Sophia de Mello Breyner, no seu poema Tejo, destaca as cores deste rio, que tornam leve o corpo e a alma de quem o fita. Amália canta que o Tejo é namorado ciumento de Lisboa. Almada Negreiros, na Gare Marítima de Alcântara, pinta o Tejo das caravelas, dos navios e das faluas. O Tejo é um rio vivo. Mas não é só um rio. É a musa de várias gerações de poetas e cantadeiras. É uma inspiração para quem o sente e a recordação de quem nele passa. É, sobretudo, o orgulho da cidade que o recebe, vindo de Frías de Albarracín, em Espanha, a quase 2000 metros de altitude.
Desde o início da história humana que muitos povos do Rio Tejo se serviram: celtas, lusitanos, fenícios, gregos e cartagineses. Por cá, passaram também os romanos, os visigodos e muçulmanos. Mas foi só em 1147 que o Tejo viria a conhecer a fibra do recente povo português, quando Afonso Henriques, maduro e cheio de vontade, chega a Lisboa para a conquistar, com a ajuda dos Cruzados que se dirigiram para a Terra Santa, mas que aqui decidiram atracar os seus navios, quem sabe, também para contemplar as belezas do maior rio ibérico. A partir daí, nem tudo foi ventura, mas o Tejo permaneceu e, ao fim de tantos séculos, continua a ser o grande elemento definidor da paisagem de Lisboa.
A origem do seu nome é incerta, principalmente as raízes mitológicas. Antigamente, seria verossímil acreditar na lenda que diz que o Tejo deve o seu nome a Tago, um belo e corajoso rei ibérico, morto de forma bárbara por Asdrúbal, o famoso general cartaginês. Hoje, conhecemos bem a etimologia do Tejo. O latim, que lhe chamava “Tagus”, já tinha ido buscar a palavra a uma língua mais antiga. Mas a forma como conhecemos hoje, com um j em vez de um g, veio, seguramente, dos árabes. Mas as palavras são como os rios: elas fluem naturalmente e tomam formas imprevisíveis, por isso, o rio que conhecemos por Tejo pode, daqui a anos, ser conhecido por um outro qualquer nome que o presente ainda desconhece.
“Lisboa deve ao Tejo a sua fundação”
A frase de Luís Ribeiro demonstra como a relação entre o Tejo e a cidade é umbilical. Desde o momento em que o ser humano aprendeu a dominar a arte da navegação e quebrou as barreiras da geografia que ele usa os rios para diversas funções, em particular, fazer-se transportar mais depressa. Patrícia Fonseca, diretora do jornal Médio Tejo.net, sediado em Abrantes, mas que cobre toda a região do Médio Tejo afirma: “O Rio, até ao século passado, era uma autoestrada. Não havia estradas, era de barco que tudo se fazia.” Por esse, e por tantos outros fatores, como o abastecimento de água e a fertilidade dos solos, resulta que os humanos tenham sempre preferido as margens dos rios para desenvolver as suas comunidades. Não é por acaso que as principais capitais europeias – onde não há acesso direto ao mar – têm um rio que as atravessa, como o Danúbio, o Sena, o Tamisa e o Spree.
O Tejo não só é importante para definir a paisagem lisboeta como é imprescindível. Não existe Tejo sem Lisboa, uma vez que o rio é a alma da cidade. Para quem mora em Lisboa, o Rio Tejo é uma referência geográfica e afetiva por excelência. Numa cidade cosmopolita, moderna e com tantos centros, como a Baixa Pombalina, Belém ou o Parque das Nações, o Tejo é o denominador comum que define o conceito de centro. A expressão “descer até ao rio” não só indica um percurso, como é sinónimo de “passeio de lazer”. Mas nem sempre assim foi: também desciam até ao rio as calhandreiras, “escravas africanas que iam a casa das pessoas recolher as imundices e despejá-las no Tejo”, como relata Luís Ribeiro, e os homens que, em caravelas, partiam para o desconhecido, muitas vezes, sem retornar.
Além disso, Lisboa conjuga dois fatores e que, juntos, provocam um efeito que muitos consideram único no mundo: 2828 horas de sol por ano e um dos maiores estuários da Europa. A um olho desatento, estes elementos podem parecer inconciliáveis, mas a junção do sol e do rio conferem a Lisboa uma luz ribeirinha única, provocada pela reflexão solar na superfície do rio. Esta luminosidade característica distingue Lisboa de qualquer outra capital europeia e é um dos motivos pelos quais os turistas desejam tanto tirar fotografias na cidade – o chamado turismo “instagramável”. Em 1983, o realizador Alain Tanner chamou-lhe “Lisboa, Cidade Branca”, o filme viajou por alguns dos principais festivais de cinema europeus, como o de Berlim.
Por fim, o Tejo é uma fonte de inspiração literária onde múltiplos autores aclamados foram beber. “Camões cantou as ninfas do Tejo [Tágides]”, exclama Patrícia Fonseca. Entendendo a importância do Tejo para a literatura, Luís Ribeiro dedicou um capítulo do seu livro Histórias do Tejo inteiramente à poesia. “Foi por inveja”, admite o autor. “Também pela capacidade que os poetas têm de dizer aquilo que nem nós, jornalistas, estamos habituados a lidar com as palavras todos os dias conseguimos dizer.” Contudo, deste rol de poetas destaca-se aquele que viveu tantas vidas quantas a sua mente ousou sonhar e que transformou o tédio e a angústia de viver no seu maior génio: Fernando António Nogueira Pessoa. Os seus poemas podem ser eficazes pontos de partida para explorar as características deste rio único.
“O Grande Cais donde partimos”
Álvaro de Campos, o genial escritor da Ode Marítima era engenheiro. Fernando Pessoa fê-lo nascer em Tavira, mas logo o expatriou para a Escócia, seguindo depois para Inglaterra. Quando voltou a Lisboa, em 1926, não teria conhecimento de qualquer ponte sobre o Tejo na cidade. Na verdade, a primeira ponte sobre o Tejo em Lisboa – a 25 de Abril – só viria a ser inaugurada em 1966. Infelizmente, Álvaro de Campos morreu a 30 de novembro de 1935 (data de morte do seu criador), mas podemos argumentar que, dada a sua profissão, provavelmente ficaria impressionado com a maior obra de engenharia até então construída em Portugal.
Com a construção da ponte sobre o Tejo, o rosto de Lisboa ficaria alterado para sempre, pelo que é possível dizer que existe uma Lisboa antes e depois da ponte. “Lisboa tornou-se maior por causa da Ponte”, admite Luís Ribeiro. “Hoje em dia, não é só a Margem Norte. Hoje, Lisboa é Margem Norte e Margem Sul, e isso conseguiu-se graças à Ponte.”
Contudo, uma obra desta envergadura gera sempre diversas histórias. Nuno Duarte, no seu livro de ficção Pés de Barro (Prémio LeYa 2024) escolheu dar vida a um dos cerca de três mil homens que trabalharam na construção da ponte. Homens pobres, vindos do país profundo, e que a obra empregou. Estima-se que tenham perdido a vida cerca de 20 pessoas na construção da ponte. “Toda a gente chega a Lisboa por alguma razão, o Victor Tirapicos chegou por necessidade. E como ele tantos outros entram todos os dias por qualquer uma das portas da cidade (…)”. Assim começa este livro, que conta a história da ponte que Salazar nunca quis, mas que acabou por batizar.
Anos mais tarde, na Exposição Mundial de 1998, Lisboa dá mais um passo rumo à modernidade e constrói a Ponte Vasco da Gama, a mais longa da União Europeia, com 17 185 metros. Hoje, a vida nas pontes acontece tanto em cima delas, como por baixo. Por cima, de carro ou comboio, milhares de pessoas circulam todos os dias, seja por lazer, seja para trabalhar. Por baixo, ocorrem diversas manifestações culturais e comerciais, como o LX Factory, um espaço comercial e artístico debaixo da ponte 25 de Abril ou a Jornada Mundial da Juventude, que, em 2023, reuniu um milhão e meio de jovens no Parque Tejo.
“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio”
Lídia é convidada a contemplar o rio e, assim, também os turistas. Estes, simbolicamente, representam aqueles que se sentam à beira do Rio Tejo, observando o seu curso e deixando o tempo passar. Ao longo da história, o turismo no Tejo tem-se feito de pequenos gestos: os longos passeios junto ao rio, os momentos de contemplação da paisagem e até os banhos no rio.
Desde o século XVIII, na Europa, começou a ganhar força a ideia de que os banhos em meio natural poderiam ter benefícios para a saúde e o bem-estar. Esta prática difundiu-se também em Portugal, sendo inicialmente associada às camadas sociais mais favorecidas. Em Lisboa, o Tejo passou a ser um dos locais privilegiados para esse tipo de experiência, juntando atividades recreativas com cuidados com o bem-estar físico. Nesse contexto, figuras ligadas à família real, como a rainha Carlota Joaquina ou D.Amélia, contribuíram para a valorização destas práticas, ajudando a afirmar o rio como espaço de distinção social e de férias.
Mais do que um espaço funcional, o Tejo tornou-se também um lugar de contemplação e de representação estética da cidade. Essa dimensão foi reconhecida por viajantes e poetas estrangeiros, como Lord Byron, que evocaram a paisagem lisboeta nas suas descrições, reforçando o carácter singular do rio enquanto cenário cultural e emocional. “O Tejo foi inspiração para os maiores poetas que a língua portuguesa gerou. E não só: também alguns dos mais importantes escritores de língua inglesa vieram ao Tejo beber alento – incluindo Lord Byron.” Sarcasticamente, acabaria também por escrever: “Nado no Tejo e atravesso-o de uma só vez, e cavalgo num burro ou numa mula, e praguejo português, e tenho diarreia e picadas de mosquito. E depois? Não deve ser esperado conforto por quem vai em busca de prazer.”
Ao contrário do que acontecia no passado, o Tejo deixou de ser apenas um espaço terapêutico assumindo funções mais abrangentes de lazer e turismo. Nos dias de hoje, o turismo fluvial tem vindo a crescer, destacando-se os cruzeiros que permitem observar a cidade a partir do rio, bem como passeios de barco que percorrem zonas emblemáticas como Belém, o Terreiro do Paço e o Parque das Nações. Estas experiências oferecem uma perspetiva diferente da paisagem urbana, valorizando a relação entre a cidade e a sua frente ribeirinha.
Dos 230 km de Tejo português, é no distrito de Santarém que o rio passa mais tempo. São 12 os concelhos banhados pelo Tejo e totalmente influenciados nas suas paisagens. Abrantes é um desses concelhos
“Pelo Tejo vai-se para o Mundo“
Alberto Caeiro escreve que “Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Contudo, o Tejo é o rio que passa nas aldeias, vilas e cidades de milhões de pessoas entre Portugal e Espanha.
Apesar de Tejo ser sinónimo de Lisboa, a capital portuguesa é apenas o último reduto que as águas do rio encontram antes de se perderem no grande Atlântico. Dos 230 km de Tejo português, é no distrito de Santarém que o rio passa mais tempo. São 12 os concelhos banhados pelo Tejo e totalmente influenciados nas suas paisagens. Abrantes é um desses concelhos, e tem a particularidade de ser o ponto de contacto entre as duas “espinhas dorsais” de Portugal: o Rio Tejo, que percorre horizontalmente o centro do país e a Estrada Nacional 2, que atravessa de norte a sul o território português. “Aqui é exatamente metade do percurso”, salienta Patrícia Fonseca, do Médio Tejo. “Portanto, há muita gente que para sempre em Abrantes com caravanas e motos.”
A jornalista menciona ainda que as principais atrações turísticas de Abrantes prendem-se diretamente com o Tejo e com os seus afluentes, desde as praias fluviais, como a de Aldeia do Mato, aos passeios de barco. A repórter conta que, numa zona em frente a Abrantes, foi construído um açude, de propósito para criar um espelho de água em frente à cidade, como maneira de colmatar a falta de água sazonal. Dessa forma, é possível a continuação da prática dos desportos náuticos nas estações quentes, além de transformar positivamente o postal da cidade.
“Para lá da raia”, como escreve Luís Ribeiro no título do último capítulo do livro, o Tejo também está repleto de cultura e de vida. As suas centenas de quilómetros em território espanhol são marcados, sobretudo, pela diversidade. A cada quilómetro, o Tejo assume um novo rosto, moldado à semelhança das terras que atravessa, mas também deixando a sua marca. Uma das cidades onde esse sinal cultural é mais visível é Aranjuez. Nesta pequena cidade, Filipe II mandou erguer um Palácio com a ideia fundamental de aproveitar o rio Tejo ao máximo, principalmente para navegar.
Só que aquilo que inicialmente eram para ser navegações funcionais, de Aranjuez até Toledo (e depois Lisboa), transformaram-se em navegações de recreio, muito performáticas, em bom estilo cortesão. “Assim se criou a Esquadra do Tejo: uma frota de 16 barcas e cinco faluas, incluindo uma falua real, dourada. Era nessa que o rei e a rainha passeavam, acompanhados pelos 15 músicos que ajudavam a tornar as viagens idílicas”, escreve Luís Ribeiro, descrevendo todo o ambiente palaciano do Palácio Aranjuez. No final de contas, o que subsiste desta cidade é, sobretudo, o luxuoso conjunto palaciano (com os seus frescos jardins), o Museu das Faluas Reais, com um espólio notável que pode ser visitado até hoje, e o Concerto de Aranjuez, a magnum opus do compositor Joaquín Rodrigo. O compositor que, apesar de cego desde a infância, atingiu o expoente máximo da música com o seu concerto para guitarra clássica e orquestra, inspirou-se nos cheiros, sons e belezas dos Jardins de Aranjuez para compor a sua obra.
O Tejo hoje
O rio Tejo sempre desempenhou um papel central na história e identidade de Portugal, especialmente na vida das populações ribeirinhas. Ao longo do tempo, no entanto, a relação entre os habitantes e o rio tem vindo a transformar-se, acompanhando o ritmo acelerado da vida moderna e as dinâmicas urbanas. Neste sentido, torna-se pertinente refletir sobre uma questão fundamental: como redescobrir o Tejo para os habitantes de hoje?
É neste contraste entre o ritmo acelerado e a crescente valorização cultural dos espaços ribeirinhos que surge essa mesma questão. Atualmente, é visível uma crescente procura dos espaços junto ao rio, tanto para lazer como para atividades culturais. Esta valorização pode também trazer desafios, nomeadamente o aumento do turismo, que tende a transformar estes espaços em locais mais orientados para visitantes do que para os próprios habitantes. Torna-se necessário proteger o Tejo do turismo excessivo.
Numa realidade em permanente mudança, a relação das pessoas com o Tejo também se transforma continuamente. Como refere Patrícia Fonseca, diretora e jornalista do jornal MedioTejo, “têm sido desenvolvidas infraestruturas que promovem uma maior proximidade com o rio, como percursos pedestres e cicláveis ao longo das suas margens. Estas iniciativas permitem uma vivência mais próxima e consciente do rio, incentivando os habitantes a redescobrir o Tejo no seu quotidiano, não apenas como espaço de passagem, mas como lugar de lazer e encontro”.
Mais do que um elemento paisagístico, o rio deve ser entendido, como lembra Patrícia Fonseca, “como um bem comum, cuja preservação e valorização dependem do envolvimento coletivo”. Redescobrir o Tejo implica, portanto, encontrar um equilíbrio entre a sua utilização e a sua proteção, garantindo que continue a ser um espaço acessível e sustentável para todos.