Somos todas meninos 

O ramo da minha figueira que abanava por psicologia não se partiu quando o resultado da candidatura ao ensino superior não concordou com o planeado. Os convívios diários no terraço da minha segunda opção assistem-me a analisar internamente as relações interpessoais que estabeleço com os meus amigos. Passo nos corredores, agora recheados de figurantes diferentes, habituada às miragens daqueles que deixei no secundário.

Desconhecendo o meu passado, os novos amigos disputam-me com uma faca afiadíssima nos dois gumes: se, por um lado, a ausência de um Antes de Eva (A.E.)  isenta as minhas reações/ações diárias do seu mais pesado julgamento, por outro, abre portas a que as suas mentes mobilem a gosto as lacunas do desconhecimento, podendo julgar-me um ser imutável, desde sempre semelhante ao atual. Para eles, só passei a “ser” a partir do agora. Ou melhor, de setembro. Para os decretos que elaboram, pouco importa a minha parca história, os estímulos que recebi, as debilidades que herdei – tudo aquilo que me formou, o A.E.

O cheiro a galão imiscuído no fumo dos cigarros abraça a atmosfera académica. Este é o cenário onde agora me desenvolvo. Para a Eva de psicologia, que ficou encantada algures no purgatório dantesco, talvez fosse outra coisa. Foco-me agora em discursos jornalísticos, imersa em burocracia cultural e profundamente atolada pelo estado das coisas – ou por coisas de Estado, dependendo do dia. Ainda que o meu foco seja outro, não me consegui desprender do fascínio pelas ramificações venosas que são as interações humanas, as que bombeiam a nossa comunidade.

O curso de Jornalismo dotou-me de conhecimento sobre a comunicação humana que talvez a psicologia não me trouxesse. Reconheço que negligenciei as aulas de Comunicação e Linguagem, seduzida pelos pastéis de nata do bar que me compravam (algum) tempo livre. No entanto, aquelas em que efetivamente me empenhei – e que me garantiram a positiva na disciplina – sedimentaram a base teórica para as hipóteses empíricas que coloco sobre a interpessoalidade. 

As relações comunicacionais são compostas por lugares passíveis de apropriação. O mais claro exemplo é a valsa que agora dançamos. Decidi deliberadamente ocupar o lugar dominante – o da fala – e instituir-me como emissora de uma mensagem. O mais fascinante é que esta postura ativa postula no outro, ainda que implicitamente, o papel passivo de recetor. E assim domino os passos de dança, caro leitor. 

Esta lógica pode ser ludibriada, um buraquinho no interpessoal que concede à passividade algum poder, algum domínio: ao assumir uma postura defensiva perante um predicado, o sujeito projeta no outro o ataque, o papel ofensivo – mesmo que esse lugar não seja ocupado intencionalmente. 

Com isto pretendo mostrar que a vida não se pinta só com preto e branco. É, aliás, nas suas nuances que se podem esconder os maiores atentados. Devemos saber destapá-los e tomar as rédeas novamente. A pretexto de não fazer extrapolações descontextualizadas, vou contar-vos o início do meu interesse por questões de género.

A Joaninha, de Thierry Lenain, fascinou-me a pronto. A noção vincada de diferença entre o masculino e feminino. Sermos sem-pilinha e, por isso, automaticamente o elo mais fraco. O autor explora as subtilezas do patriarcado com tons acriançados, a leitura mais aprazível no ápice dos meus cinco anos. Mas a força igualitária que moveu Lenain a pensar na Será que a Joaninha tem Pilinha? só lhe garantiu um final moralmente suficiente. A pilinha, e tudo o que é capaz de comportar, continua a ser apanágio dos meninos. 

Já na altura era capaz de a identificar em muitas ocasiões. O plural, que abarque mulheres e homens, foi provavelmente o mais óbvio. Fui incapaz de encontrar um motivo que atribuísse ao plural o cromossoma Y. Costumamos ser cinco raparigas no meu grupo de amigas, mas basta juntar-se o Rodrigo para passarmos a “amigos”. Atenção, gosto muito do meu melhor amigo, mas não deixo de invejar a sua capacidade de fazer vergar o plural – mesmo que em desvantagem, ao lado de cinco sem-pilinhas. Não se iludam, meninas: somos todas meninos por adjacência. 

Estou ciente de que “é apenas uma convenção”, mas menosprezar o seu poder sempre foi o tendão de Aquiles da raça humana. São as nuances de que há pouco falava, as engrenagens que movem a máquina da banalidade inquestionável característica da civilização como a conhecemos – essa, intrinsecamente bajuladora dos com-pilinha. E porquê?

As pretensões universalizantes do masculino não se restringem aos limites da língua. É omnipresente e, por isso, criou-se um Deus à semelhança do homem – e não da mulher. A interpretante suplente desse papel é a Mãe Natureza, menosprezada, vulnerável e fraca, tal como a Joaninha. Os homens prestam-se a suplantar a sua força por meio da destruição implacável. Preferem apoteosar um Deus hipotético a nutrir e cuidar de uma tangibilidade feminina. 

Isto leva-me a questionar a ambição que desde sempre moveu os homens a dominar, começando pela massa eurasiática em que cresceram. Se os continentes tivessem nascido barões, e não as Europa, Ásia ou América, dedicar-se-iam os homens tão afincadamente a desflorá-los? Ou converter-se-ia a sua vastidão em imponência e não em um convite à curiosidade alheia? Curiosamente, só se admitem estas questões nos quadros de sentido do único planeta feminino do sistema solar. 

Compadeço-me da Terra, a Mãe que me fez mulher, por comportar uma História claramente desvantajosa para as rosas que dela brotaram. Incólume, assistiu ao fio da bajulação do masculino bordar os sistemas dorsais da sociedade. Abrigada no chapéu das relações interpessoais, esta questão requer um olhar mais atento: tornar o masculino apetecível atribui um carácter “repelível” no feminino. Será rebuscado pensar desta forma? Há quem diga que sim – acredito que se deva ao facto de ser algo tão sedimentado na estrutura da nossa sociedade que acontece inconscientemente. É o nosso dever não subestimar o seu poder.