“Boa é a vida, mas melhor é o vinho”

Na região de Palmela, a presença do vinho remonta a séculos de história e acompanha, de forma contínua, a evolução do meio e das suas gentes. Mais do que um produto agrícola, o vinho afirma-se como uma marca cultural desta região que atrai turistas e contribui para a valorização local

A história vitivinícola de Palmela perde-se no tempo. Terá sido neste concelho que foram plantadas algumas das primeiras vinhas da Península Ibérica por volta de 2000 a.C., dando início a uma prática que se foi mantendo ao longo dos séculos. Em 1907, viria a ser oficialmente reconhecida com a demarcação da Região do Moscatel de Setúbal, uma das mais antigas do país. Com o passar do tempo, essa continuidade refletiu-se na variedade dos vinhos produzidos e na diversidade natural, já que nenhuma outra área do país apresenta uma variação tão marcada, onde se cruzam planícies, serras e encostas, bem como a influência dos rios Tejo e Sado e a proximidade ao Oceano Atlântico.

A este enquadramento soma-se ainda um clima mediterrânico, marcado por verões quentes e secos e invernos frios e chuvosos. Estas condições acabam por influenciar diretamente os vinhos produzidos, que refletem tanto as características naturais do lugar como as práticas que se foram mantendo ao longo do tempo, conferindo-lhes uma identidade própria, geralmente bem equilibrados entre qualidade e preço.

Neste contexto, o vinho surge, muitas vezes, descrito como a “quintessência do património cultural”, não apenas pelo que representa, mas pela forma como é vivido. A experiência do vinho, desde o seu consumo, ao seu conhecimento e às práticas que o rodeiam, envolve dimensões sensoriais e íntimas que ajudam a construir o carácter da região de Palmela.

A região demarcada do Moscatel, que integra os concelhos de Setúbal, Palmela, Montijo e Grândola, existe desde 1907

Ainda assim, esta dimensão local não impede uma projeção mais ampla. O património vitivinícola da região é reconhecido à escala global, sendo valorizado mesmo em países onde o consumo de álcool não faz parte das práticas dominantes. Como sublinha João Paulo Martins, jornalista especializado nesta área, “o vinho sempre foi um elemento de convívio e de acolhimento”,o que revela, em certa medida, uma capacidade de perceber o vinho para além do seu uso imediato, entendendo-o como expressão cultural e histórica.

Como observa o também autor de guias sobre o tema, há vinhos que existem mais pela sua história do que pelo negócio e, embora nem todos conheçam ou tenham acesso aos vinhos mais famosos, este universo não se limita a esses exemplos. Parte significativa do seu valor reside, sobretudo, nas práticas locais, que, ao serem partilhadas e reconhecidas, passam a integrar um património mais vasto, comum a diferentes realidades”.

A Casa Museu José Maria Fonseca, construída no século XIX e restaurada em 1923 pelo arquiteto suíço Ernesto Korrodi para ser residência da família Soares Franco até 1974, é o ponto de partida desta proposta do enoturismo, na zona de Palmela

“Antes das sopas, molham-se as bocas”

João Paulo Martins refere que“a região de Palmela está indissoluvelmente ligada a duas castas: o Moscatel e o Castelão”. Para o mais recente apreciador de vinhos, “o amor pela casta Castelão não é imediato”. No entanto, é a principal casta tinta da Península e encontra sobretudo nos solos arenosos desta zona uma das suas expressões mais profundas e autênticas. “Trata-se de uma casta rústica, resistente e de ciclo longo, capaz de originar vinhos estruturados, com identidade própria e boa capacidade de evolução em garrafa. Os vinhos apresentam uma cor intensa, revelam notas de frutos vermelhos, muitas vezes em registo mais compotado, e contam com uma acidez viva e taninos firmes.”

As vinhas velhas de Castelão funcionam como “património vivo”, porque preservam material genético antigo, práticas agrícolas tradicionais e uma relação mais direta com o solo. São também mais resistentes ao stress hídrico e tendem a originar uvas mais concentradas, criando vinhos mais densos e expressivos. Em contraste, quando cultivadas em solos diferentes, como os da Arrábida, o perfil torna-se mais leve e fresco, revelando a sua capacidade de adaptação às variações do território.

Por sua vez, o Moscatel ocupa um registo distinto, tanto no perfil aromático como na forma de produção. Trata-se de uma casta de intensidade aromática elevada e facilmente reconhecível pela forma como se impõe no aroma e no sabor. É marcada pela concentração de notas florais e frutadas, que vão das flores de laranjeira e tília à pera e lichia. Nos vinhos mais jovens, surgem ainda referências a marmelada e a fruta madura.

O Moscatel de Setúbal é obtido através da interrupção da fermentação com aguardente vínica, seguindo-se um contacto prolongado com as películas e envelhecimento em madeira. O resultado é um vinho doce e concentrado, onde se cruzam mel, casca de laranja, especiarias e notas mais evoluídas. Este processo ajuda a explicar o perfil aromático e identitário da casta, protegida pela legislação europeia que estabelece, atualmente, uma predominância de cerca de 85% de uvas Moscatel na sua composição.

O moscatel tem o aroma e a identidade da casta que, segundo as normas europeias, está presente em 85% da sua composição

Um brinde a Palmela

Nos últimos anos, o vinho da Península de Setúbal deixou de se afirmar apenas pela produção e passou também a marcar a forma como a região se dá a conhecer. O crescimento do enoturismo acompanha essa mudança e tornou-se uma das expressões mais visíveis da valorização local. Como refere Sofia Soares Franco, responsável do Enoturismo e Comunicação Institucional da José Maria da Fonseca, “o enoturismo tem hoje um papel estruturante na região de Palmela, contribuindo de forma significativa para a sua dinamização económica e projeção externa”.

O termo junta “eno”, do grego oinos, que significa vinho, e “turismo”, e o conceito é simples: “Resulta da interligação entre a indústria do vinho e a atividade turística, motivado pelo interesse dos visitantes em conhecer, provar e experienciar os vinhos e as tradições associadas às regiões produtoras.”

Os visitantes procuram uma abordagem integrada, em que o vinho seja o ponto de partida, mas com uma crescente valorização pela história e cultura da região

Na prática, traduz-se numa experiência que engloba provas de vinho, visitas guiadas, vindimas abertas ao público, eventos e iniciativas ligadas à gastronomia. O interesse dos visitantes estende-se ao processo e às práticas que dão origem ao vinho, criando uma relação mais próxima com o território. A responsável sublinha que“os visitantes procuram cada vez mais uma abordagem integrada, em que o vinho é o ponto de partida, mas a componente histórica e cultural é frequentemente um dos aspetos mais valorizados”.

A forte presença da vinha, aliada à diversidade paisagística, cria condições propícias a uma oferta enoturística variada e cada vez mais estruturada. “A Península de Setúbal distingue-se pela combinação única entre tradição, diversidade de terroirs e proximidade a Lisboa”, refere Sofia Soares Franco, afirmando ainda que essa identidade é reforçada poruma autenticidade de experiências e por vinhos emblemáticos como o Moscatel de Setúbal e o Periquita”.

A prova de vinhos da empresa José Maria da Fonseca acontece num ambiente elegante para conferir uma experiência emocional a quem procura estes serviços

A criação da Rota de Vinhos da Península de Setúbal ajudou a consolidar esse crescimento. Através de vários percursos, passou a ser possível ligar adegas, centros históricos e produtores locais, permitindo uma leitura mais ampla da região. Atualmente, esta rota integra sete percursos que incluem os concelhos de Setúbal, Palmela, Montijo e Grândola, reforçando a visibilidade do território enquanto destino.

Esta experiência não exige grandes deslocações nem estadias prolongadas. Uma visita a uma adega, integrada num dia passado na região, pode ser suficiente para entrar neste universo. Da mesma forma, o enoturismo não depende necessariamente de estruturas complexas: há adegas sem alojamento ou restauração que, ao abrirem portas e organizarem visitas, já fazem parte desta dinâmica. “A experiência demonstra que os visitantes procuram cada vez mais uma abordagem integrada e emocional”, destaca a responsável, acrescentando que “o vinho é o ponto de partida, mas o que mais marca é a ligação à história e ao património das casas e das famílias produtoras”.

Neste contexto, o enoturismo revela potencialidades que vão além da atividade turística, visto que ao atrair visitantes, contribui para dinamizar a economia local. Para muitas explorações, sobretudo de menor dimensão, o contacto direto com o público permite promover os seus vinhos, aumentar as vendas e criar relações mais duradouras com quem os consome.

Ao mesmo tempo, funciona como um meio de valorização do território. A paisagem rural, os saberes associados à vinha e as práticas que se mantêm ao longo do tempo ganham mais visibilidade quando passam a integrar a experiência da visita, o que contribui para a criação de memórias e para uma ligação mais direta entre o visitante e o lugar.

Ainda assim, o desenvolvimento do enoturismo traz alguns desafios, sobretudo ao nível da adaptação das infraestruturas e da gestão do impacto ambiental. O equilíbrio destes fatores torna-se essencial para garantir que o crescimento não compromete os elementos que sustentam esta dinâmica. Como refere Sofia Soares Franco, “esse equilíbrio passa por manter uma abordagem fiel à identidade da casa e da região, evitando artificializar a experiência”.

A evolução é clara: “O enoturismo tem um impacto muito relevante na promoção da região, funcionando como uma porta de entrada para muitos visitantes que depois exploram outros ativos da Península de Setúbal.”

A Festa das Vindimas de Palmela é um dos momentos mais marcantes do calendário local, em que a “Rainha” recém-eleita se torna a figura central do cortejo

“Rainha coroada, festa começada”

As vindimas representam um dos momentos mais significativos do ciclo vitivinícola da Península de Setúbal, concentrando num curto período de tempo uma dimensão simbólica que dificilmente se encontra noutras alturas do ano. Durante algumas semanas do mês de setembro, a paisagem transforma-se e as vinhas entram em plena atividade. Como sublinha João Paulo Martins, o vinho “extravasa completamente a noção de produto agrícola e transporta uma carga histórica e emocional muito forte”, ideia que ajuda a compreender o significado deste momento.

Em Palmela e na restante península, as vindimas são um acontecimento historicamente associado à cooperação entre as gentes, desempenhando ainda um papel relevante na preservação de práticas tradicionais. Embora essa realidade tenha vindo a alterar-se com a mecanização e a profissionalização do setor, o carácter comunitário não desapareceu por completo e continua a ser evocado como parte da identidade da região.

Nos últimos anos, as vindimas têm vindo a ser integradas no enoturismo, transformando-se numa experiência acessível a quem visita a região. A participação na apanha da uva, ainda que de forma breve, permite ao visitante entrar em contacto com uma realidade que, de outro modo, lhe seria distante.

As vindimas encontram a sua expressão mais visível na Festa das Vindimas de Palmela, um dos momentos mais marcantes do calendário local, com data marcada na semana de 3 a 8 de setembro. Segundo Maria João Camolas, presidente da Assembleia Geral da Associação das Festas de Palmela, “é uma herança de família que une gerações, e que acontece desde 1963”. O evento assume-se como uma celebração coletiva que mobiliza a comunidade e dá forma a práticas e memórias ligadas ao vinho.

Com a aproximação de setembro, a vila começa a ganhar ritmo. As ruas enchem-se de movimento, com carros a transportar uvas e gente para as vinhas, antecipando um período em que “todo o concelho de Palmela está em festa e de portas abertas”. A festa traz à vila o arraial, o corrupio da gente, música nas ruas, cortejos e muito vinho. Ao longo de vários dias, a presença de visitantes e o ambiente vivido transformam a celebração num verdadeiro cartaz internacional, já que “não há na região nada igual”.

A origem da festa está ligada à vontade de valorizar o vinho e de dar visibilidade ao território. Palmela afirma-se como “terra mãe de vinhos, onde a história da cultura da vinha remonta a tempos ancestrais”. A festa surge como extensão natural dessa herança.

Entre os vários momentos do programa, destacam-se o Cortejo Alegórico e a Pisa, bem como a Bênção do Primeiro Mosto – o apogeu da festa. As carretas entram na vila carregadas de uvas, recriando o regresso do trabalho nas vinhas. As uvas são pisadas em público e o primeiro mosto é apresentado e abençoado, num gesto que articula o trabalho agrícola com a dimensão espiritual e que expressa a gratidão a Deus pela colheita proporcionada.

A par destes momentos, a festa integra outras dimensões emblemáticas, como a presença da Rainha, que é a figura central do cortejo e um dos elementos representativos da identidade local, associada à ideia da beleza das “moças” de Palmela.

Ao longo dos anos, a Festa das Vindimas consolidou-se como um espaço de encontro. Atualmente, integra produtores, visitantes e diferentes agentes locais, abrindo portas a experiências ligadas ao enoturismo, desde visitas a adegas, a provas ou à participação simbólica na vindima. Este envolvimento alargado demonstra que o que sustenta o evento não é apenas a dimensão festiva, mas também “a paixão e o gosto de trabalhar em prol da comunidade”.

Com o passar dos anos, mantém-se ainda o equilíbrio entre a inovação e a continuidade. “Os tempos mudam, mas aqui a tradição ainda é o que era. É necessário evoluir, mas a tradição ainda é o denominador comum.”  Assim, a Festa das Vindimas afirma-se como uma homenagem ao passado, mas também como forma de projetar o futuro, mantendo viva uma identidade que continua a fazer sentido no presente, porque, como escreveu Fernando Pessoa, “Boa é a vida, mas melhor é o vinho”.