Cortiça: Como proteger o “ouro português” do plástico?

Não será de espantar se, num destes dias, ao abrir uma garrafa de vinho, em vez de uma rolha em cortiça, sair uma de plástico. A prática tem vindo a ser cada vez mais frequente e a culpa, dizem as associações que defendem o setor, é do preço e do desconhecimento da matéria-prima. Do artesanato às tão famosas rolhas de cortiça, é cada vez mais frequente encontrar imitações, quase todas de plástico. É um grito de revolta que não chega nem às autoridades fiscalizadoras, nem ao Governo

Na rua íngreme que vai até à Catedral de Évora, multiplicam-se as lojas de souvenirs. Num espaço de 150 metros, conta-se pelo menos 20. Do lado de fora, os artigos amontoam-se e concorrem entre si. São, na maioria, confecionados de cortiça ou, pelo menos, foi essa a ideia com que ficamos ao manusearmos uma das carteiras à venda. O lojista olha com desconfiança quando se pergunta se é original ou imitação. Mal se ouve a resposta. Fomos encontrá-la uns metros acima, na loja O Cesto.

Antónia Casas Novas é a proprietária. Com um sorriso espontâneo, começa por partilhar a autenticidade dos produtos que comercializa: “Tudo o que temos aqui é cortiça.” Antónia Casas Novas tem a loja desde 1983. “Toda a vida foi dedicada ao artesanato”, diz. Mas o passar do tempo trouxe desilusão ao negócio e descaracterizou a rua. “Parece mentira, como é que em plena Rua 5 de Outubro, numa cidade que vai ser Capital Europeia da Cultura, em 2027, deixam vir tanta coisa da China”, desabafa, indignada. “A maior parte da cortiça que há na rua é chinesa. Aquilo não é cortiça; é plástico. Só que as pessoas não sabem.”

Na Rua 5 de Outubro, uma das artérias principais de Évora, produtos genuínos de cortiça são vendidos lado a lado com imitações made in China

A lojista só se deu conta de que havia imitações, quando os clientes lhe diziam que, mais abaixo, num outro espaço comercial, encontraram uma mala idêntica, mas a um preço inferior. “Um dia, fomos lá e compramos um saco para ver a diferença”, conta. Na loja, Antónia Casas Novas vende por 40 euros, na outra compra-o por 15. “E agora nós usamos a imitação para mostrar às pessoas que estão a ser enganadas.”

“As pessoas deviam tratar a cortiça como o ouro português e não o fazem.”

Patrícia Figueiredo, empresária

Patrícia Figueiredo partilha das preocupações da mãe. Gere, com a irmã, O Cesto, que tem uma forte presença nas redes sociais. “Se não fossem as vendas fora da loja física, não sei se continuaria com o negócio”, adianta. A empresária tem esclarecido o consumidor sobre as diferenças entre um produto feito com cortiça de uma imitação, mas reconhece que, na altura da compra, o preço fala mais alto. “Muitas vezes, o consumidor tem falta de poder económico, compram aquilo que é possível comprar. E chegam a uma loja como a nossa e pensam: ‘estás com essa conversa toda, mas o teu produto é mais caro”. O resultado da compra vem mais tarde, assegura: “Usar uma mala há oito anos é diferente de usar uma feita com outro produto qualquer e só a utilizar durante seis meses ou um ano. A cortiça tem propriedades como a impermeabilização e a plasticidade, que o outro produto não tem.”

Falta de fiscalização, sobretudo nos produtos que chegam ao país, é a razão apontada por Patrícia Figueiredo para que a situação se alastre e perpetue: “Entra muito lixo em Portugal que não é certificado.” E porque tudo se reflete no valor do preço final do produto, a gestora de O Cesto já fez as contas. “Imagine que um empresário chinês põe um contentor com malas para vir para Portugal, cada uma a um custo de dois euros. Obviamente, uma mala que sai num contentor da China por dois euros, quando chega a Portugal é vendida por 30. E uma mala nossa por 90. E quem é que ganha mais com a margem? São eles. Nós só conseguimos tirar dez por cento de lucro. Isto depois implica nos custos das empresas. Até porque eles têm facilidade de alugar espaços muito mais baratos do que nós. O custo de produção e de material é mínimo. E temos um custo de material gigante, porque a cortiça é caríssima. É o nosso ouro. As pessoas deviam tratar a cortiça como o ouro português e não o fazem.”

Rui Rodrigues viu-se obrigado a se coletar nas Finanças para ser artesão. E mesmo certificado pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) na arte de trabalhar cortiça não se livra de fiscalizações da Autoridade de Saúde Alimentar e Económica (ASAE). “Aconteceu numa feira de artesanato, os agentes viram apenas se eu tinha os preços fixados, a carta de artesão correspondente ao que estava a fazer e se estavam visíveis ao público”, recorda.

“As peças feitas com cortiça custam, no mínimo, duas ou três vezes acima do preço das outras.”

Rui Rodrigues, artesão
Rui Rodrigues na oficina, em casa, na Lourosa

O artesão, que tem o atelier em Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, soma perto de 270 peças criadas à mão e é o preço que dita a qualidade: “As peças feitas com cortiça custam, no mínimo, duas ou três vezes acima do preço das outras. O tempo que demoramos a fazer uma peça é maior.” Por isso, para este artesão, as lojas de produtos asiáticos não são “uma concorrência”, pior são as grandes produções industriais. “Hoje em dia, fazem-se vedantes sintéticos com o aspeto da cortiça. Ou seja, fazem rolhas que são plástico. A pessoa quando compra uma garrafa de vinho deveria estar identificado que tipo de vedante essa garrafa tem. Já me aconteceu comprar um vinho francês e vinha com um de plástico.”

Mercado vai exigir certificação

As palavras de Rui Rodrigues são familiares a Joana Faria, secretária-executiva da Forest Stewarship Council Portugal. “Até há muito pouco tempo, países da Ásia-Pacífico tinham uma preferência pelo plástico ou pela rosca. É preocupante porque existem consumidores que pensam que estão a comprar uma coisa e não é assim”, desabafa.

Joana Faria é o rosto desta organização sem fins-lucrativos, de âmbito internacional, que se dedica à promoção de uma “gestão florestal ambientalmente adequada, socialmente benéfica e economicamente viável”. A especialista explica que a FSC está a fazer um trabalho junto dos produtores de vinhos do Alentejo, do Chile e Argentina no sentido de lhes “fazer entender que devem apostar em materiais de cortiça e de cortiça certificada para se garantir a manutenção da gestão destas áreas”. Até porque, como reforça Joana Faria, “garantir a certificação é um primeiro caminho a seguir”.

Joana Farias é a representante da Forest Stewardship Council Portugal (FSC), que se dedica à promoção de uma gestão sustentável das florestas

Neste momento, Portugal tem o maior número de empresas certificadas, ou seja, 47. No entanto, a gestora diz que tem de haver mudanças na forma como se olha para a autentificação de qualidade. “Enquanto em Portugal a certificação serve de diferenciação, ou até mesmo de oportunidade no mercado, noutros países é diferente: ou estou certificado ou nem sequer tenho espaço para ficar no mercado. Tudo caminha para que a certificação continue a ser voluntária, mas o próprio mercado vai exigir e não haverá espaço para outras empresas que não tenham estas certificações.”

“Temos pessoas que acham que as rolhas nascem nas árvores.”

Cláudia Pimenta, diretora-geral APCOR

A Associação Portuguesa de Cortiça (APCOR) é o único organismo que representa a indústria. Cláudia Pimenta, diretora-geral, sublinha que a cortiça “é uma matéria que ainda tem de ser explicada no exterior”. Há 20 anos que a APCOR tem ido aos mercados externos para dar a conhecer as potencialidades da cortiça, para que os interessados possam criar aplicações ao produto.

Mas há outras estratégias adotadas para tornar a cortiça mais mediática. Uma delas foi a divulgação, em 2022, de um vídeo, protagonizado por Sarah Oakson. Durante quatro minutos e 15 segundos, a especialista mundial em cortiça recorre ao humor, para demonstrar que a cortiça é o futuro. “Ainda hoje, temos pessoas que acham que as rolhas nascem nas árvores como as peras e as maçãs. Isto acontece com muita frequência”, constata.

A APCOR também reconhece que existem empresas, sobretudo as internacionais, que utilizam vedantes de plástico. O trabalho da Associação Portuguesa de Cortiça é contrariar esta prática, ou seja, “mostrar aquilo que é a cortiça, qual é o valor, quais as características para que o consumidor consiga perceber e possa tomar uma decisão consciente.” Até porque – defende a diretora-geral da APCOR – “consumidores informados ajudam a valorizar o produto”.

O caminho não é fácil e são as associações que se põem no terreno e desenvolvem estratégias para proteger a cortiça, através de vídeos educativos destinados ao público juvenil, e não só. “Existe a confederação que agrega as associações industriais dos vários países europeus que produzem cortiça: Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha e criou uma marca, o Cork Mark. É usado por algumas empresas (do setor do vinho e de material de construção) em que, para a sua utilização, têm de garantir que aquele produto é feito com uma percentagem superior a 50 por cento de cortiça.”

Um milhão de sobreiros

No trabalho de valorização do setor da cortiça, o consumidor tem um papel ativo. É por isso que em 2008, a QUERCUS, em parceria com a corticeira AMORIM, abraçou o projeto Green Cork. Nasceu com o objetivo de tornar a cortiça um material reciclável, envolvendo escolas, agrupamentos de escuteiros e outras coletividades. Além de promover a recolha de rolhas de cortiça, foram abertas candidaturas para que empresas com terrenos públicos pudessem fazer plantação de árvores. Em 17 anos, já foram plantadas 1 milhão e 659 mil, de 67 espécies, cerca de 100 mil eram sobreiros. Foram recolhidas 117 milhões, 573 mil 275 rolhas.

Pedro Nunes Sousa, gestor do projeto da QUERCUS, admite que já pode falar em resultados. “Em 2008, não era assim, a cortiça não era valorizada; era entendida como um material qualquer”, a exemplo do plástico e do alumínio. “Além de serem matérias-primas que retiram recursos naturais aos ecossistemas, também são muito mais agressivas em termos de produção. As emissões inerentes à produção de rolhas de plástico ou de alumínio é exponencialmente superior à produção das rolhas de cortiça. E para além disso, ao tornarmos a produção de rolha num material reciclável, estamos a promover a retenção de dióxido de carbono (CO2) que existe na cortiça e ao torná-la reciclável vamos continuar a reter o carbono que nela existe”, explica. Pedro Nunes Sousa denuncia o vazio legal existente no país: “Não há legislação e não há controle da ASAE. É preciso criar legislação e pôr as entidades competentes, neste caso a ASAE, a atuar e combater um pouco esse tipo de situações que enganam os consumidores”, defende.

Pedro Nunes Sousa encara o futuro com otimismo. Diz que o setor corticeiro evoluiu muito e adaptou-se às novas tendências de mercado. “O caso dos vedantes de alumínio era imbatível, porque consegue-se abrir à mão, não precisa de um saca-rolhas. Mas, neste momento, já existem rolhas em cortiça que também se podem abrir à mão e sem usar o saca-rolhas.”

Na falta de medidas, a QUERCUS diz que não se pode baixar os braços e aguardar ação governativa. O caminho é o de continuar a preservar o montado dos sobreiros porque “é um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade do continente europeu”. Este organismo estima que, só em Portugal, a cortiça seja responsável por absorver, por ano, 4,8 milhões de toneladas de CO2, um dos principais gases causadores do efeito estufa e do consequente aquecimento global. “Para além de estarmos a promover a absorção de mais carbono nos próprios povoamentos onde a casca é retirada aos sobreiros, o que vai acontecer é que os sobreiros vão buscar carbono à atmosfera para criar nova casca”, concluiu.

De volta a Évora, e à loja de artesanato O Cesto, Antónia Casas Novas também já se conformou com o estado em que está a proteção da cortiça. Só lhe resta continuar a seguir com o negócio familiar. Promete fidelidade à cortiça e honestidade aos clientes, de quem, por vezes, recebe elogios inesperados. “Ontem, entrou uma senhora e disse-me: ‘Até que enfim que eu encontrei uma loja ao nível das do Chiado”. E eu fiquei toda orgulhosa”, partilha, a sorrir.