Editorial Diário LX: País que amanhece

Lisboa é uma cidade favorável a um estado de permanente descoberta. Dos bairros antigos e tradicionais às zonas mais modernas, a capital ou o que esconde dos olhares apressados do dia a dia consegue surpreender até o mais antigo dos alfacinhas ou quem escolheu a azáfama dos dias para viver.  Mesmo que habitemos no centro de Lisboa e estejamos habituados a calcorrear as ruas da cidade, a certa altura, surpreendemo-nos com algum monumento, edifício, jardim, beco, escultura ou pintura de rua em que nunca tínhamos posto os olhos – pelo menos, acreditamos nunca ter visto.

No meio dos caos do trânsito, dos transportes que tardam em chegar ou, quando aparecem, rebentam de gente, do fluxo humano que se movimenta apressado e tenta lutar contra os horários fixos que não esticam, há um momento em que paramos e falamos para dentro de nós: “Vivo aqui há 30 anos e nunca tinha reparado na mensagem que está escrita naquela estátua, sempre rodeada de automóveis; nunca observei os detalhes daquela escultura de Soares Branco numa porta qualquer da Avenida de Roma … aquele girassol enorme que cresce em qualquer varanda da cidade, aquele buraco perigoso e que precisa de intervenção da junta de freguesia…nunca vislumbrei que, afinal, as pombas podem ser um belo elemento decorativo da paisagem da cidade e não uma ameaça à saúde pública.”

O jornal Diário LX pretende ser uma companhia nessa pausa. Procura encontrar o que a pressa não permite. Inspirado ao batismo nos jornais vespertinos da segunda metade do século XX que se tornaram imprescindíveis nos momentos de ócio, depois da saída dos empregos, mas com uma abordagem jovem e multimédia do século XXI, apresenta como principal secção Lisboa, Cidade Aberta, mas não é a urbe em estado de sítio de Roberto Rossellini (1945) que se rende para que não destruam mais vidas e património.

Pelo contrário, o nome da secção abre os horizontes aos conceitos predefinidos que temos sobre um lugar; contraria a ideia de que Lisboa é o país e o resto é paisagem. A inspiração do título da principal secção do jornal surge pela beleza da história do clássico do neorrealismo italiano. “Roma, Cidade Aberta” é um grito de liberdade e de resistência. No fundo, mostra-nos que a religião e os que creem estar do lado oposto, nesse caso, os comunistas, podem juntar-se e resistir. E é isso que se pretende de um projeto que nasce em 2026, quando já se sabe as consequências da desinformação que as redes sociais potencializaram, a descredibilização profissional provocada por falta de literacia e por narrativas de ódio, entre tantos males que queremos, de alguma forma, contribuir para amenizar.

Se Lisboa é uma constante descoberta, o País e o mundo são fontes inesgotáveis de curiosidade. O Diário LX, a secção Lisboa, Cidade Aberta e todas as outras editorias que o constituem não pretendem dirigir-se apenas às 575.739 pessoas – mais todos os bebés que entretanto nasçam – que vivem nas 24 freguesias da capital; quer chegar além da população dos 16 concelhos que compõem o distrito, que serão quase dois milhões e 200 mil habitantes. Ambiciona aproximar-se dos que vivem nos restantes 17 distritos que dividem Portugal Continental, assim como os habitantes das regiões autónomas da Madeira e dos Açores. Iremos onde existe um tema, um assunto que vale a pena contar ou alguém cuja história será interessante conhecer. Mas se o nosso alcance for apenas um grupo de pessoas, já estaremos a fazer diferente. No Desporto, trazemos temas, histórias da liga dos últimos ou dos primeiros, desde que sejam curiosas e interessantes; revelamos os detalhes de modalidades que não enchem estádios, nem juntam multidões. Na Sociedade, entramos nos mercados ou noutros lugares e acompanhamos associações de solidariedade social. 

Tratando-se de um projeto experimental, não tem qualquer pretensão de concorrer com jornais maduros – online ou em papel – da zona da Grande Lisboa. Não temos rivais ou concorrência. Apenas vizinhos mediáticos que muito admiramos pelo excelente jornalismo independente que têm desenvolvido.

O Diário LX experimenta para tentar construir um jornalismo em que as pessoas acreditem. Como se fosse uma escultura humana a quem acrescentamos elementos e partes do corpo até ficar perfeito. Tem, como os seres vivos, o seu tempo de crescimento. Numa primeira fase, será mais sereno e depois mais multiplataforma e interativo. Sem correr contra o tempo, a proposta de jornal que lhe apresentamos desprende-se das âncoras da atualidade que, por vezes, transforma o jornalismo num barco à deriva ou num espaço ruidoso onde não dá vontade de entrar e muito menos permanecer.

Não poderia ser de outra forma. O Diário LX nasce na internet e será apenas mais um grão de areia no infinito que é o ciberespaço. É um jornal redigido por quem está a aprender a ser bom jornalista e editado por quem já acumulou experiência jornalística ou conhecimento científico. Preza, acima de tudo, a ética e deontologia jornalística, ao mesmo tempo que deseja muito que os autores dos trabalhos que reunimos se tornem os melhores profissionais do futuro. O erro é admitido. Sem erro não se aprende. Mas tentamos corrigi-lo a tempo de servir de lição.

O Diário Lx nasce na redação do Laboratório de Tendências do Jornalismo – estrutura do LIACOM (Laboratório de Investigação Aplicada em Comunicação e Media) – e com o reconhecimento que a Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) – Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) conquistou ao longo de 36 anos de existência, mas prometemos total independência de qualquer organização na seleção dos temas a abordar.

Pretendemos evitar o negativo ou destrutivo só por que nos disseram que seria essa a essência do jornalismo, embora nunca deixaremos de fazer contrapoder. O Constructive Institute, que funciona na Universidade de Aahrus, na Dinamarca, tem chegado a conclusões demasiado interessantes para não serem consideradas na criação do Diário LX. As pessoas estão cansadas de alarmismo, de sensacionalismo e de negativismo com informações que nada acrescentam à sociedade civil a não ser contribuir para elevar os níveis de ansiedade, desconfiança e animosidade coletiva.

Em entrevista à Fundação Hirondelle – Media for Peace and Human Dignity, Ulrik Haagerup refere que “o jornalismo tem de passar a assentar em três pilares”. Passo a citar: “Primeiro, tem de ser responsável e tentar fazer ou trazer o bem para a sociedade. Neste sentido, uma boa história não tem, necessariamente, de ser uma má história, ao contrário do que nos ensinam desde sempre.” Pode ser, como refere o cofundador do Constructive Institute, “uma história inspiradora que partilha o que alguém fez de positivo, que traz novas ideias e soluções. Depois, um relato justo e equilibrado de determinado acontecimento”.

Claro que é importante, considera Ulrik Haagerup, que “os jornalistas deem a notícia de determinado ataque terrorista ou outra realidade. Apenas deve evitar o exagero, a repetição até à exaustão desse acontecimento só por que gera cliques”. Em palavras do mesmo investigador dinamarquês: “Devemos lembrar também que o risco de morrer num ataque em 2026, na Europa, é muito inferior do que era em 1974, mostrando dados, estatísticas que contrariam perceções erradas.  Noticiamos, por exemplo, um acidente aéreo, mas é dispensável o close up dos feridos ou destroços, assim como não pode ser importante estar no local do acidente antes da ambulância. Talvez nesse momento, podemos recordar a quantidade de gente que morre em acidentes de carro. O avião não é pior”. 

A terceira proposta é mudar o papel do jornalismo. “Podemos usar o microfone sem que seja uma espada apontada ao outro.” No entender do especialista, essa postura “só aumenta a hostilidade entre as pessoas que detêm o poder e os jornalistas”. E sugere: “Devemos antes perguntar o que pode ser mudado para resolver a situação; quais as medidas propostas, etc. Discutir o quando e o onde se pode mudar ou resolver determinada situação.” Esse deve ser, segundo o Constructive Institute, o novo papel do jornalista.

Orientados pela ideia de construção, seguimos este rumo em todas as suas dimensões. Temos o Jornalismo como laboratório e a Ciência como suporte. Não existe publicidade, nem lucro; apenas histórias e assuntos de partilha que podem ser fontes de conhecimento sobre a cidade, o país e o mundo, mas também gerar saber sobre o que deve ser o caminho do próprio jornalismo. A tendência que todos identificamos dos últimos tempos até pode ser o clickbait ou os cliques para usar o português, mas essa só tem contribuído para descredibilizar o jornalismo.

No Diário LX, trabalhamos em equipa para as pessoas e não para os algoritmos. A inteligência artificial existe e será uma excelente tecnologia para obter mais facilmente determinados dados ou facilitar tarefas rotineiras. Lidaremos com as novas ferramentas com a curiosidade e o sentido crítico necessários ao cumprimento da missão do jornalismo: descobrir a verdade, mostrar a realidade e ajudar a construir um mundo melhor. É nesse sentido que estes jornalistas em crescimento estão a aprender e a trabalhar. Espero que goste do tempo que passa connosco, o Diário LX. 

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