Under skin – Cicatriz viva, de Clara Azevedo

Rasgar o corpo da pele com o um bisturi onde regorgita o sangue e se desenham territórios e países feitos de cicatrizes.

Desde sempre e há muito, símbolos e signos são sinais evidentes da pátria dos poros onde a carne rasgada é a marca da geografia que veste a derme. É nesse vestir que se abre o despir e se revela a persona e a alma da pele.

Rupestres pinturas habitam a ritualidade da passagem e seu veloz ciclo terreno. O grito e a voz.

Depois, o corpo e a carne desaparecem. Sucumbem. Permanecem na memória o mapa, caminhos e significados . Desenho da obra no corpo. Seu manto como um templo do tempo sagrado e profano. São e insano.

A dor do corte e o prazer da penetração da agulha dilaceram a pele quando surge a taxidermia plena, tendo o corpo da alma como a alma do corpo.

Contudo, Clara Azevedo atinge muito mais que ásperas metáforas com o seu cortante e incisivo olhar. Além de extremamente perturbadoras e instigantes, as obras deste novo conjunto da fotógrafa atingem uma subtileza, delicadeza e elegância de extremo requinte na sua construção e interpretação, assim como na regência do domínio técnico. Impossível ficar passível ou isento.

Renasce e ressurge na música das veias em carne viva, plantando e desenhando a transpiração do espírito de cada um. A liturgia do corpo com espelho.

Há um transfer e uma ferida na poética da leitura dos signos, códigos e ideias que percorre à flor da pele. É, sem dúvida, a mais bela e noturna flor que rasga os espinhos do cacto que assina com sangue suas prints e seu olhar em sal.

Por outro lado, cabe ao fotógrafo tatuar o tempo com a marca do ritual e a regência do registo.

Quando a print levita, sobe à parede e se oferece ao olhar outro, se grava no tecido do tato visual uma transcendente tattoo sem qualquer tabú, num novo e desafiante território e universo. Interpretação como canção.

Quando iniciava a reflexão e mergulhava neste trabalho tattoo, duas questões me surgiram de imediato: índios e negros que em sua ancestralidade já o faziam como modo de ser e estar e o filme “Livro de cabeceira” do genial artista Peter Greenway.

A grande viagem misteriosa e tão pessoal da tatuagem. Suas marcas, seu significado no recriar de novas rotas, rostos e labirintos. O corpo marcado e escrito – museu vivo de emoção – onde pulsa o coração como um relógio do tempo ausente.

A pátria da arte . Casulo e ninho tecem significados e bordados . Diversos.

Fotografar = Gravar com a luz.

Texto do curador, fotógrafo e editor Orlando Azevedo