A descoberta da viagem

As primeiras vezes conseguem ter, quase sempre, alguma coisa de intimidante. O primeiro dia de aulas, a primeira ida ao dentista, a primeira vez ao volante…e agora acrescento à lista a primeira vez que viajei para fora das fronteiras de Portugal.

Dias antes da viagem, cumpri o cliché de fingir que estava muito tranquila, mas, na verdade, revia todos os documentos de cinco em cinco minutos até ao momento de entrar no avião. Quando me sentei no meu lugar, à janela, olhei para a pista e o clássico friozinho da barriga intensificou-se. Minutos depois, sinto o avião acelerar, as rodas a deixarem o chão e penso “agora já não há como voltar atrás”.

A viagem aconteceu no início deste ano, aos Países Baixos, e há uma memória específica que ainda hoje me provoca arrepios: olhar pela janela do avião e ver, lá em baixo, um país inteiro iluminado. Até hoje não sei dizer que terras estava a ver naquele momento, no entanto, recordo-me perfeitamente daquela imensidão escura rasgada por milhares de luzes. Os candeeiros desenhavam cidades inteiras no meio da noite, como se alguém tivesse espalhado estrelas pela terra. Foi aí que senti verdadeiramente a distância a que estava a ficar de casa.

Chegámos a Amesterdão já de noite e acredito que isso tenha mudado por completo a primeira impressão com que fiquei da cidade. Já passava pouco da meia-noite quando descobrimos que só tínhamos comboio para Leeuwarden, o nosso destino final, às cinco da manhã. Como consequência, eu e os três amigos que me acompanhavam acabámos por passar as restantes horas numa espécie de limbo entre a estação, as ruas da capital e a garagem que, a partir das três da manhã, nos acolheu até ao amanhecer.

A cidade parecia a de um cenário húmido e silencioso de um filme antigo, onde os prédios estreitos de tijolo, encostados uns aos outros e ligeiramente inclinados sobre os canais do rio pareciam como os velhotes curiosos a espreitar a rua.

Eram duas da manhã e já tínhamos percorrido grande parte da cidade e, devido ao horário, todas as lojas estavam fechadas, as ruas desertas. Amesterdão estava praticamente adormecida, exceto um ponto turístico: as famosas Red Light Streets.

Posso dizer que esta foi, provavelmente, a parte da viagem de que menos gostei. O ambiente era desconfortável. Além das mulheres que estavam atrás de um vidro iluminado, eu era a única rapariga naquela rua, o que me fez sentir imediatamente pequena demais. Sempre ouvi dizer que há cidades que nos abraçam assim que pisamos nelas, mas, naquela noite, Amesterdão não o fez.

A ideia dos Países Baixos como um “país seguro” acabou por não corresponder à experiência vivida naquela madrugada. Eu e o meu grupo fomos abordados várias vezes na rua, desde pedidos de dinheiro a interações desconfortáveis com pessoas claramente alteradas. Não foi nada grave, mas bastou para desmontar a ideia ingénua que tinha criado na minha cabeça sobre a minha primeira viagem internacional.

Ainda assim, no meio daquele caos noturno, houve detalhes impossíveis de ignorar. A organização da cidade, em comparação a Portugal, impressionava a cada esquina. Aqui, uma passadeira mais movimentada é o suficiente para começarem as buzinas e a impaciência. Lá, tudo parecia funcionar numa harmonia improvável entre bicicletas, elétricos, carros e pessoas. A cidade movia-se num ritmo próprio, como se toda a gente soubesse exatamente o seu lugar.

A noite custou a passar. O frio, o sono e a sensação constante de estar fora da minha zona de conforto faziam com que o relógio parecesse parado. Aquela madrugada foi, no fundo, o início oficial da minha versão viajante. Às cinco da manhã, como previsto, apanhamos o comboio para Leeuwarden, deixando a capital para trás e, nesse momento, comecei a apaixonar-me pela viagem.

Só a simples chegada do comboio já parecia fascinante. Tudo chegava a horas, nem “cinco minutinhos de atraso”, nem um pedido de desculpas automático pelo altifalante. As pessoas respeitavam os espaços umas das outras, como por exemplo as cabines de silêncio nos transportes.

Três longas horas passaram, recuperei o sono perdido da noite anterior e quando acordei entrei num verdadeiro postal de inverno. Leeuwarden, situada no norte do país, era uma cidade calma e bonita na sua simplicidade. Os lagos congelados davam uma sensação irreal à paisagem, as bicicletas estavam estacionadas em todo o lado, junto aos canais, encostadas às pontes, presas aos postes e, mesmo com o frio intenso, que atravessava as camadas de roupa sem pedir licença, tudo funcionava com naturalidade.

Na cidade, havia dois mercadinhos locais cheios de música, tradições e pessoas embrulhadas em cachecóis gigantes. Apesar de ser pequena, havia vida naquelas ruas com uma energia tranquila e acolhedora, muito diferente da confusão cansativa de uma cidade grande.

Em relação à comida, depois de provar as famosas batatas fritas holandesas, bastou as primeiras horas para perceber uma verdade universal: ninguém ultrapassa os portugueses na comida. No tempero ou no sabor da comida que sabe a “supermercado”, faltava sempre aquele amor e cuidado que só a gastronomia portuguesa tem.

Mas se a comida me fez sentir saudades de casa, então houve pequenos detalhes do quotidiano daquelas pessoas que me levaram admirar ainda mais o país. Na última manhã, olhei pela janela da casa onde ficámos e vi uma turma de miúdos, talvez com os seus 12 anos, a andarem de bicicleta atrás da professora sem pais, sem alguém a controlá-las constantemente. Eles simplesmente seguiram em fila, tranquilos e felizes. E lembro-me de pensar que, em Portugal, a mesma ação provavelmente acabava com uma criança perdida, antes do final da rua.

Nenhuma viagem fica completa sem episódios para contar, e para primeiro cromo da minha coleção, as personagens principais são as minhas botas.

Comprei-as, duas semanas antes de viajar, por causa do frio, e estava convencida de que eram confortáveis…não eram. Ao fim do primeiro dia, as botas verde-tropa já me tinham destruído os pés ao ponto de ficar em carne viva. Como o universo adora criar histórias engraçadas, a solução foi passar os dois dos três dias da viagem a usar uns sapatos tamanho 43 emprestados por um homem. Não era exatamente o estilo europeu elegante que tinha imaginado para mim, mas pelo menos conseguia andar sem sofrer.

Antes de voltar para Portugal, ainda passei por Roterdão, uma surpresa inesperada de que ninguém nos fala o suficiente. Enquanto Leeuwarden me dava paz e Amesterdão me deixava constantemente alerta, Roterdão fez-me sentir viva. Era impossível olhar à volta e não sentir energia naquela cidade.

No fim desta primeira aventura, percebi que viajar pela primeira vez não tem de ser perfeito para ser inesquecível. Aliás, talvez sejam precisamente os momentos desconfortáveis, os imprevistos e as expectativas falhadas que tornam uma viagem tão nossa. Ainda quero voltar a Amesterdão, de dia, com outra energia, porque sei que, tal como nós, as cidades também merecem uma segunda oportunidade.