No início, ao definirem quais os fins do projeto que estavam a criar, decidiram, como conta Hugo Cardoso, “começar a trabalhar com artistas de uma comunidade já mais consolidada. E justifica: “Não só para que os trabalhos realizados realmente causassem impacto, mas também para que estes artistas entrassem na vertente legal da área em que já trabalhavam.”
A intenção era que o graffiti coabitasse dentro da cidade sem ser considerado vandalismo. “Não queríamos fazer com que o graffiti ocupasse a dinâmica artística patrimonial que a cidade já tinha. O objetivo era, sobretudo, que se desse lugar a essa produção artística. Portanto, para isso, tínhamos de promover os artistas, a intervenção, promover esse espaço para que também pudessem ir ocupando a cidade, mas de forma legal”, sublinha Hugo Cardoso.




Raízes do graffiti
O objetivo original dos artistas era simples: graffitar, geralmente o nome artístico, no maior número de locais possíveis e com melhor visibilidade. “Não interessa se está tudo mal pintado, se está escorrido ou se não tem nexo, o que interessa é que pintaste ali”, afirma Rui Figueiredo, ao recordar o episódio em que subiu a uma ponte da autoestrada com dois amigos só para escreverem os nomes.
MAR também se estreou no mundo do graffiti a pintar as letras do nome artístico. Em palavras do próprio, estava a seguir a norma: “Escrever o meu nome em todo o lado, em sítios com boa visibilidade é a regra base do graffiti puro, do graffiti dos tempos iniciais.”
Técnicas como o ‘throw-up’ ou o ‘bombing’ fazem parte da vertente ilegal e são famosas na cidade de Lisboa. Qualquer muro que tenha letras ou grafismos, que, por vezes, podem ser pouco percetíveis, está dentro da lógica clandestina.
Para além de se conseguir perceber se um graffiti é legal ou não pelo sítio onde foi pintado, para aqueles que estão dentro deste meio, uma outra forma de diferenciar consiste em conhecer os materiais usados. “Por exemplo, a lata speed tem uma maior abertura, ou seja, uma maior pressão, o que permite que as letras fiquem maiores e mais gordas. É frequentemente usada em graffiti do tipo ilegal”, explica, Rui Figueiredo. E continua: “As latas hardcores já requerem uma maior destreza do que as do tipo speed. A pressão é um pouco menor. São mais usadas já numa vertente legal. As latas 94 são as mais comuns entre os artistas de rua, que pintam legalmente. Têm uma pressão mais fina, por isso ajudam a construir os detalhes das pinturas.”




Para se construir um espaço seguro, estruturado e legal para os graffiters não basta criar instituições nem realizar projetos dentro das cidades. O processo engloba educar a população a nível artístico, mais especificamente sobre o graffiti e sobre a arte urbana. A GAU também apareceu com esse intuito, sendo um dos seus objetivos. O coordenador do projeto considera que “é importante educar no sentido de fazer perceber que estas obras são obras artísticas e, portanto, merecem estar na rua”.
Nos quase 20 anos de existência da GAU, Hugo Cardoso reconhece que a maneira como se olha para um mural de graffiti agora é completamente diferente do que era antes: “Há 20 ou 30 anos, era considerado algo sem qualquer valor e automaticamente vandalismo.”
Apesar de se manter otimista, o coordenador da instituição considera que ainda há um longo caminho a percorrer na educação artística, nomeadamente nas escolas: “A verdade é que a educação artística que temos é muito reduzida, então nos cursos de Artes Visuais é completamente falível. Portanto, se nem sequer temos uma educação de artes visuais de base, quanto mais chegar a um nicho, como é a arte urbana.”
Para educar a população, tem de se educar primeiro os artistas. É o que a GAU procura fazer. Ao tentar retirar os artistas da clandestinidade, tem como objetivo criar uma consciência artística e mostrar o verdadeiro valor que o trabalho que criam pode trazer ao mundo. “A legalização trouxe mais liberdade e, ao mesmo tempo, mais controlo institucional, pois estavam nos planos de construção de um projeto, o que também nos ajudava”, afirma MAR. Porém, para os artistas, legalização pode ser sinónimo de perder a marca que os identifica e distingue. MAR construiu a sua marca: um peixinho laranja, ao qual chama turista. E este “turista” continua a ser o que o artista mais pinta de forma ilegal.
Enquanto mantém um equilíbrio entre o mundo da street art e do graffiti, MAR explica a diferença entre os dois: “O street art apareceu como uma forma legal de usar as ruas e, depois, perante isto, já o próprio sistema se apoderou ou tem um lado mais controlador do que acontece na rua, enquanto no graffiti é o puro e duro inicial.” Gonçalo MAR revela que tem muitos amigos que continuam a pintar apenas ilegalmente e “a regra deles é nunca pertencerem ao sistema; nunca serem legais, pois consideram que o graffiti ‘não é o mesmo’ e não faz sentido assim.”