Maria de Lurdes Vieira: Assim nasceu o anjo que fundou o CRID

Numa aldeia sem eletricidade, uma casa às escuras guardava “o castigo de Deus”. O choro em surdina confundia-se com o cacarejar das galinhas. A curiosidade moveu a pequena Maria de Lurdes a espreitar. Manuel e Maria viviam num galinheiro, escondidos do mundo pela vergonha. Eram apenas dois meninos com deficiência mental. A partir desse dia, na mente de uma criança, ficaram as sementes do que viria a ser o CRID, um centro que pretende responder a situações sociais e de saúde, em particular de pessoas com deficiência

A aldeia Videmonte, na Guarda, era um lugar de medos, marcado pela religiosidade e pela aversão à diferença. Quando entrou no galinheiro, Maria de Lurdes Vieira lembra-se de pensar: “Como é que isto é possível?”. O bichinho da ação social foi crescendo desde então e, apesar de lidar diariamente com situações de deficiência muito complicadas, garante: “Vi aquilo e achei muito estranho. As pessoas com deficiência não fazem mal a ninguém.” Hoje, com 80 anos, Maria de Lurdes não se esquece dos momentos que a encaminharam a fundar o Centro de Reabilitação e Integração de Deficientes (CRID), que funciona desde 1998 em Alcabideche, Cascais.

De mangas arregaçadas

“Allí en Cascais hay una chica muy gira.” Papa Francisco lembrava-se perfeitamente da jovem que o tinha acompanhado nas ruas de Buenos Aires. Maria de Lurdes Vieira não o conheceu como bispo, mas sim como Jorge Bergoglio, o padre com quem percorria os bairros em guerra. Quando lhe notou um espírito mais franciscano do que jesuíta, Jorge Bergoglio conteve-se: “Mi hija, no digas eso.” Era um tempo em que tudo servia de pretexto para censurar quem tentasse ajudar.

Chegar à Argentina não foi um acidente. Depois de oito anos nas Irmãs Franciscanas, em Coimbra, e de um estágio em ação social, na Madeira, o espírito irrequieto pediu mais. Com a avó paterna emigrada na Argentina, Maria de Lurdes Vieira decidiu seguir-lhe os passos. A bordo do Eugénio C., “um barco todo XPTO”, desembarcou num país que “não precisa de semear para tudo nascer”. 

Mas a Argentina que encontrou sangrava. Com o Estado de Sítio ainda fresco, Maria de Lurdes chorava – recorda – “baba e ranho para vir embora. Era guerra por todo o lado”. Da janela da sua vivenda espreitava a destruição, mas encontrou esperança na casa em frente à sua. Foi a pediatra italiana Liliana e o ginecologista boliviano Nelson – vizinhos que se tornaram família – quem a manteve de pé. Quando Nelson avisou que “iam rebentar com tudo no bairro”, Liliana largou o biberão da filha e, juntamente com Maria de Lurdes, arregaçaram as mangas. “Quando ardia tudo, íamos buscar as crianças estropiadas para adoção. Começámos a acolhê-las.”

O clima de guerra atirou Maria de Lurdes Vieira para os braços do seu futuro marido: Gaspar, um português que, anos antes, também vislumbrou na América do Sul uma perspetiva de futuro. Filhos da mesma terra natal, encontraram-se onde menos esperavam: longe de casa, num país em chamas. Maria de Lurdes via no casamento uma fuga da guerra, uma forma de regressar a Portugal – não de mãos a abanar, mas com uma direção. De volta a casa, a vocação confirmou-se: queria dedicar-se por inteiro ao serviço social. Alugou um segundo andar em Cascais e uma loja perto de casa, pronta para pôr mãos à obra. Na sua cabeça, pairava já a pergunta: ‘Por onde é que eu vou começar?’

Os meandros da droga

No Laranjinha, o espaço de convívio do bairro, serviam-se cafés cheios aos adultos e os mais jovens imploravam, divertidos, por uma colher de cafeína. O pretexto era ganhar mais energia para passar o resto da tarde a jogar à bola, até se ouvir o apito da varanda do terceiro andar: ‘Vem jantar!’

Zé Abílio era um desses rapazes. Era vizinho de Maria de Lurdes, até começar a passar mais tempo na rua do que em casa. “Em 1980, foi a loucura total com a droga”. Mais graúdo, Zé Abílio voltaria às tardes de convívio no Laranjinha, mas o que consumia não era só café.

Atenta à comunidade, Maria de Lurdes viu nos miúdos do bairro um começo natural. “Se eu arranjasse emprego aos rapazes que se metiam na droga, eles tinham alta da cadeia. O último emprego que arranjei ao Zé Abílio foi na Quinta da Bicuda, num talho”, recorda. Entre tentativas e recaídas, Zé Abílio não conseguiu aproveitar a oportunidade. “Um dia até me assaltou a mala, mas só levou dinheiro. Deixou o bilhete de identidade, deixou tudo para a polícia encontrar. Eu sei que foi ele. Precisava de se injetar, injetava-se em todo o lado”, conta Maria de Lurdes Vieira. Só deixaria de vez o seu primeiro projeto depois da morte de Zé Abílio. “Têm as ajudas todas, mas a droga é mais forte. Eu sabia quem eram os dealers. Não tinha medo de ir ao bairro das Marianas, a outro lado qualquer. Nunca ninguém me tocou com um dedo. Têm de apanhar os dealers.

Quando o projeto que imaginava para a sua comunidade não resultou como pretendia, o caminho a seguir parecia evidente: “Agora, vou para aqueles que me marcaram quando eu era miúda.”

Maria de Lurdes Vieira e o anterior presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, após a inauguração do novo complexo do CRID, em 2020

A improvisar se vai longe

No Pai do Vento, em Cascais, havia um terreno modesto e uma porta sempre aberta. Os pais batiam-lhe à porta à chegada da manhã, antes de seguirem para o trabalho em Lisboa. Não tinham onde deixar os filhos com deficiência. O sistema também não tinha resposta. Então, Maria de Lurdes improvisou. “Levávamos as marmitas, não tínhamos nem micro-ondas nem nada. Ninguém nos pagava, estávamos três ou quatro ali a apoiar os miúdos”, recorda. 

Desse improviso nasceu o Centro de Reabilitação e Integração de Deficientes (CRID). “Fundei o CRID, com estatutos e tudo, há 30 anos”. Feliz por ter construído algo do nada, Maria de Lurdes Vieira orgulha-se dos 20 auxiliares que conseguiu somar à sua equipa. Mas louvar o altruísmo não a impede de reconhecer que “para trabalhar nestas áreas tem de haver vocação, tem de se saber vestir a camisola. As Instituições Particulares de Solidariedade Social pagam muito mal, porque vivem do que o Estado dá, igual para todos”. 

A margem de manobra é curta – sempre foi. Mas a teimosia de Maria de Lurdes suplantou a falta de recursos. Em 2019 e, numa segunda fase, em 2020, com o apoio da Câmara de Cascais, o CRIA inaugurou mais um complexo social, com um lar com capacidade para 48 camas e um centro para receber diariamente 288 utentes com deficiência.

Heróis que vestem bata

O trabalho social é uma luta constante. Com 80 anos, Maria de Lurdes é a primeira a chegar e a última a sair do CRID. Não o faz por obrigação, mas sim por vício. “Já não consigo viver sem isto”, admite, sem que se note arrependimento na voz. 

Dentro deste mundo, a realidade não perdoa: cada vez menos mãos para cada vez mais gente. “A minha equipa está a lavar rabos noite e dia, faz turnos também. Depois, têm apenas dois dias de descanso. Trabalhar no social é tarefa de heróis, porque isto não é para qualquer um.”

A loucura de quem se dedica ao serviço social tem um propósito claro: que mais nenhuma Maria e nenhum Manuel sinta a solidão do galinheiro. “Nós viemos de um país que era muito atrasado. As pessoas com deficiências eram eliminadas. Eram vistas como inúteis, como parasitas da sociedade. E têm um sexto sentido que as pessoas nem imaginam. As pessoas com deficiência são de uma inteligência enorme.” É este sexto sentido que o projeto Palco Iluminado tenta dar a conhecer. No palco, os utentes do CRID comunicam através da mímica, sem palavras, porque a clareza está nos gestos. 

O corpo idoso teima em abrandar, mas a cabeça prefere não ouvir. Antes das tréguas, há um último projeto a concretizar: um espaço para os casos que o CRID não consegue acompanhar. “O César tinha 16 anos, partia televisões, fazia de tudo. Estes miúdos, que estão em casa, que estão fechados, têm de estar num sítio próprio, que é o que quero criar agora com o Orçamento Participativo.”

Maria de Lurdes nunca foi de condizer com os velhos do Restelo. “A juventude é muito generosa. Digo a todos: quem leva isto para a frente são os jovens”. 

O Manuel e a Maria de hoje já não estão no galinheiro. Dentro do CRID há luz, barulho e vida. “As pessoas com deficiência têm tanta capacidade como as outras. Dêem-lhes a oportunidade”, apela. Enquanto a artrite o permitir, vai continuar a exigi-la.