Elevador da Glória e acidente ferroviário em Tempi, na Grécia: Jovens exigem justiça

Nos últimos anos, várias cidades europeias têm sido marcadas por acidentes ferroviários, como o de Tempi, na Grécia. No dia 3 de setembro de 2025, também Lisboa entrou para o mapa da tragédia, com o descarrilamento do elevador da Glória. Na noite de 28 de fevereiro deste ano, um grupo de jovens juntou-se em Lisboa para exigir responsabilidades do que classificam de “crime do Estado”. Hoje, 29 de maio, no dia em que a PJ avançou com buscas na Carris e na empresa de manutenção, recupera-se essa reportagem inédita

É noite de 28 de fevereiro de 2026, sábado, no coração de Lisboa, mais propriamente na Praça do Comércio. A noite está fria, mas não afasta os guias turísticos e os últimos visitantes do dia, que os acompanham pelo antigo palácio real, enquanto um grupo de jovens se reúne em torno da majestosa estátua equestre no centro da praça. Precisamente onde um terramoto massivo outrora reduziu a cidade a escombros, a estátua de D. José I permanece como um lembrete da era da reconstrução. Mas a energia hoje é diferente. Há faixas penduradas na estátua e jovens distribuem panfletos, tentando falar com quem passa e alertar para uma causa específica. As faixas exibem frases em grego e português, como “Não consigo respirar” ou “Não ao encobrimento de um crime de Estado”.

A vigília de jovens acontece porque, nesta data, se assinala o terceiro aniversário da tragédia ferroviária de Tempi. Todos os anos, neste dia, muitos gregos espalhados pela Europa saem à rua em protesto. Na Grécia, as ruas enchem-se de manifestantes, com lojas fechadas e estradas bloqueadas em sinal de luto e exigência de justiça naquele que foi o maior acidente ferroviário da história da Grécia.

Nafsika, 25 anos, volta a juntar-se aos protestos este ano. Não na Grécia, como aconteceu antes, e sim na Praça do Comércio, em Lisboa. A jovem grega tenta sair à rua sempre que possível para manter viva a memória do desastre. Para a manifestante, o 28 de fevereiro já não é apenas uma data: “No início, o comboio era o meu principal meio de transporte”, diz, olhando para a estátua. Antes de se mudar para Lisboa, estudava em Salonica e fazia a viagem de comboio para Atenas com frequência. “Naquele dia, era suposto eu ter feito exatamente aquele percurso, mas os meus planos mudaram à última hora”, conta Nafsika com um semblante grave. “Toda a gente acreditava – eu inclusive – que era bastante seguro, muito seguro.”

Há três anos, dois comboios colidiram perto de Tempi, uma pequena aldeia entre Salonica e Atenas. O comboio de passageiros incendiou-se imediatamente. Cinquenta e sete pessoas perderam a vida e outras 87 ficaram gravemente feridas. Muitas das vítimas eram jovens universitários que utilizavam a linha para se deslocarem. Quando Nafsika fala sobre o acidente, nota-se um misto de descrença e dor profunda na sua voz. “Isto marcou uma geração inteira”, diz seriamente. “Traumatizou e assustou as pessoas.” Enquanto distribui mais panfletos, relata o sofrimento psicológico que se seguiu: “A primeira vez que voltei a andar de comboio, estava extremamente cautelosa. Qualquer pequena mudança deixava-me ansiosa. Lembro-me de que, sempre que o comboio entrava num túnel ou mudava de linha, havia tensão em toda a carruagem. Não era só eu, todos olhavam em volta, como se esperassem que algo mau acontecesse.”

O desastre de Tempi levou mais de um milhão de pessoas às ruas só em Atenas, logo após a tragédia. Um dos motivos para a revolta massiva foram as notícias reveladas mais tarde, indicando que o governo tentou ocultar certos detalhes do acidente. Além da colisão, existem alegações de que materiais ilegais estavam a ser transportados no comboio, o que contribuiu para o incêndio de grandes dimensões. Apesar das provas documentadas, o governo grego não assumiu total responsabilidade. Para Nafsika e para os manifestantes, a culpa é inteiramente dos políticos: “O problema é que os anos passaram e continuamos a ouvir relatos de comboios que quase colidem. Sistemas básicos de controlo e deteção, que supostamente foram comprados há anos, ainda não foram devidamente implementados. Isto gera raiva e frustração. Parece que nada mudou realmente. Que o dinheiro foi gasto, mas não foi bem utilizado. Que não existe uma verdadeira responsabilização.”

Quatro anos antes do desastre, a Comissão Europeia concluiu que a Grécia estava a violar o direito da UE por não ter um organismo independente e permanente para investigar acidentes ferroviários. Apenas 13 dias antes do acidente fatal, a Comissão lançou oficialmente um processo de infração contra a Grécia, levando o caso ao Tribunal de Justiça da União Europeia por falta de implementação das normas de segurança ferroviária. Foi especificamente apontada a falta de transparência na manutenção da infraestrutura. Para muitos dos afetados, esta intervenção chegou tarde demais.

Konstantinos também sai à rua em cada aniversário da tragédia. O estudante grego de 25 anos está ao lado de Nafsika, em Lisboa. Para ele, a vida mudou da noite para o dia: Kwn”, como é conhecido, perdeu um amigo próximo no incêndio de Tempi. Ainda se lembra do momento em que um amigo lhe ligou a dar a notícia. Até hoje, sofre as consequências no dia a dia: “Tive um pequeno ataque de pânico quando estava num autocarro. Comecei a pensar que algo podia acontecer e fiquei aterrorizado. Lembro-me de pensar: ‘não vás para a frente do comboio’. Mas depois pensava que algo podia acontecer atrás. Não sabia onde me colocar.”

Impacto psicológico

O facto de tragédias como esta resultarem em ataques de pânico e numa perda massiva de confiança nas instituições faz todo o sentido do ponto de vista psicológico, afirma o psicólogo Rui Pedro Ângelo. Diretor do departamento do serviço municipal de Proteção civil, da Câmara de Cascais e professor no mestrado de Psicologia na Crise e na Emergência, da Universidade de Lisboa, o especialista explica que “um desastre como o de Tempi cria um efeito de contágio que atinge toda a sociedade”.

A psicologia identifica, como especifica Rui Pedro Ângelo, três tipos de vítimas: “as primárias, que se referem aos sobreviventes do comboio, muitos sofrendo de PTST (Perturbação de Stress Pós-Traumático); as secundárias, ou seja, pessoas como Konstantinos, que perderam entes queridos e desenvolvem sintomas semelhantes devido ao forte vínculo emocional. E terciárias, que são aqueles que apenas ouviram a notícia, mas que enfrentam agora uma profunda crise de confiança nas instituições.

“Noventa e nove por cento das pessoas não estavam lá nem conheciam ninguém que estivesse, mas se lhes perguntarmos se querem ir de comboio, dizem que não”, refere. Já não se trata apenas do medo de uma falha técnica, mas de um sentimento de abandono por parte do Estado. “Não é uma questão de ansiedade; torna-se uma questão de confiança e não apenas de impacto psicológico”, esclarece.

Kwn sente ambas as coisas. O que mais o magoa é a falta de justiça real. O jovem quer lutar pelo seu amigo e por todos os que perderam a vida em transportes públicos, mesmo estando no estrangeiro. “O mais importante é que as pessoas defendam os seus direitos. Quando algo assim acontece num país, não significa que não afete os outros.” Kwn apela a uma consciência partilhada sobre segurança, notando que acidentes semelhantes ocorreram na Sérvia, em Espanha e, mais recentemente, em Lisboa.

O acidente do elevador da Glória

Em Portugal, a história repetiu-se de forma trágica. Eduardo, um estudante de 19 anos, recorda o choque que sentiu ao saber do acidente com o icónico Elevador da Glória. “Foi realmente chocante porque não era apenas uma peça importante da identidade de Lisboa, mas pelas 15 pessoas – na altura não sabíamos que eram 16. Foi um choque para toda a comunidade e para os jovens”.

A 3 de setembro de 2025, o cabo partiu-se entre as carruagens do funicular. A carruagem que descia acelerou sem controlo, descarrilou e embateu num edifício. Dezasseis pessoas morreram e muitas outras ficaram gravemente feridas. Após o acidente, a operadora Carris enfrentou uma pressão enorme, com críticas sobre a manutenção de um elevador centenário que não terá sido atualizada para lidar com o aumento massivo de turistas.

Eduardo tomou decisões pessoais após o incidente: “Acho que isso teve impacto nos jovens e, tal como eu, creio que mais pessoas não vão usar elétricos nos próximos cinco a dez anos.” O jovem alfacinha critica ainda a falta de comunicação clara sobre as investigações ou reparações: “Não vi nada sobre ‘ok, a seguir vamos fazer isto’. Se o fizeram, não comunicaram tanto como o incidente em si.”

Para Rui Pedro Ângelo, recuperar a confiança depende de investimentos reais, mas sobretudo de transparência. “Temos de ser transparentes sobre as causas dos acidentes para que as pessoas compreendam. Os jovens não andam de comboio, por isso devemos primeiro entender este fenómeno para que eles possam fazer uma integração.” O especialista em proteção civil sugere que “em vez de políticos, sejam especialistas independentes ou professores universitários a explicar a situação perante as câmaras”.

Até que a confiança seja restaurada, Nafsika e Konstantinos continuarão a sair à rua todos os dias 28 de fevereiro. Para Kwn, a sensação de segurança só regressa quando recebe aquela mensagem reconfortante a dizer que os seus entes queridos chegaram bem ao destino. As cicatrizes do desastre acompanham sempre a viagem. “Tenho medo de receber uma chamada semelhante. E acho que isso está sempre na minha cabeça”, confessa Kwn enquanto entrega o próximo panfleto.

No interior do folheto, surge uma lista de 57 nomes das vítimas do acidente de Tempi, precisamente os mesmos que estão inscritos há três anos, na Praça Sytntagma, em Atenas, em frente ao Parlamento, servindo como um memorial constante da tragédia.

Vinte e nove de maio de 2026. Por decisão do Ministério Público, vários inspetores da Polícia Judiciária avançaram com buscas nas oficinas da Carris, em Santo Amaro, bem como na empresa de manutenção e nos domicílios dos dirigentes das duas empresas. O relatório preliminar do GPIAAK (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários), que foi conhecido em outubro de 2025, revelou que o cabo que se rompeu na cabine 1 foi comprado erradamente pela Carris e apresentava desgaste. O mesmo documento aponta que o tipo de cabo, utilizado desde 2022, não tinha certificação para ser utilizado em veículos de transporte de pessoas e não era o indicado para o ascensor, tanto do Lavra como da Glória. Em causa estão, pelo menos, os crimes homicídio por negligência e de violação das regras de segurança.

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