A religião dos concertos

Recentemente, troquei o meu habitual papel de fanática por festivais pela credencial de imprensa no Coala Festival, em Cascais. A meio do concerto do Caetano Veloso, enquanto tentava manter a postura profissional, dei por mim a refletir e cheguei a uma conclusão (ou melhor, a duas): os concertos são um dos maiores paradoxos da civilização moderna.

À primeira vista, o conceito parece simples: um grupo de pessoas compra bilhetes para ouvir um cantor cuja arte admira. Nada de extraordinário. Mas basta assistir aos primeiros dez minutos (ou segundos) de qualquer concerto para perceber que talvez não tenha apenas a ver com a admiração pela arte.

Uma pessoa paga 80 euros para ouvir um cantor, uma banda, um artista. Às vezes, 120. Começa, então, o percurso até ao concerto. Durante meses, ouvimos as músicas em casa, no carro, nos auscultadores, enquanto cozinhamos ou fingimos trabalhar. Decoramos as letras, aprendemos as pausas e os refrões. Chega o chamado “dia D” e é uma euforia total. Chegamos ao recinto, após termos demorado uma hora para entrar, prontos para esperarmos mais três horas em frente ao palco.

Levamos com o calor de uma pequena estufa tropical e, quando finalmente o artista entra em palco e aproxima o microfone da boca, começamos imediatamente a cantar mais alto do que ele. E ninguém o ouve. O artista canta duas palavras. O público canta as cinquenta seguintes. É compreensível, claro. O cantor cria as músicas, o público gosta tanto delas que não resiste a cantá-las também. Aliás, poucos elogios serão maiores para um músico do que ver milhares de pessoas a saberem as suas letras de cor.

Ainda assim, a situação não deixa de ter graça: passamos meses a admirar alguém pela sua capacidade de cantar e, quando finalmente o temos à nossa frente, fazemos tudo o que podemos para desempenhar nós mesmos essa função. É como contratar um canalizador e, mal ele chega, arrancar-lhe a chave inglesa das mãos para lhe mostrar como se faz; ou entrar na sala de operações e dizer ao cirurgião: “Não se preocupe, doutor, eu faço esta parte!”. Num concerto, acabamos por assistir a um espetáculo que transformamos numa sessão coletiva de karaoke.

Gostava também de tocar num segundo ponto: a transformação do artista numa divindade temporária. Durante o ano, sabemos que ele é um humano normal que perde as chaves de casa, se esquece de responder a mensagens e deixa a loiça por lavar. Mas ali, no palco, ele está no seu ponto mais alto. As luzes apontam para ele como se fossem raios celestiais. Para olharmos para ele, temos de inclinar a cabeça para cima, como quem olha para o céu quando reza a Deus. Se disser “Boa noite!” ou “Obrigado”, a multidão berra. Se respirar, há quase desmaios no público. Se pedir para bater palmas, bate-se palmas. Se mandar saltar, salta-se. Se resolvesse mandar o público atirar-se de uma ponte, a única dúvida seria se valeria mais a pena ir para a 25 de Abril ou a Vasco da Gama.

E cá em baixo está o povo. Milhares de pessoas encafuadas num nível de proximidade física que só seria aceitável num elevador avariado no Centro Comercial Colombo, em dia de jogo do Benfica. O suor perde completamente a identidade. Ao fim de uma hora, ninguém consegue afirmar com segurança qual a percentagem de transpiração que lhe pertence. E mesmo assim, ninguém parece incomodado.

Pelo contrário. Quanto maior o desconforto, mais autêntica parece a experiência. Há quem passe horas ao sol para ficar encostado à grade. Há quem sobreviva apenas com uma garrafa de água e uma fé inabalável. Há quem regresse a casa sem voz, sem energia e sem qualquer sensibilidade nas pernas. E ainda assim, proclamam que foi uma das melhores noites da sua vida. E talvez tenha sido. Porque, no fundo, um concerto nunca foi realmente sobre ouvir música. Se fosse, a melhor opção seria ficar em casa com bons auscultadores, uma cadeira confortável e a garantia de que ninguém nos pisaria os pés.

Um concerto é outra coisa. É quase um ritual coletivo. Um lugar onde aceitamos, por vontade própria, perder conforto, espaço e até um pouco de dignidade em troca de pertencermos a algo maior por umas horas. É das únicas ocasiões em que não nos importamos de levar com o cabelo da pessoa da frente na cara. Afinal, não é todos os dias que uma multidão paga para trabalhar como um coro, sofrer como peregrina e suar como atleta olímpica.