“Uso a inteligência artificial, sobretudo, para estruturar trabalhos e encontrar fontes. Pode ajudar a aprender, mas há estudantes que acabam por deixar que a IA faça tudo por eles.” As palavras são de Ana Oliveira, 21 anos, que frequenta o curso de Línguas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e encara a inteligência artificial (IA) generativa essencialmente como uma “base organizacional” para a sua rotina académica.
O testemunho de Ana Oliveira representa um fenómeno nacional de adoção acelerada onde, segundo o estudo “Crianças e jovens (9-17 anos) e Inteligência Artificial Generativa em Portugal”, coordenado pela investigadora Cristina Ponte, da Faculdade Ciências Sociais e Humanas (FCSH), da Universidade Nova, no âmbito da rede EU Kids Online (EUKO), quase 90% dos jovens portugueses já utilizam estas ferramentas. Este uso é considerado mais intenso do que a média europeia, com cerca de 85% dos inquiridos a admitirem o recurso a estas plataformas no último mês.
Impacto da automatização
O uso predominante da tecnologia permanece ligado ao estudo, com 48,4% dos alunos a utilizarem a IA para resumir textos longos e 47,2% para apoio direto na escrita de trabalhos escolares. Na pesquisa que envolveu uma amostra de 2111 participantes, Samuel, 17 anos, descreve um método de estudo que se tornou comum: “Entro na plataforma Classroom, copio o enunciado do professor, peço uma resposta ao algoritmo e transfiro o resultado para um documento final, alterando o texto apenas se “gostar” do resultado.” Esta tendência de facilitação é partilhada por Patrícia Ferreira, estudante de Bioquímica na Universidade de Coimbra, que admite recorrer a estas plataformas para “obter explicações detalhadas sobre temas complexos, modificando apenas ligeiramente a forma das respostas antes da entrega”.
O impacto da tecnologia Large Language Models ultrapassa, no entanto, o domínio das notas e entra na esfera privada. Portugal regista uma das taxas mais elevadas da Europa no uso da IA para apoio emocional e desabafo pessoal. Cerca de 25% dos jovens procuram estas ferramentas para aconselhamento, um valor dez pontos percentuais acima da média europeia. Como resume Maria, 13 anos, também participante na mesma investigação: “É como se estivéssemos a falar com uma pessoa, só que essa pessoa não existe.”
O vazio normativo e o sistema de semáforos
Apesar da presença constante da IA no quotidiano dos alunos, o sistema de ensino superior enfrenta um desfasamento estrutural. O diagnóstico nacional “InteligênciaArtificial no Ensino Superior em Portugal: Diagnóstico Nacional para Governação Institucional”, publicado em abril de 2026 pelo CNIPES, coordenado por Nelson Zagalo e Sandra Soares, da Universidade de Aveiro, revela que, embora 52,9% das instituições já apliquem a IA no ensino, apenas 14,7% dispõem de políticas formais ou regulamentos em prática. Para estes especialistas, o sistema vive um período de “experimentação dispersa” que exige regras claras para mitigar o chamado “risco epistémico”: a produção de linguagem que parece plausível, mas que carece de garantia de verdade ou fiabilidade.
Como resposta a este cenário, o Instituto Superior Técnico (IST) estabeleceu um guia de utilização responsável assente num sistema visual de semáforos. O modelo define três níveis: o nível 0 (vermelho), onde o uso é interdito em exames e avaliações individuais; o nível 1 (amarelo), que permite o apoio limitado à estruturação de ideias mediante declaração; e o nível 2 (verde), em que a IA é incentivada como ferramenta colaborativa e de coautoria. A peça-chave desta regulação é a “Declaração de Uso”, onde o aluno deve detalhar a intervenção algorítmica no seu trabalho. A omissão desta informação é equiparada a plágio ou fraude académica, reforçando que o utilizador humano é o único responsável pelo rigor e originalidade do conteúdo final.
Futuro da aprendizagem: Saber, fazer e ser
O debate estratégico sobre o futuro da aprendizagem aponta agora para um modelo de maturidade baseado em três pilares: Saber sobre a tecnologia, fazer com ela de forma transparente e, crucialmente, ser sem IA. Este último eixo, defendido por investigadores como João Couvaneiro e Diogo Casanova, membros do grupo de trabalho de IA do (Conselho Nacional para a Investigação Pedagógica no Ensino Superio), foca-se na capacidade de manter a autonomia intelectual e o esforço individual, cultivando a sabedoria para reconhecer quando a automatização deve ceder lugar à reflexão humana.
Para a investigadora Cristina Ponte, o desafio passa por reinventar as formas de avaliação, integrar a IA em atividades criativas e trabalhar a literacia digital para perceber onde a tecnologia falha. A docente sublinha que “a regulação europeia será decisiva”, mas defende que “a sua aplicação em Portugal deve permitir uma monitorização real, integrando organismos como a ERC e a CNPD para proteger os direitos fundamentais”, e não apenas a ANACOM, que possui um perfil estritamente tecnológico.
Em última análise, o desafio do ensino português será garantir que os estudantes desenvolvam a autonomia intelectual – a capacidade de agir de forma autónoma e crítica – necessária para coexistir com estas máquinas. Trata-se de integrar a inovação sem nunca abdicar da inteligência e da curiosidade humanas, atributos que, como recorda o Conselho Nacional de Educação, nenhuma tecnologia ou algoritmo pode substituir.