Não é novidade que o digital tomou conta da produção de conteúdo nos media. As novas formas de produzir conteúdo invadem as redações e são o mote da inovação no jornalismo. A realidade tecnológica rasgou com os tradicionalismos e, cada vez mais, os consumidores dividem-se entre a vasta oferta informativa disponível. Há mais formas de produzir notícias e de contar histórias. Mas as possibilidades crescentes não se traduzem necessariamente num sucesso comercial para os media nacionais.
Apesar de a televisão continuar a ser o principal meio de informação para os portugueses, a digitalização tem trazido um acesso disperso, casual e pouco leal aos organismos tradicionais. Marisa Torres da Silva, investigadora do ICNova e docente na área de Ciências da Comunicação, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), esclarece que “o acesso às notícias é cada vez mais circunstancial. Há menos lealdade às marcas tradicionais”.
Esta tendência crescente torna-se mais evidente entre os mais jovens. Afonso Ferreira, 26 anos, assume que grande parte da informação que consome é nas redes sociais: “Vejo as notícias que vêm no Instagram, essencialmente.” O jovem médico acrescenta que também usa a televisão e o Youtube para se informar: “O Youtube tem muito conteúdo noticioso, não apenas das plataformas tradicionais de comunicação, mas de meios mais independentes ou pessoas individuais verificadas.”
Ana Paula Pereira, 44 anos, administrativa, recorda que a família tinha sempre um jornal ou revista em casa, mas agora “basta chegar a um computador ou a um telemóvel e a informação surge toda na hora”. Já José Maria Falcão, gestor agrícola de 66 anos, embora se considere mais confortável com a tecnologia que a maioria das pessoas da sua geração, explica que “a preferência é o suporte em papel”.
A realidade é que os acessos digitais, especialmente as redes sociais, dominam o quotidiano informativo de muitos portugueses. O Digital News Report de 2025 dá conta que a internet e a televisão se encontram empatadas no acesso à informação. No entanto, as gerações têm preferências muito diferentes. Os mais jovens usam predominantemente a internet para se informar, Afonso Ferreira confirma a tendência sobre o acesso à informação: “Consumo notícias através da internet, alguma televisão, muito pouco rádio e jornais não.”
Ana Paula Pereira é leitora assídua da informação online, mas de jornais de referência. “Normalmente, quando quero saber alguma informação vou aos sites de notícias”, aponta. A administrativa confirma que a televisão está presente no seu quotidiano, apesar de ser de forma reduzida.
José Maria Falcão garante que se mantém pelos meios informativos tradicionais, embora também consuma algum conteúdo digital: “Ainda leio muitos artigos em papel. Ultimamente, cada vez mais através do computador, mesmo que seja o suporte digital do jornal.”
Confiança em queda
As fake news estão longe de ser um fenómeno recente. O que mudou foi a velocidade e a facilidade com que as informações erróneas se propagam. De acordo com o estudo “Fake News and its impact on trust in the news. Using the Portuguese case to establish lines of differentiation”, coordenado pelos investigadores Tiago Lima Quintanilha, Marisa Torres da Silva e Tiago Lapa, em 2019, a preocupação quanto à difusão de dados falsos tem vindo a aumentar. No entanto, a pesquisa demonstrou que, embora existisse preocupação com a quantidade de notícias falsas que circulavam, o público confiava bastante no jornalismo. Será que, em 2026, a credibilidade ainda se mantém?
Marisa Torres da Silva adianta que existe “uma confiança cada vez menor nas notícias tradicionais, mas mais do que menor confiança, prevalece a percepção de que as pessoas estão aborrecidas, desinteressantes ou evitam consumir notícias para a preservação do bem-estar e da saúde mental”.
Afonso Ferreira, por exemplo, afirma que “maioritariamente” acredita nas informações que lê. “Às vezes, noto alguma tendência de um jornal ou outro fazer um título de certa maneira, dar uma notícia de uma perspectiva parcial e não total, mas, de resto, acho que está tudo correto. Os títulos ou as descrições de notícias são manifestamente insuficientes para perceber ao certo o que é que se passa”, considera.
Ana Paula Pereira confessa que a digitalização “piorou a qualidade da informação disponível”. A acelerada produção de notícias levou – defende – “a menos cuidado naquilo que vem cá para fora”. A urgência de produzir notícias para estas plataformas compromete o correto processo de verificação dos factos: “Temos muita informação, grande parte dela sem ser verificada como real.”
José Maria Falcão afirma não confiar no que vem nas redes sociais. “Vou muito às plataformas certificadas. Não gosto das redes sociais porque se diz coisas horripilantes sem contraditório. Nas redes sociais, não se assina quem escreve; no jornal, sabemos quem assina e quais são as fontes. Tenho muita confiança no que é produzido na imprensa tradicional”, reforça.
O Digital News Report de 2025 vem corroborar a mudança de comportamentos. Nos últimos dez anos, houve um decréscimo acentuado na confiança nas notícias.
O jornalista e o criador de conteúdo
Quanto o assunto é credibilidade, é a imprensa tradicional que é mais consensual. Marisa Torres da Silva afirma que o jornalista “ainda continua a prevalecer no imaginário, como uma figura ou um campo referencial”, mas admite que “não é necessariamente priorizado”. A especialista expressa uma preocupação com um processo democrático que, como adverte, “traz uma possibilidade de hibridização e de contaminação”. Como esclarece, “este fenómeno é causador de uma confusão de fronteiras entre um profissional credenciado, legitimado por um código deontológico e a esfera pública digital, que não se rege obviamente pelas mesmas normas profissionais”.
Marisa Torres da Silva afirma ainda que “há figuras que se tornaram relevantes nas redes sociais e depois foram catapultadas para o comentário televisivo”, o que, no seu entender, “gera confusão sobre o que são ou não jornalistas”.
Num balanço aos efeitos deste boom digital, a especialista assume algumas adaptações: “Houve impactos naquilo que rende, que é noticiável.” No que afeta o público, centra-se na literacia mediática como pilar para a convivência eficaz com o mundo rápido do digital. “Em Portugal, já existem várias iniciativas, mas deveriam ser mais abrangentes, sobretudo ao nível das escolas, desenvolvendo projetos de literacia mediática, para formar professores.” Marisa Torres da Silva defende a urgência de implementar a literacia mediática no plano curricular. “Esta medida permitiria, desde cedo, questionar tudo o que nos rodeia, questionar o mundo”, remata.