É a partir do pavilhão da Escola Básica Stuart Carvalhais, em Massamá, que miúdos e graúdos aprendem a patinar, treinam para as partidas aos fins de semana para se preparem para jogar na primeira divisão do campeonato e na Liga dos Campeões. Formado em 2013, este “clube de formação” tem atletas de todos os escalões, desde bambis a seniores, passando por sub-13 e sub-19. Apesar das dificuldades financeiras, a paixão pelo desporto é evidente e é graças à dedicação de alguns pais de atletas que o projeto segue a bom porto. São eles que, voluntariamente, tratam da burocracia do clube.
O presidente do A. Stuart HCM, Rui Espada, reforça a ideia do voluntariado dentro da comunidade do clube para que tudo possa resultar. Embora a ambição maior “seja espalhar magia”, como dizem as camisolas de alguns adeptos, nem tudo é mágico. Segundo o dirigente, o clube tem essencialmente três problemas, três pilares sem os quais não funciona: recursos humanos, financeiros e as instalações. “Dinheiro não é tudo. Muitas vezes, o que é mais necessário são as pessoas.”
Os recursos humanos deste clube são, essencialmente, os pais ou familiares dos atletas que, como explica, “ocupam cargos na administração, ajudam os pequenos hoquistas a calçar e descalçar os patins. No fundo, todas estas pessoas estão unidas para o mesmo fim. Verem as crianças felizes”. Por vezes, é essa sensação de felicidade que faz com que os pais se sintam “obrigados a assumir papéis no clube”.

Rui Espada afirma que “o hóquei é um desporto caro”. Tânia Janeiro, mãe de um atleta no escalão sub-15, confirma e fala em valores como 70 euros para o stick e 150 apenas para os patins, excluindo proteções para os joelhos, cotovelos, entre outras necessidades. O clube paga taxas de filiação, inscrição e taxas de jogo à Federação Portuguesa de Patinagem (FPP). É esta entidade responsável pela regulação do hóquei em patins a nível nacional, normas de jogo, disciplina e arbitragem.
Em termos regionais, associações como a APL (Associação de Patinagem de Lisboa) encarregam-se da inscrição dos atletas, gestão de competições regionais e filiação dos clubes. Todos estes custos incluem seguros desportivos, taxas de jogo (isto é, árbitros, entre outras despesas), taxas de filiação anual e multas disciplinares. Estes gastos vão sendo maiores consoante o aumento do escalão, por exemplo, as seniores femininas pagam mais do que o escalão dos escolares. “É tudo cobrado pelas federações”, diz o presidente. “É o clube que paga tudo: equipamento, viagens/deslocamentos, arbitragem”, garante.
O atual presidente da APL, Luís Nascimento, afirma, no entanto, que “as taxas a aplicar são simbólicas, no que tem a ver com a arbitragem e inscrição nas provas”. De acordo com o mesmo responsável, “a APL ajuda nas taxas mais elevadas”. E exemplifica: “Quando um clube decide criar uma equipa feminina, a APL abdica dos seus 50% desde que seja assegurada a continuidade da equipa”. E acrescenta: “O mais importante são os eventos que proporcionamos para que as atletas tenham competição, os clubes tenham retorno e que as atletas se sintam parte do processo e motivadas.”

Pavilhão pequeno para grandes ambições
As paredes do pavilhão da Escola Básica Stuart Carvalhais recebem diariamente treinos, jogos e horas de preparação de dezenas de atletas. Mas, por trás da rotina desportiva, escondem-se limitações que condicionam o crescimento do clube e o desempenho das equipas. Rui Espada admite que “embora não sejam as melhores condições, não tem a ver com a qualidade do pavilhão da escola, mas sim com o tempo e quantidade de atividades que estão alojadas naquele pavilhão”.
A escola ocupa o pavilhão três vezes por semana com o desporto escolar, “o que impossibilita os atletas de ter as horas necessárias para terem um bom desempenho em cima dos patins”. O presidente da A. Stuart HCM revela que “houve uma vez que ao chegarem ao pavilhão, este estava alagado, ou seja, inoperacional para o jogo que iria acontecer dentro de poucos dias. Neste caso, de danificação do piso, foi o clube que financiou as reparações. Estas condições obrigaram o A. Stuart HCM a alugar o pavilhão a outro clube para não perderem os jogos por falta de comparência”. É também neste pavilhão “alugado” que alguns escalões treinam, por falta e incompatibilidade de horários.
Nas bancadas, os desafios que o clube enfrenta continuam visíveis. Rui Espada avança que, em média, aparecem entre 200 e 300 pessoas para assistir aos jogos, lamentando a ausência de uma maior ligação da comunidade ao clube. “A maioria não sabe que a escola tem clube”, afirma, apontando também a falta de recursos financeiros para divulgar os eventos e aumentar a visibilidade da equipa.
Para combater esse problema, o clube tem apostado no desenvolvimento das redes sociais com o apoio de uma equipa de comunicação. Ainda assim, o presidente e treinador considera que “também é necessário construir um senso de comunidade entre as pessoas que habitam perto de onde a equipa está situada”. Rui Espada assegura ainda que “o contexto desportivo é vital para o aumento da assistência”, admitindo que “os jogos frente ao SL Benfica, por exemplo, acabam por registar mais público no pavilhão”. Apesar disso, rejeita a ideia de que os clubes maiores retiram adeptos aos mais pequenos. “É antes o desinteresse geral das pessoas pelas chamadas modalidades ou desportos que não os de massas, como é o futebol, em Portugal.”

Quando a paixão é insuficiente
Margarida Alves, 28 anos, é jogadora da equipa sénior do clube há três anos e conta que um dos maiores desafios é o acesso a equipamento: “É complicado aceder a material como fatos de treino e equipamentos de forma gratuita.” Graças também à sua posição ativa no clube, sente que tem melhorado. Os transportes, fundamentais para as deslocações da equipa para os encontros, são também um problema. “O clube disponibiliza apenas carrinhas ou carros alugados, uma vez que não tem acesso a autocarros, o que impede a equipa de ir e vir toda junta para jogos mais longe”, refere. Para além desses dois pontos, a jovem atleta considera que “podia haver acompanhamento por parte de um fisioterapeuta ou preparador físico, de forma a garantir a segurança do plantel, e também uma maior aposta na comunicação do clube, através da divulgação da modalidade em redes sociais, pedido de patrocínios e criação de iniciativas diferentes e lucrativas”.
Dentro do ringue, as dificuldades não se refletem apenas nos resultados, mas também nas condições oferecidas às atletas para treinarem e evoluírem na modalidade. Na opinião de Margarida Alves, “ainda existem vários aspetos por melhorar” e aponta “as mudanças semanais de horários ou a quantidade menor de horas de treino em comparação às adversárias” como alguns dos principais obstáculos enfrentados pela equipa.
Margarida Alves lamenta que o reconhecimento do hóquei em patins feminino ainda seja bastante reduzido: “A maioria das pessoas apenas conhece a modalidade através dos jogos de equipas masculinas que, por vezes, passam na televisão.” Ainda assim, a atleta admite que “existe uma diferença no que toca aos clubes”, reconhecendo que a realidade não é uniforme em todo o panorama da modalidade. Com pouca divulgação, seja nas redes sociais ou na televisão, a hoquista explica que “o esforço das jogadoras para criar ligações com o público, atrair adeptos e apostar na formação tem sido fundamental para mudar o cenário”. Como faz questão de sublinhar: “Fez com que, hoje em dia, as bancadas se encham de pessoas com vontade de apoiar o clube.”
Luís Nascimento considera que o que falta para o hóquei feminino atingir maior visibilidade em Portugal é “reconhecimento e investimento, mas também mudar a regulamentação”. E centra-se na importante aposta em jogadoras estrangeiras: “A entrada de jogadoras de qualidade de outros países ajudam a modalidade a aumentar o número de atletas em Portugal, o número de clubes e, consequentemente, a competitividade, visibilidade e a atração de apoios.”
A APL avança ainda que “realiza ações como o mini-hóquei, equipas mistas, “fest hóquei” e campeonatos distritais para todas as categorias, que têm como objetivo promover o crescimento do hóquei feminino. Para além disso, começam muito cedo também a realizar trabalhos de visionamento, treinos e acompanhamento através das chamadas às seleções femininas”. O presidente garante que “a APL garante a igualdade de oportunidades no acesso à modalidade através de incentivos para os clubes terem atletas femininas e com a sua inclusão nas equipas mistas”.

Obstáculos no regresso ao hóquei
Apesar dos apoios que a APL refere, regressar à modalidade após uma pausa torna-se complicado. Margarida Alves relata que “os horários de exercícios de preparação são incompatíveis com a vida familiar, uma vez que os treinos começam, no mínimo, às 20h45 e acabam, no máximo, à meia-noite”. Para uma jogadora que seja mãe, continua, “estes horários seriam impensáveis, uma vez que teria, por exemplo, de abdicar de jantar com os filhos ou tê-los já a dormir antes de ir para o treino”.
Para além da incompatibilidade de horários, é muito difícil conciliar jogos e treinos com uma rotina diária. “As jogadoras têm as suas carreiras fora do hóquei, rotinas familiares, entre outros, que tornam muito complicado gerir tudo em simultâneo.” Margarida Alves acrescenta ainda que “em Portugal, apenas o Benfica proporciona condições favoráveis às jogadoras para continuarem na modalidade”. De forma geral, diz que “não compensa continuar, uma vez que perdem muito mais do que ganham ao permanecer no hóquei”.
A realidade do A. Stuart HCM evidencia as múltiplas dificuldades enfrentadas por estruturas desportivas de menor dimensão, especialmente fora dos chamados desportos de massa. Entre limitações financeiras, escassez de recursos humanos e condições insuficientes ao nível das instalações, a sobrevivência e o crescimento do clube parecem assentar na importância deste desporto para o futuro da comunidade. Como sublinha Rui Espada: “O hóquei estimula a competitividade, o saber lidar com o outro, lidar com a frustração. Gerindo estas coisas, vão-se adquirindo valores que contribuem para nós como pessoas. São valores que ficam para a vida.”