Entrei no curso de Jornalismo sem ser a primeira escolha. Quem me conhece sabe que não sou a maior fã do jornalismo atual. Embora reconheça a sua importância social, acredito que devia ser mais do que aquilo que, muitas vezes, parece ser. Hoje, tudo é para ontem. A notícia tem de sair antes de ser pensada, o título tem de chamar mais à atenção do que esclarecer e o impacto parece, por vezes, valer mais do que a verdade. O problema é que, no meio desta pressa toda, há qualquer coisa essencial que se perde.
Imediatismo, sensacionalismo e pressão. Três palavras que explicam muito do desencanto que sinto em relação à profissão. O imediatismo rouba tempo à investigação. O sensacionalismo transforma assuntos sérios em espetáculo. A pressão obriga a produzir cada vez mais, mesmo quando a prioridade deveria ser parar, ouvir e pensar.
Hoje, ser jornalista é também carregar o peso da desconfiança dos outros. É dizer que vamos ser jornalistas e olharem para nós com pena ou, pior, com uma certa raiva. É dizerem que mentimos, manipulamos, que estamos comprados, que influenciamos aquilo que as pessoas veem e pensam. É uma opinião demasiado comum para ser ignorada. E, por mais injusta que seja em muitos casos, também não surgiu do nada. Talvez o jornalismo tenha feito a cama onde se vê, agora, obrigado a deitar-se.
E é aqui que entra a minha dúvida. Será que quero começar uma carreira numa profissão em que já se entra a pedir desculpa? Será que quero ser jornalista num tempo em que a verdade parece ter de competir com algoritmos e audiências? Será que alguém nos vai ouvir, a nós, jovens recém-licenciados, no meio de redações cheias, cansadas e com pouco espaço para errar?
Fala-se muito dos jovens como o futuro do jornalismo. Mas, às vezes, parece que esse futuro só serve para preencher buracos. Os estagiários chegam com vontade de aprender, mas depressa percebem que a vontade nem sempre chega. Há pouco tempo, paciência e pouca aposta em novas vozes. O espaço continua a ser para os mesmos nomes, rostos e ideias. É impossível haver diversidade e mudança sem se criar verdadeiramente espaço para que aconteça.
Não sei se uma recém-licenciada conseguirá mudar alguma coisa. Provavelmente, não. Pelo menos, não sozinha. Mas talvez a mudança comece antes de alguém nos ouvir e surja no desconforto de perceber que há algo errado. Talvez comece na recusa de aceitar que o jornalismo tem de ser apenas pressa, ruído e espetáculo.
No fim, talvez a pergunta não seja se ainda quero ser jornalista. Talvez a pergunta seja se ainda existe espaço para o tipo de jornalismo que gostaria de fazer.
