Livro: A eternidade do mundo em papel

O livro tem demonstrado uma notável capacidade de resistência ao longo da História. Da argila ao ecrã, este objeto cultural atravessou civilizações, reinventou formatos e adaptou-se a diferentes contextos sociais. Em "O Infinito num Junco", Irene Vallejo propõe uma viagem pela história do objeto que, multiplicado por todos os livros da humanidade, se transforma no arquivo da memória do mundo

Num contexto marcado pela digitalização e pela multiplicação de suportes de leitura, a coexistência entre o livro impresso e as novas formas digitais levanta questões sobre o futuro da leitura, da memória e do acesso à informação. Longe de representar uma rutura, esta evolução evidencia antes um processo contínuo de adaptação, em que o livro permanece no centro das dinâmicas culturais, ainda que em permanente transformação.

Na obra O Infinito num Junco, Irene Vallejo criou uma narrativa composta por um ensaio, elementos históricos e uma introspeção para apresentar os livros como objetos frágeis, mas capazes de atravessar longos períodos históricos. A autora transmite instantaneamente a impressão de que a história dos livros é, no fundo, a história da luta contra o esquecimento. Os primeiros suportes de escrita, como a argila, o papiro – feito a partir de uma planta do Nilo – e, mais tarde, o pergaminho surgem como soluções para essa preocupação. O papiro permitiu criar rolos que facilitavam a circulação de textos no Egito, mas noutras regiões foram também aplicadas outras formas de registar as palavras.

Em “A Grécia Imagina o Futuro”, a primeira parte do livro da escritora e filósofa espanhola, o acesso às cópias manuscritas que estavam em circulação era limitado. Neste contexto, os gregos conseguem criar as bases da tradição literária ocidental e estabelecem o valor intelectual do livro. A influência da literatura grega expande-se também ao contexto político e pessoal. Alexandre, o Grande é uma das figuras que demonstra como os textos têm a capacidade de moldar mentalidades e ações, o que o faz acreditar que a leitura pode contribuir para a construção da identidade.

À medida que o número de textos aumentava, nasceu o desejo de reunir todo o conhecimento. Assim surge a Biblioteca de Alexandria, um dos projetos mais ambiciosos da Antiguidade, fundada pelos sucessores de Alexandre, o Grande, especialmente Ptolomeu I, e tem um grande destaque na obra por ser apresentada como o maior símbolo da ambição humana de preservar e organizar o conhecimento: “A Grande Biblioteca adquiria tudo, de poemas épicos a livros de cozinha”.

Cada exemplar que constava na Biblioteca era copiado à mão pelos escribas, o que tornava o processo lento e sujeito a erros. A autora destaca que os livros que foram fornecidos aos escribas são o resultado do esforço acumulado de muitas pessoas anónimas, visto que muitos foram furtados, e não apenas dos autores que os escreveram.

Em “Os Caminhos de Roma”, a segunda parte da obra, o “livro” entra numa nova fase. A organização e dimensão do Império Romano permitem uma difusão mais ampla dos textos e o aumento da produção de exemplares. No mercado romano, surgem livrarias, copistas ou librarius, um termo que era designado para o copista e o livreiro, visto que estava englobado na mesma função. Os livros tornam-se mais acessíveis, apesar de estarem longe de serem universais. Simultaneamente, são utilizados como instrumentos de educação e como um elemento de estatuto social e de afirmação cultural.

Património vulnerável

A perda do património literário é um tema bastante recorrente ao longo da obra. Irene Vallejo destaca que grande parte dos textos da Antiguidade se perdeu devido a guerras, incêndios, negligência, censura e deterioração de materiais. A Biblioteca de Alexandria acabou por simbolizar a vulnerabilidade. Ao abordar a questão do incêndio da Biblioteca, a autora afasta-se da ideia de uma destruição causada por um único evento e sugere que a verdadeira tragédia não reside apenas na perda física da Biblioteca ou de uma coleção de livros, mas no conjunto de perdas que se sucederam ao longo do tempo, que foi marcado pela fragilidade e pela violência.

No período das guerras civis romanas, ocorre um dos acontecimentos que tem uma maior associação ao incêndio da Biblioteca, nomeadamente a presença de Júlio César em Alexandria, no século I a.C. Durante o conflito, alega-se que um incêndio atingiu o porto da cidade, o que originou a destruição dos armazéns onde se guardavam rolos de papiro. A autora acredita, no entanto, que “há motivos para duvidar disso. César, no seu Guerra Civil, fala da queima dos barcos, mas não menciona a destruição da Biblioteca, nem sequer para se justificar.” Esta ambiguidade histórica é central na forma como a narrativa da obra é construída; em vez de se focar numa única explicação, a autora destaca a fragmentação das fontes.

A autora acaba por conectar esta temática do passado com o presente. Tal como no passado, enfrentamos ameaças como a perda de dados digitais e a dependência de sistemas que acabam por ser frágeis e que levantam questões semelhantes às que marcaram o fim da Biblioteca. Irene Vallejo valoriza, sobretudo, a adaptação do livro e não o seu desaparecimento, assim como a ideia da resistência e a reinvenção do livro ao longo dos séculos. Através dos diferentes formatos, consegue ser atemporal.

A partir da criação da prensa de Gutenberg, em 1440, o livro deixa de ser um objeto raro para se tornar um bem multiplicável e acessível para a difusão do conhecimento. No início, a escrita e a leitura eram saberes reservados a muito poucos, quase como um instrumento de poder. Bastará revisitar a obra O Nome da Rosa, de Umberto Eco, ou ver o filme homónimo para perceber o quanto as mensagens e as ideias de um livro podem causar o temor de quem “controla” as trevas. Nessa altura, nem todos confiavam no registo da palavra. Os mais conservadores acreditavam que escrever poderia enfraquecer a memória. A verdade é que a possibilidade de guardar ideias fora da mente humana transformou a forma como o conhecimento era preservado e transmitido.

Mais de 500 anos depois, a revolução digital alterou profundamente o ecossistema mediático. Introduziu novos dispositivos, novas formas de acesso à informação e novos hábitos de leitura. A informação tornou-se acessível e distribuída por múltiplos suportes, sendo consumida de forma cada vez mais rápida. A ideia de que o livro impresso não desapareceu é reforçada pela perspetiva de Joaquina Pereira, bibliotecária da Biblioteca de São Lázaro, que afirma que “os livros vão sempre existir, ainda que inseridos num contexto de transformação tecnológica contínua”.

Experienciar o livro

A importância cultural do livro é reforçada pela sua associação histórica ao conhecimento. Ao longo dos séculos, desempenhou um papel central na preservação e transmissão do saber, contribuindo para a construção da memória coletiva. Como afirma Ana Santos, coordenadora da Biblioteca de Alcântara, trabalhar com livros significa “trabalhar com a memória do mundo”. Como esclarece: “A presença dos livros na história da humanidade, desde os manuscritos até ao códice moderno, demonstra capacidade de adaptação a diferentes contextos tecnológicos e culturais.

A sua materialidade permite uma relação tátil e sensorial com o objeto, criando uma ligação emocional com o leitor.” Nesse sentido, Ana Santos destaca que “ainda nada substituiu, mesmo do ponto de vista orgânico, a relação com este objeto”. De forma convergente, Joaquina Pereira sublinha também essa dimensão experiencial e a materialidade de tocar um objeto: “O livro é muito mais do que simplesmente ler algo num ecrã. Ter o livro físico é diferente, não tem nada a ver.”

Além disso, o livro oferece a possibilidade de posse da informação, ao contrário dos conteúdos digitais, que, muitas vezes, são apenas acedidos temporariamente. Esta dimensão material contribui para a sua valorização enquanto objeto cultural e pessoal. A leitura digital, por sua vez, é caracterizada por ser mais rápida, fragmentada e orientada para a recolha de informação. O ambiente online, marcado pela abundância de conteúdos e pela estrutura hipertextual, favorece práticas de leitura baseadas na navegação, na seleção e na fragmentação. Não diria que se lê menos, diria que se lê de forma diferente”, refere Ana Santos.

Também Joaquina Pereira identifica esta transformação, referindo que “desde a pandemia, as pessoas tendem a ler menos e, muitas vezes, desviam-se para outros formatos, como conteúdos audiovisuais”. Ainda assim, defende que “o tipo de memória e a parte do cérebro que trabalha é diferente do audiovisual, que é muito mais efémero; é a memória curta, a outra vai para a memória intermédia. É diferente”.

No campo da publicação, a revolução digital introduziu mudanças significativas. Antes, a publicação estava quase exclusivamente associada às editoras e ao formato impresso. Atualmente, existem múltiplas formas de publicar, incluindo a publicação digital, a autopublicação e os sistemas de print-on-demand. Estas novas modalidades permitem uma maior democratização do acesso à publicação, reduzindo custos e ampliando a distribuição global. Outro aspeto é o desenvolvimento de formas híbridas de publicação, que combinam elementos do livro impresso com funcionalidades digitais. Estas incluem livros interativos, publicações web-to-print e networked books, que permitem uma maior interatividade e participação do leitor.

A criação de uma agenda impressa associada a um site demonstra que o livro físico pode coexistir com plataformas digitais, beneficiando das suas funcionalidades. Apesar das transformações tecnológicas, a leitura sempre teve e assume cada vez mais um papel absolutamente central”, como afirma Ana Santos. Essa centralidade é, no entanto, disputada por novos meios e dinâmicas sociais. Joaquina Pereira reconhece que “todos os livros fazem falta e continuam a ser fundamentais para o desenvolvimento do pensamento e do conhecimento”.

Com uma notável capacidade de reinvenção, o livro não desaparecerá, mas continuará a evoluir em resposta às transformações tecnológicas, sendo a sua capacidade de adaptação o principal garante da sua relevância futura. Longe de desaparecer, promete continuar a afirmar-se como um meio essencial na organização, preservação e difusão do conhecimento, acompanhando e moldando as transformações da sociedade ao longo do tempo.