O peso dos últimos dias

O fracasso das primeiras eleições gerais e multipartidárias que se realizaram em Angola, entre 29 e 30 de setembro de 1992, para eleger o Presidente da República e os deputados da Assembleia Nacional gerou uma onda de violência nas principais cidades do país. Pelas ruas, milhares de pessoas contestavam os resultados que entregavam a vitória ao MPLA – o partido que se encontrava no poder desde a Independência, em 1975, e com José Eduardo dos Santos como Presidente desde 1979 – e davam como vencidos os oito partidos da oposição, em particular a UNITA, que recusou a derrota alegando ter existido fraude eleitoral.

Depois de 18 meses de tréguas de uma guerra que se prolongava há quase duas décadas, com alguns momentos de interlúdio, no lugar da esperança proporcionado pelo acordo de Bicesse – assinado a 31 de maio de 1991, no Estoril, e que ditou o cessar-fogo entre opositores -, aconteceu o pior em Angola: o massacre do Dia das Bruxas. Milhares de eleitores que votaram na UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola) e na Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) foram assassinados, incluindo figuras de referência ligadas a estes partidos, a 30 de outubro de 1992. Estima-se que neste período possam ter sido mortos entre dez mil a 40 mil apoiantes da UNITA.

Como reação, o partido de Jonas Savimbi lançou uma forte ofensiva e tomou a cidade de Huambo, após intensos bombardeamentos que causaram mais de dez mil mortes. Entre janeiro e março de 1993, a capital do planalto central ficou completamente em ruínas. Não era apenas Huambo que se encontrava destruída. Cuíto sofreu um cerco implacável que durou aproximadamente nove meses. A destruição foi quase total e a população civil sobreviveu em condições humanitárias críticas nos subterrâneos dos edifícios. As fotografias que circulavam nas primeiras páginas dos jornais alertavam o mundo para o drama humanitário vivido em Angola por causa da Guerra Civil.

Num momento de forte apogeu da Imprensa portuguesa, os jornalistas viajaram para Angola, na tentativa de entrar em Huambo e fazer a cobertura do conflito na mais promissora ex-colónia portuguesa. A SIC tinha iniciado emissões a 6 de outubro de 1992. A estação de Carnaxide assinalava o momento de viragem e de transformação da paisagem mediática portuguesa ao ficar para a história como a primeira televisão privada a operar no país. A 20 de fevereiro do ano seguinte, foi a vez da TVI começar a emitir desde os estúdios anexos à Igreja da Nossa Senhora de Fátima, na Avenida de Berna. Com financiamento da Igreja e com direção de Informação do padre António Rego, seria este mesmo canal que criaria, sete anos mais tarde, o programa televisivo “Big Brother”. O espetáculo e o lucro acima de tudo. Passemos à frente.

Nesses anos de explosão das televisões privadas, as redações estavam ao rubro e a jovem democracia fervilhava, mesmo no que hoje chamam de interior do país. Os americanos tinham invadido o imaginário coletivo português dos jovens que nasceram no pós-25 de Abril com heróis contra vilões. Da Marvel Comics aos heróis da Liga da Justiça, da DC Comics, tudo era possível, se quiséssemos muito. Até os músicos da pop nos tinham ensinado que uma música podia ajudar a combater a fome em África. Por isso, o mundo iria ser sempre melhor. Em Londres, os Sex Pistols cantavam para Deus salvar a rainha e os The Soup Dragons gritavam para não termos medo da nossa liberdade. E estava tudo bem.  O que acontecia num país irmão com a mesma língua não fazia sentido para quem pouco sabia de política internacional.

A adolescência era demasiado leve para encarar o problema alheio muito a sério. Nos corredores dos liceus, os estilos e a maneira de estar eram diversos. Nos tempos livres, existiam os desportistas, os que se divertiam nos pubs, imitações do submundo britânico, ou à noite, nas discotecas, e os que acreditavam que, um dia, iriam mudar o mundo. No concelho onde nasci e cresci, existiu até um bar de nome Bunker e outro Manobras. O que lá aconteceu, ficou por lá. No final, os que se preocupavam com o estado do planeta também acabavam na discoteca, mesmo que fossem arrastados por quem não queria deixar os “esquisitóides” para trás. No fundo, perdurava o sentimento de amizade e de coletivo, em que as diferenças não eram motivo para virar as costas ao outro. 

Na altura, eu era uma adolescente a assistir aos piores momentos de Angola através de um ecrã. Desconhecia o peso desses dias no verdadeiro velho continente, mas sentia que era terrível pela realidade que invadia o meu pequeno mundo através do ecrã da RTP ou das primeiras páginas de jornais que me chegavam a casa pela mão do meu pai.

Huambo, na estação televisiva que presta serviço público. Castelo Branco, 1993.  A olhar para o ecrã, que ocupa estrategicamente uma zona central da sala, deparo-me com as imagens que chegam de Angola. Um homem desesperado está sentado na berma de um passeio, numa rua destruída da cidade. Leva as mãos à cabeça e chora. Nesse minuto, uma repórter aponta-lhe o microfone. Em profundo sofrimento, conta-lhe que tem o filho subterrado nos escombros. A jornalista pergunta-lhe: “Como é que se sente…” Naquele preciso momento, dá-se um estalo na minha mente. Com a arrogância dos meus 17 anos, recebo a pergunta como a mais estúpida do planeta. “Ó parva, como é que te sentirias se o teu filho estivesse debaixo de escombros…”

Aquela situação jornalística superava todos os limites da desumanização, da incapacidade de alguém sair da sua bolha, a menos que seja em proveito do espetáculo que o sofrimento dos outros proporciona. Os dois anos de Jornalismo que frequentei no ensino secundário, no liceu Nuno Álvares, foram suficientes para me ensinar que aquilo era o oposto do que constava nos manuais da disciplina, os quais ainda hoje guardo em arquivo. Era contrário a qualquer rasgo de decoro humano. Hoje, a maturidade permite-me perceber que talvez a jornalista estivesse sob uma enorme pressão.

Estava quase a completar 18 anos e em breve seria o momento de escolher que licenciatura seguir no Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. Prepotência ou ingenuidade, a pior reportagem do mundo sobre a guerra de Angola levou-me a querer ser jornalista para combater o mau jornalismo. Só no ano seguinte ouviria a melhor peça gravada entre os escombros da guerra: a reportagem que entregou o Grande Prémio Gazeta, Reportagem de Rádio ao jornalista e professor Emídio Fernando, que infelizmente faleceu vítima de cancro, em outubro 2024 – 30 anos depois de a rádio TSF emitir “Os últimos dias da UNITA em Huambo”.

Ao chegar às redações, encontrei a profissão repleta de jornais falidos, mas também de títulos recém-criados a dar que falar. Ter formação superior exclusivamente em Jornalismo não era garantia de conseguir sobreviver condignamente da profissão. A agravar as dificuldades, vinha de um sítio demasiado remoto para vingar numa atividade que estava dominada pelos apoiantes de alguns partidos, pelos amigos comuns da universidade ou de outros carnavais. Mesmo que, em alguns momentos, fosse longe dos protagonistas, ao longo de 30 anos, assumi que uma das minhas causas seria lutar pelo jornalismo.

Se as redações estavam dominadas por quem tinha mais meios ou era mais astuto, a partir de 2015, a educação tornou-se a escada mais justa para defender o lado bom da força. E mesmo nos lugares menos bons do jornalismo por onde passei, lutei para que a privacidade e a dor, da rua ou do fim do mundo, fossem salvaguardadas.

Para quem aprecia a reflexão com algum tempo de preparo e detesta a pressão do imediato, a televisão estava descartada, mas a primeira reportagem televisiva que realizei na licenciatura, já na Escola Superior de Comunicação Social, chamava-se “Lisboa, Africana”. Há instantes que nos marcam e não sabemos porquê. Mas há realidades que já deveriam ser diferentes e tão pouco não compreendemos por que ninguém as consegue alterar. Há dias, uma menina de nove anos, de nacionalidade angolana e a viver há seis em Portugal, disse-me, também de um banco da escola, que no seu país ainda há crianças que trabalham em vez de estarem sentadas no lugar que lhes pertence.

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