Panorâmica da Ilha de São Jorge

O campeonato de futebol mais pequeno de Portugal: uma Final com 12 partes

Noventa minutos nem sempre chegam para duas equipas decidirem um campeão. Na Ilha de São Jorge, o campeonato de futebol ficou reduzido a apenas dois clubes, com a tarefa de decidir o título em 12 longas jornadas. Esta é a história da última semana desta longa maratona

No dia 19 de abril, um jogo na ilha de S. Jorge escapou aos holofotes mediáticos de todo o país. O GD Velense venceu a Taça de São Jorge por 1-0 contra o FC Calheta. E a quem isto importa? Provavelmente, a quase ninguém. Mas, na verdade, tratou-se de um jogo histórico. Primeiro, porque a vitória do Velense foi a única na época e valeu logo um troféu. Também porque estas equipas se defrontaram 13 vezes ao longo da época, 12 delas para o campeonato, em que não defrontaram mais ninguém. E até o árbitro foi o mesmo de sempre. Exactamente: Velense e Calheta disputaram esta temporada o campeonato mais pequeno do mundo, uma liga a duas equipas, jogos a cada duas semanas. Não houve forma de alegar desconhecimento sobre o adversário.

Para entender o fenómeno, é preciso perceber como se organiza o futebol nos Açores. O panorama desportivo do arquipélago é um reflexo da sua demografia. Mais de metade dos açorianos reside em São Miguel e cerca de três quartos vivem ali ou na ilha Terceira. Com mais população e recursos, as duas ilhas concentram a grande maioria do desporto na região.

Nas principais modalidades, sempre que uma equipa açoriana figura na primeira divisão nacional, é muito provável que seja proveniente de uma destas ilhas. E no caso do futebol, a realidade é ainda mais notória, com apenas três das dez equipas presentes no campeonato regional (o nível intermédio entre as competições nacionais e os campeonatos de ilha) a representar uma das outras sete ilhas.

Faial e Pico, as seguintes na tabela da população, dividem entre si a jurisdição da Associação de Futebol da Horta, disputando um campeonato entre as duas ilhas. Obteve um máximo de sete participantes nos últimos cinco anos, tendo apenas três equipas na presente época. Estas ilhas também se têm destacado pelo trabalho nas modalidades, com SC Horta, do Faial, e Candelária SC, do Pico, a somarem passagens pela 1ª Divisão de Andebol e Hóquei em Patins, respetivamente, no passado recente. A AF Horta também é responsável por Flores e Corvo, onde há muito que não se ouve falar de futebol sénior e cujos clubes apostam em outras modalidades.

Santa Maria divide a AF Ponta Delgada com São Miguel e também não se disputa qualquer campeonato de futebol na ilha atualmente, conseguindo ainda assim manter um campeonato de futsal.

Por fim, chegamos à Associação de Futebol de Angra do Heroísmo (AFAH), responsável por Graciosa, Terceira e S. Jorge.

Na Terceira, estando a esmagadora maioria das equipas a competir no nível regional ou mesmo nacional, poucas são as que compõem o campeonato de ilha. Não tem sido incomum um campeonato a dois, não necessariamente porque há poucos clubes, mas porque a grande maioria consegue manter-se nos patamares acima.

Na Graciosa, o futebol tem ainda um espaço de destaque e há frequentemente um representante local no campeonato regional, além de estarem sempre várias equipas a disputar o respetivo campeonato de ilha.

Depois, há São Jorge, onde apenas três clubes mantiveram ativo o futebol sénior nesta temporada. Um deles, o Urzelinense, tinha ganho o direito a estar presente no campeonato regional. Apesar de se tratar de uma ilha com maior ligação a Pico e Faial, a AFAH ficou por si responsável, fazendo com que todos os anos os campeões de S. Jorge, Graciosa e Terceira se encontrem para discutir o campeão da associação, que ganha direito a subir de divisão para o campeonato regional. Na chamada ilha do dragão, o campeonato nunca viu mais do que cinco participantes. O tradicional Marítimo Velense atravessa um momento complicado e, desde 2021, mantém o futebol sénior encerrado. O Desportivo da Beira, participante habitual, optou por não inscrever a equipa no campeonato, deixando GD Velense e FC Calheta sozinhos numa competição com 12 longas jornadas.

Assim se criou o campeonato mais pequeno de Portugal, no qual o Calheta se sagrou campeão logo em fevereiro, com quatro jornadas de antecedência. Depois, a grande surpresa com a vitória do GD Velense na final – não foram precisas eliminatórias prévias – da Taça da Ilha de São Jorge. Um autêntico golpe de teatro que deixou no ar a possibilidade de, com duas jornadas por cumprir, conseguirem ainda somar uma vitória no campeonato.

O jogador-roupeiro e o treinador-polícia

Chegava assim a semana dos dois últimos confrontos entre as equipas. Com a final da taça a realizar-se ao domingo, foi necessário mover o penúltimo jogo para a quarta-feira seguinte – o primeiro e único encontro da prova marcado para um dia de semana. Cabia ao já campeão FC Calheta jogar em casa, ainda que não fosse o último jogo do ano no seu campo, uma vez que dali por duas semanas estaria a receber o tão aguardado jogo de apuramento de subida ao campeonato regional.

Com o pontapé de saída marcado para as 19h30, as portas do Campo Municipal da Calheta abrem uma hora e meia antes do encontro. O presidente António Miguel Viegas é um dos primeiros a chegar para organizar o serviço de bar e garantir que está tudo nos conformes para a competição que se avizinha. Já está habituado a conjugar o seu trabalho numa seguradora com a gestão do clube. No primeiro ano como presidente, depois de 20 anos como jogador do clube, Viegas fez o FC Calheta aumentar o número de praticantes e conquistar novamente o campeonato, quatro anos depois do último triunfo.

Bernardo Ávila é o primeiro atleta a chegar. Não vem para fazer trabalho de ginásio, nem tratamento na fisioterapia, muito menos para se reunir com alguém. A ele cabe a função – não por obrigação, muito pelo contrário – de preparar o balneário, organizar os equipamentos e preparar a ficha de jogo para ser entregue ao árbitro. Aquilo que muitos clubes atribuem a um team manager, Bernardo Ávila faz sem pedir nada em troca, enquanto treina e joga. O lateral de 25 anos é um dos vários filhos da terra, num plantel que mistura juventude com experiência e jorgenses nascidos e criados com quem, vindo de fora, quis chamar à ilha de casa.

Ao comando do grupo está Paulo Cabral, um dos obreiros do sucesso. Com quase 50 anos e afastado há algum tempo do futebol, o regresso ao ativo veio por um motivo especial. “Um dos meus filhos, que gosta imenso de futebol, já está casado e saiu de casa há quatro anos. Eu já estava arredado, mas aceitei o convite porque ele me pediu para voltar”, conta. Agente da PSP durante o dia, o treinador ia resistindo aos convites que recebia de diferentes equipas ano após ano. Foi o entusiasmo do filho que tornou impossível recusar a proposta do FC Calheta. Mais ainda, por ter o título de treinador expirado, viu-se obrigado a inscrever-se e apresentar-se a jogo como… jogador, uma vez que é a única forma de ter dispensa da sua atividade profissional.

O futebol aproximou pai e filho e passou a ser habitual receber chamadas do filho para comentar o estado da equipa. “Essa foi a maior vitória”, confessa. A monotonia do campeonato não foi problema para o treinador, que planificou a época a pensar no título, sem pensar no adversário. “Temos de fazer as nossas continhas. Planeei ganhar todos os jogos e ser campeão a seis jornadas do fim. Acabamos por empatar aqui e ser campeões nas Velas no jogo seguinte”, explica. Apesar da dificuldade em manter um plantel amador motivado, as estratégias foram dando frutos, permitindo à equipa garantir o título com larga vantagem. “Não tomei nenhuma decisão, primeiro vejo com a minha família e depois decido o futuro”, diz.

Um árbitro omnipresente

A equipa de arbitragem do encontro é, em sintonia com o campeonato em si, bastante familiar. O árbitro, Fábio Bettencourt, de 39 anos, é o mesmo da final da taça e das duas jornadas anteriores. Antigo atleta, faz o seu oitavo jogo (em onze possíveis) neste campeonato, e não esconde os problemas que a arbitragem atravessa na ilha: “A última vez que abriu o curso de árbitro foi quando entrei há quatro anos. Não há interessados e, se houver, não compensa abrir o curso para um ou dois.”

A própria equipa de arbitragem também teve de se ajustar ao horário pouco habitual da partida. Roberto Araújo, um dos auxiliares, saiu do emprego às sete da tarde e tenta chegar ao campo em contrarelógio. “A final da Taça foi feita com duas pessoas que se tornaram árbitros há coisa de três, quatro anos. Um já tinha estado em dois ou três jogos este ano, o outro fez o primeiro jogo desta temporada”, refere Fábio Bettencourt.

De orgulho ferido, a equipa do FC Calheta apresenta-se sem baixas de peso. Já o GD Velense, a jogar fora de portas, não pode contar com o seu capitão, Rui Brasil, que após ter marcado o golo solitário que valeu a vitória na Taça, falha o encontro do campeonato por estar à mesma hora a dar treinos às equipas de voleibol do clube. Apesar de a chuva ter, finalmente, dado tréguas, o vento sopra com bastante intensidade no Campo Municipal da Calheta e são poucos os corajosos que se atrevem a marcar presença na bancada.

Há poucos lances dignos de registo na primeira parte. O Velense tem a primeira chance quando o guarda-redes da equipa da casa deixa a bola escapar para o avançado adversário, resolvendo depois com a ajuda da defesa. O Calheta responde e tenta assumir o controlo do jogo, conseguindo ainda enviar uma bola ao poste. Enquanto a noite vai caindo, as equipas recolhem aos balneários. Os adeptos recolhem ao bar do campo, onde na televisão se vê FC Porto e Sporting a discutir um lugar na final da Taça de Portugal. O GD Velense vê-se forçado a trocar de guarda-redes ao intervalo e o FC Calheta intensifica a pressão em busca do golo. Chega aos 72 minutos, quando Hélio Ocante, melhor marcador do campeonato, recebe um cruzamento e finaliza com qualidade. A turma das Velas ainda traz a jogo o terceiro guarda-redes, por força de nova lesão, mas não vira a cara à luta. Muito coração e pouca cabeça, o marcador não se altera até final. O FC Calheta consegue mais um triunfo e terá no domingo seguinte o último passo para segurar a invencibilidade no campeonato.

Camaradas nos relvados e na câmara

Quem olha para a equipa do Calheta a jogar certamente não repara na improvável dupla que ali se formou entre o melhor marcador Hélio Ocante e o capitão Maurício Avelar. O primeiro é avançado e não é da ilha, o segundo é defesa e viveu toda a vida em S. Jorge. Os dois atletas trabalham juntos na Câmara Municipal da Calheta, onde estão colocados como assistentes operacionais. Hélio é o mais novo dos dois. Aos 30 anos, o avançado faz a sua segunda época na ilha. Natural de Alcanena, jogou quase sempre nos campeonatos distritais de Santarém, até que o convite para jogar no Campeonato de Portugal ao serviço do União de Tomar mudou tudo. “Disseram-me que devia deixar de brincar ao futebol. Tive mais visibilidade e chegou uma proposta para jogar em Itália, ganhar um bom dinheiro”, conta.

Depois de seis meses em Tomar, o avançado disputou a restante temporada ao serviço do Capistrello, da 5ª Divisão italiana. Corria o ano de 2024 e, no verão, um período de férias na Graciosa iria mudar-lhe a vida: “Gostei do ambiente e decidi que queria mesmo jogar nos Açores. Ia para o Lajense, da Terceira, mas as coisas não se deram e um amigo falou-me para vir para aqui.” Apesar de jogar a um nível mais baixo e ter de continuar longe dos filhos, o avançado abraçou o desafio e afirmou-se logo na primeira época, em que marcou 18 golos. Não foi difícil tomar a decisão: “Sou muito dado às pessoas e senti-me muito acarinhado aqui. Por isso, decidi ficar mais um ano.” Sagrou-se novamente melhor marcador. Mas ainda não sabe se vai permanecer em São Jorge. “Se tiver de ficar fico, se tiver de sair saio”, conclui.

Maurício Avelar, um pouco mais velho, sabe da importância de bem receber. O experiente defesa aproximou-se do seu colega bastante cedo. “Criámos uma relação de amizade logo no primeiro treino. Temos feitios parecidos e chocamos muito um com o outro”, reconhece. Maurício é natural da Calheta, mas passou largos anos nas Velas, onde foi campeão de ilha por nove vezes, sem nunca ter conseguido a subida de divisão. No quarto regresso à equipa da Calheta, admite a dificuldade em manter os colegas motivados: “É preciso gostar muito disto. Jogamos de 15 em 15 dias, há quem saia tarde do trabalho ou venha de longe. Se para quem ganha é complicado, para quem perde deve ser mais difícil ainda.” O capitão tem sempre de ser a voz de incentivo dentro do balneário. “Tento fazê-los perceber que as pessoas do clube fazem muitos sacrifícios para estarmos aqui”, afirma. Com as partidas de apuramento à vista, Maurício procura o objetivo que lhe escapou por tanto tempo: “Se subirmos, faço mais um aninho.”

Com o apito final a soar já perto das 22h00, os jogadores encontram-se no bar do clube. Talvez seja este o segredo das vitórias.

Cestos de campista

Depois de quinta-feira ter sido dia de descanso – feriado municipal nas Velas -, ambas as equipas realizaram no dia seguinte o último treino antes da derradeira partida de domingo. No Campo Municipal das Velas, antes dos Seniores, o diretor de futebol, André Rodrigues, vai terminando os treinos dos mais novos. Arquiteto de profissão e capitão do clube por muitos anos, André esteve dois anos como presidente, antes de passar a bola para Rui Guilherme. Ambos dispensam parte do tempo livre para garantir que os atletas treinam e têm transporte para o campo. O dia só termina quando todos os atletas da formação já treinaram e estão entregues em casa.

Entretanto, alguns atletas vão chegando de cesto na mão. A logística é bastante curiosa: não havendo rouparia no campo, os atletas têm primeiro de se deslocar ao Parque de Campismo para recolher o seu equipamento, para depois se equiparem, treinar e devolver o cesto no mesmo local.

De São Paulo para São Jorge

O início dos trabalhos está marcado para as 19h30, mas rapidamente se percebe que não serão muitos a comparecer. O treinador, Gonçalo Fachina, não estranha a situação e recorda como os resultados e o desenrolar da época foram condicionando o plantel: “O grupo começou a ser construído tarde e já não havia muitos jogadores disponíveis. Torna-se difícil juntá-los num treino quando o campeonato vai mal.”

O técnico de 37 anos é também um dos que, mesmo não crescendo na ilha, aprendeu a chamá-la de casa. Natural de Sintra, jogava no Sobreirense, nos campeonatos distritais de Lisboa, quando, com apenas 20 anos, decidiu aceitar o desafio de jogar no Marítimo Velense. Passou apenas um ano na ilha, mas o suficiente para criar ligações e conhecer a sua mulher. Regressaram a Lisboa por mais três anos – ela para estudar, ele para jogar e trabalhar -, antes de se fixarem definitivamente nas Velas.

A trabalhar no escritório de um transitário e com uma filha pequena, Gonçalo aceitou assumir a equipa sénior do Desportivo. Entre jogadores de fora que foram saindo a meio da época e atletas da casa que se sentiram incapazes de continuar a ajudar a equipa, o plantel foi ficando cada vez mais curto. E as primeiras jornadas do campeonato não ajudaram. “No primeiro jogo, lá na Calheta, estamos a perder 3-0 com um a menos ao intervalo. Ajustámos e empatámos em 15 minutos. Depois, há dois golos deles precedidos de agressões e o jogo acaba 5-3”, diz o treinador. No jogo seguinte, menos sorte ainda. “Eles marcam golo na única vez que vão à nossa baliza. Nós falhamos golos isolados, desperdiçamos um pênalti e mandamos bolas aos ferros. A partir daí criou-se uma espiral negativa”, revela.

É notório o impacto que o desenrolar do campeonato teve na equipa. O coletivo de atletas presentes no treino não chega aos dez e nenhum guarda-redes está presente. Cabe a Gonçalo Fachina adaptar a sessão, enquanto a filha vai ajudando a apanhar as bolas que ficam perdidas. “É a única forma que tenho de passar mais tempo com ela”, conta o treinador.

A maioria dos presentes obedece a um de dois critérios: ou tem idade de júnior ou não é da ilha. É o caso do luso-angolano Kalanga e do brasileiro Victor Jambassi. O primeiro tem 32 anos e vive em S. Jorge desde 2018, quando, após uma época em Manteigas, na Guarda, recebeu o convite para jogar no Grupo Desportivo da Beira. A estadia na ilha foi-se prolongando, primeiro para estar perto do agente que o levou até lá, depois para poder tratar com mais rapidez do processo de nacionalidade, aproveitando estar num meio mais pequeno.

A vida em S. Jorge tem os dias contados para o atleta, que está a terminar o curso de Técnico Especialista em Exercício Físico. “Só tenho de fazer os exames, tirar a certificação e está feito. Gostava de ir para a Terceira e continuar a jogar futebol”, avança. O regresso a Lisboa, onde viveu entre os 7 e os 23 anos, não é para já opção: “A questão da casa faz-te pensar. Já não é a Lisboa dos velhos tempos.”

Por outro lado, Victor Jambassi faz o primeiro ano em São Jorge. Natural de São Paulo, o brasileiro de 24 anos chegou a jogar pelo Santos, na adolescência, onde dividiu balneário com o astro do Real Madrid Rodrygo Goes. Depois, prestes a completar 18 anos, arriscou-se em Portugal. Passou por Alcanena, Viana do Castelo, Faro e Viana do Alentejo, antes de se mudar para o norte do país. Por lá viveu com Otávio Ataíde, seu amigo e jogador do FC Porto, e o futebol ia ficando cada vez mais para segundo plano. Até que outro amigo o convenceu a vir para as Velas. “Já tinha dois amigos aqui e um deles disse-me que ia falar com o clube. Pesquisei sobre a ilha e decidi vir para conhecer o arquipélago e as pessoas, e fui muito bem recebido aqui”, conta o jogador que, ainda assim, estranhou o formato da competição: “Disseram-me que era um jogo a cada duas semanas, mas perguntava pelo adversário e era sempre o mesmo. Achei que estavam a gozar comigo e que os jogos iam dar imensa confusão, mas tem sido tranquilo.”

Entre os presentes encontra-se também Leonardo Dutra. O jovem de 17 anos, filho da terra, saltou diretamente dos juvenis para os seniores e tem sido dos mais utilizados. Aluno do 12º ano, planeia ir para o Continente no verão para prosseguir os estudos e ingressar na licenciatura em Treino Desportivo. É uma realidade transversal aos jovens da ilha: “Para quem quer prosseguir estudos isto é difícil. Há quem faça o ensino profissional e fique a trabalhar na região, mas quem quiser estudar mais tem sempre de ir para fora.” Após um ano difícil, com uma subida precoce à equipa principal, Leonardo aceitou ajudar o clube e ficar mais um ano. Mas a despedida não é definitiva. O jovem atleta pensa também em fazer um mestrado em Psicologia do Desporto e conseguir singrar em casa. “O que eu quero mais é voltar para São Jorge”, remata.

Estando ou não planeada a saída, é certo que este seria o último jogo de campeonato de ilha para vários atletas. A reduzida sessão de treino nas Velas foi acompanhada de um treino do outro lado da ilha, na Calheta, onde também se alinhavam os últimos detalhes para domingo. Aproximava-se a hora dos últimos noventa minutos entre as duas equipas.

Calheta Invicta

Curiosamente, o jogo entre os suspeitos do costume não era o mais importante do dia na ilha. Às 10h30, decide-se na Urzelina, a cerca de 15 minutos das Velas, a última jornada do campeonato regional e as últimas contas da manutenção. Só a vitória interessava ao Urzelinense, que também precisava de um resultado favorável noutros campos. Ao intervalo, vitória parcial por 2-1 e, por momentos, parecia que a manutenção era um cenário possível, num campo onde as cores ficaram de lado e o futebol da ilha jogava todo junto, com elementos tanto da Calheta como das Velas presentes na bancada. No entanto, o golpe de teatro veio na segunda parte, num desfecho com contornos de tragédia: a equipa visitante virou o resultado e consumou a despromoção dos da casa. De um lado, o Desportivo Velense já sabia que teria pelo menos um adversário na época seguinte; do outro, o FC Calheta tinha agora sobre si o peso de, no apuramento de subida, colocar a ilha de novo no principal campeonato do arquipélago.

Olhos postos no jogo das 15h00, no Campo Municipal das Velas. Os atletas dos visitantes chegam nos seus carros, enquanto os atletas da casa percorrem o trajeto habitual entre o parque de campismo e o balneário. A equipa de arbitragem, a mesma do jogo anterior, não escapa aos contratempos: Roberto Araújo está doente e não consegue comparecer ao jogo. Cabe a Ricardo Gonçalves, árbitro auxiliar, trazer o seu filho Martim, para assumir o lugar vazio num dos seus primeiros passos como árbitro. Uma estreia inesperada para o jovem de 15 anos nas competições seniores da ilha.

Do lado dos visitantes, a equipa vem praticamente completa. A novidade é Santiago Oliveira, craque da equipa Sub-16 que faz o 8º jogo na equipa principal. A equipa da casa, pelo contrário, apresenta-se muito desfalcada, com apenas dois suplentes no banco, sendo um deles o guarda-redes Carlos Fonseca. Sobrevive ainda assim uma réstia de esperança na primeira vitória para o Velense no campeonato, desfeita bastante cedo. Com apenas 9 minutos, um grande passe encontra Rodrigo Silveira, que assiste Lassana Mané para o primeiro da tarde. Mais à frente na primeira parte, novidade na equipa da casa: Óscar Melo chega diretamente do aeroporto, onde estava a trabalhar, e junta-se aos seus colegas no banco.

Pouco mais se passou no encontro até à segunda parte. O FC Calheta troca os seus guarda-redes no intervalo e cabe ao recém-entrado Roberto Soares segurar as várias investidas da equipa da casa. Gonçalo Fachina ainda leva a jogo os dois atletas que tinha disponíveis, mas a fadiga falou mais alto e, à entrada dos últimos 15 minutos, André Azevedo, outro suplente lançado ao intervalo, dispara de fora da área para sentenciar a partida com um grande golo.

Pouco tempo depois, Fábio Bettencourt sopra, pela última vez, para sentenciar um campeonato no qual foi praticamente totalista. Está oficialmente terminada a maratona de 12 jogos, com um saldo de dez vitórias para o FC Calheta e dois empates. Os campeões de ilha viram agora atenções para o sonho da subida, enquanto o GD Velense tem ainda a oportunidade de vencer a Supertaça do Triângulo, na casa do FC Madalena, na ilha do Pico, no culminar de uma época para esquecer, mas salva pela conquista da Taça. Independentemente do que vier a acontecer, esta época ficará guardada por muito tempo na memória de ambos os clubes.

Para os livros de história fica, sem dúvida, a monotonia deste encontro ao longo da época. Somando todas as competições, o GD Velense disputou 18 encontros na época e o FC Calheta 21. Destes, 15 foram entre si. Talvez o mais insólito seja mesmo que, depois de tantos minutos e momentos partilhados em conjunto, ambas as equipas terão de se enfrentar novamente na próxima época.

Para o ano há mais… Esperemos

Quis o destino que o apuramento de subida não sorrisse à turma da Calheta, que viu o SC Barreiro, da ilha Terceira ficar com o troféu de campeão da AFAH e consequente promoção. O campeonato regional terá assim mais uma equipa das maiores ilhas do arquipélago e as ilhas do triângulo terão no FC Madalena o seu único representante na principal competição da RA Açores. Também o Velense não conseguiu vencer a Supertaça do Triângulo, mas fica para mais tarde recordar a época em que, depois de jogar 15 vezes com o mesmo adversário, a única vitória conquistada valeu um troféu.

Mais do que números ou resultados, estes dois clubes são uma prova de resiliência e de aquilo que é o desporto. Numa ilha pequena e num meio desafiante, mesmo sabendo que seriam os únicos a avançar para a competição, competiram e lutaram. Talvez fosse mais fácil ficar em casa, argumentar que assim não compensa competir e juntar-se ocasionalmente para um amigável, sem perder horas em treinos e em jogos. Mas se os clubes sobrevivem é porque há pessoas que se recusam a desistir deles e insistem em manter a sua atividade e dignificar o seu nome, quer joguem com todo o arquipélago, contra os vizinhos ou até mesmo sozinhos.

O futuro é incerto no que toca ao campeonato da ilha de S. Jorge e aos resultados desportivos. O que é certo é que ambos os clubes estão e continuarão a estar vivos e ativos, apesar de todas as dificuldades e obstáculos que sempre se colocaram no caminho.