Falar de português não é politicamente correto

Como bem dizia Ariano Suassuna, artista e filósofo paraibano radicado na minha terra, Pernambuco, é desagradável maldizer os outros pela frente. Deve-se mesmo difamá-lo pelas costas para não causar embaraço a quem deprecia e a quem é depreciado. O autor explicava a razão: “É constrangedor para quem fala e também para quem está sendo falado. Muito mais correto é esperar a pessoa sair para que ela vire o assunto.” Falar do português à frente dos portugueses não é, de todo, politicamente correto. Assim, não leia se for português.

Dado o aviso, conto cá algumas do português. Não percebo nada do fato do português falado no Brasil ser mesmo tão diferente do português europeu. Sei apenas que não é fácil entender quando os portugueses falam, quando acabámos de chegar em solo português. E ainda podemos ser constrangidos porque, para muitos portugueses, falamos brasileiro, não português. No Brasil, é verdade que se contam muitas piadas de português, o mais das vezes a observar o que chamamos de literalidade dos lusos quando estão a responder perguntas. Se, por exemplo, questiona-se a um empregado de mesa em Portugal o que há para comer, ele poderá dizer que “verifique o menu”. No Brasil, se fizermos a mesma pergunta ao garçom, ele abrirá o menu e o lerá para si. As diferenças, aliás, já começam em Portugal com empregado de mesa, frente ao garçom no Brasil- uma corruptela refinada do francês garçon.

A viver em Portugal há sete anos, ainda estou a familiarizar-me com a língua considerada originária, a primeira, a matriarca dos falantes – nós, brasileiros, somos “segundos-falantes”, temos uma língua pequenina, o brasileiro, falamos mesmo errado aos olhos da fidalguia portuguesa, sempre a dizer “brasileiros…” e a torcer o nariz ao nosso sotaque, pelos “tus” misturados aos “vocês”, pelos “mes” e “ses”, antes dos verbos. Aqui em Portugal, parece-me que todos sabem empregar a língua muito bem, e estou muito atenta a aprender os usos dos primeiros-falantes.

Vejamos o modo correto de se atender ao telefone. Em brasileiro, dizemos “alô”. Em Portugal, talvez o rigor dos primeiros-falantes da língua peçam que se tenha a certeza que quem, de facto, está a… atender o telefone. Isso porque, na hipótese de não estar, ficará claro para quem liga que a pessoa que atendeu não está.

É bem assim: ligas ao colega português, o telefone toooocaaaa… toooocaaaaa… E do outro lado da linha ouves: – Tô sim! Desfaz-se qualquer dúvida. Ele está sim. Pense no caso de ele atender e dizer “tô não”, a tristeza, a deceção de quem ligou a descobrir que o seu colega a atender a linha não está, e não há qualquer dúvida: foi ele mesmo a anunciar: “não tô”; “tô não”. Ora, nada mais justo ser ele a informar que não está, quando não está, e que diga que “tá sim”, quando ele de facto está. Assim, tudo fica esclarecido, ele “tá sim”. Quando não estiver, ele avisará, espero. De facto, melhor do que o meu brasileiro “alô”.

Há coisas mais complexas. Ir a uma casa de banho, por exemplo – que em brasileiro, aliás, é apenas banheiro. Ao terminarmos o seu uso, no Brasil, apertamos um botão a que chamamos de “descarga”. A palavra reúne todos os sentidos supostos para o ambiente: o usuário descarregou um peso e disparou um botão que irá dar um destino ao que depositou na privada – o nome brasileiro para retrete ou sanita, a propósito, bem apropriado, por ser um lugar de uso (ao menos se espera) privativo.

A palavra para descarga em Portugal se assemelha a terramoto, catástrofe, hecatombe, aniquilação: au-to-clis-mo. Será um auto-inflingido cataclismo? Tudo bem, pode ser que aquilo que foi feito no ambiente se assemelhe mesmo a uma borrasca, mas nem sempre é preciso ser tão literal. Ou será, penso, um esporte de corrida? auto-clismo: automobi-lismo, atle-tismo, motoci-clismo. Poderia mesmo ser um esporte, acho que cheguei a um bom sentido para o botão da sanita. Ou da retrete. Bem, não deixemos que isso cause um autoclismo.

Como brasileira, gosto de aprender as palavras usadas pelos portugueses para me adaptar à cultura local. Só que, às vezes, não sou capaz. Não consigo chamar Rapariga a ninguém. É ofensivo me virar para uma linda menina portuguesa a chamar-lhe do mesmo modo como xingava as colegas da escola no Brasil, quando consideradas moças de vida fácil, a tomar os nossos namorados da adolescência em troca de favores que, naquela época, ficavam prometidos para depois do casamento. Não, essa palavra não dá para falar. E os putos, como chamar de puto a uma criança? A versão masculina de puta não funciona para mim como uma forma carinhosa de falar com garotos… eis duas palavras riscadas do meu bloco de notas: rapariga e puto.

Mas gosto de alguns cumprimentos em Portugal. Dar bom dia, boa tarde e boa noite é bem simples no Brasil. Nada demais, se era manhã, bom dia; à tarde, boa tarde; à noite, boa noite. Era. Em Portugal, descobri que “bom dia” se prolonga até os interlocutores almoçarem; boa tarde enquanto houver sol e boa noite vem com a chegada da lua. Percebi que sei quem já almoçou e quem está com fome ao cumprimentar alguém – o que me ajuda a me apressar tão logo me aperceba que a pessoa, coitada, pode estar faminta -, mas o melhor é saber que “boa noite” quase não se fala no verão, quando o sol avança para depois das nove da noite. Gostei disso. Nada como pensar com a natureza, seja na realização das refeições, seja por usar o sol como marcador do tempo.

Nem tudo que estou a aprender é insólito. Os nomes dos cafés, por exemplo, são mesmo fofinhos: meia de leite, veja que coisa linda e clara: metade leite e a outra metade… café. Muito melhor do que o brasileiro café com leite, assim, preto no branco, seco, sem graça. E o café pingado. É só um pingo, e já está! Café só com um pinguinho de leite, nada mais delicado. O abatanado, já esse é um nome estranho: parece achatado, amassado, mas não, é só a bica servida numa chávena grande que, no Brasil, é xícara. Quase esquecia da bica, esse é o café expresso, mas cá entre nós, uma bica é uma bica. Parece ter mais sabor. E o galão, aquele copão amarronzado de muito leite e pouco café. Descobri que a lista de pedir cafés em Portugal tem 18 formas distintas.

Portugal tem muitos supermercados, em que pese ser um país pequenino. Tem mercados de outros países a operar em terras lusas. Mas há um que está na minha lista de graciosos: o Pingo Doce. Gente, o que é ir num mercado chamado Pingo, e um pingo que é Doce? Sou da terra dos Bompreço, Pague Menos, Extra, Atacadão, Descontão, terra dos exageros superlativos. Ao conhecer o Pingo Doce, confesso que não podia imaginar nome mais fofo para um lugar de comprar comida. Dá logo vontade de ir direto à secção dos rebuçados. Aliás, rebuçado é a designação sofisticada do brasileiro bombom ou bala e é bem melhor do que este, que no Brasil também está no revólver, e é mais sensato ver a meninada (não os putos) com indubitáveis rebuçados do que com balas ambíguas.

Voltando ao mercado, há de se lembrar que os preços no Pingo Doce têm sabor mais a salgados do que a doces… estes nem sempre sabem bem – verbo saber, aliás, de uso deveras esquisito para os brasileiros, que só o sabem usar no sentido de… conhecer, percebe? E perceber, outro verbo que usamos noutro sentido, mas deixes que a lista de verbos não acaba.

Um dia desses estava a assistir TV e um repórter pergunta a uma portuguesa, emigrante em França, o que ela fazia naquele país, ao que ela responde: – Sou mulher há dias.

Eu, que sou mulher desde o nascimento, fiquei a pensar como estava a correr a experiência de descoberta em ser mulher daquela senhora portuguesa. Até que caí no verdadeiro sentido do que ela disse: ela não é mulher dias, mas mulher a dias, senhora da limpeza ou, em brasileiro, diarista. Não era uma mudança de género, mas somente o trabalho da senhora naquele país.

A verdade é que sempre há constrangimentos linguísticos. Por exemplo, quando um brasileiro conversava com um colega português, bastante preocupado com a situação de desemprego e a dificuldade de conseguir trabalho, coitado, imigrante, pouca instrução, não arranjava um contrato para tornar sua permanência regular em Portugal. Neste contexto de dificuldade de remuneração para sobrevivência, o brasileiro disse: – Amigo, nada de conseguir emprego. Tenho de continuar a fazer bico. A que o seu colega português, estupefacto, exclamou: – Mas por que hás de me contar isso? Deves estar mesmo à necessidade, mas não conte comigo dessa vez.

O brasileiro retomou: – Ué, mas o que há de errado em fazer qualquer coisa para sobreviver? Pois, é mesmo um vale-tudo a vida de imigrante. Por conta de um simples biscate para conseguir pagar a renda do mês o brasileiro se expõe dessa maneira.

São mesmo muitos fatos a contar do português. E não, não falo de ternos, são factos mesmo. Pelos vistos, esta crónica não vai dar certo. É preciso muita cara de pau para continuar – quer dizer, muita lata. Da próxima vez, vou contar mesmo a história do português, aquele da padaria. Essa sim, a tradicional piada que brasileiro conta de português, só que agora não me vem nada à memória.