Tendência de comentário político mais à direita pode estar a comprometer o pluralismo

Com a queda de Portugal da 7ª para a 13ª posição no índice de pluralismo dos media da União Europeia, a liberdade mediática nos órgãos de comunicação pode estar a ser posta à prova. O aumento dos comentadores políticos nos canais de televisão, sobretudo mais à direita, é apontado como um dos fatores que contribuí para a diminuição de diversidade. Tudo depende de quem são e como são escolhidos

A televisão ainda continua a ser um dos meios de comunicação mais utilizados pelos portugueses para consumo notícias – só recentemente ultrapassada pelas redes sociais com uma ligeira diferença – e a aposta dos canais públicos e privados nos comentadores cresceu exponencialmente nos últimos tempos. Em nove anos, como confirmou o estudo de 2023 do Medialab do ISCTE, registou-se um aumento de 47% de comentadores políticos nas televisões.

Cada acontecimento que é noticiado tem direito a ser comentado, maior parte das vezes, durante mais tempo do que o dado à notícia. Paulo Baldaia, jornalista e analista da SIC Notícias, sublinha este facto: “O espaço de comentário nas televisões é cada vez maior porque a comunicação está muito presa a esse modelo. queda de Portugal para a 13ª posição no índice de pluralismo dos media da União Europeia

Ao crescimento dos comentadores e do espaço de comentário junta-se o aumento de jornalistas que simultaneamente assumem o papel de analistas. Segundo o estudo do MediaLab,a consequência destes fatores é a “diminuição do espaço de informação factual no que toca, nomeadamente, aos canais noticiosos”. A perceção é a mesma: mais comentários é igual a uma informação menos objetiva, sobretudo, quando existem mais figuras de direita, como demonstra a investigação do Medialab.

Paulo Baldaia, que participa em vários programas da SIC com análise política, destaca a necessária experiência do jornalista quando também passa a assumir o papel de comentador

Paulo Baldaia, que deixa explícito os diferentes tipos de comentadores existentes – “analistas políticos, representantes partidários e jornalistas” – critica a crescente aparição de jornalistas que comentam e analisam as notícias: “Sou da opinião que há excesso de jornalistas a comentar porque considero que é realmente necessário haver experiência. O que estamos à espera é que o jornalista utilize a sua experiência jornalística para nos explicar o que está a acontecer”, refere. O analista da SIC considera que “é preciso viver e noticiar processos políticos e sociais para puder chegar a ser comentador”.

Felisbela Lopes, professora de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho, comentadora, cronista e especialista em informação televisiva, explica que o “excesso de opinião feito pela classe política e pela classe jornalística se deve ao facto de existir uma carência de especialistas. O espaço de comentário tem de existir nas televisões e os tempos desse espaço são preenchidos por aqueles que estão mais disponíveis, que são os políticos e os jornalistas”.

Momento da escolha

Num tempo em que “o mundo está infestado de comentadores”, como dizia, segundo Paulo Baldaia, Francisco Pinto Balsemão, é preciso que qualquer analista e comentador detenha as características e se enquadre nos critérios de seleção necessários para ser contratado para um órgão de comunicação.

A defesa do pluralismo e da diversidade é sempre, no entender de José Gomes Ferreira, diretor-adjunto da SIC, o primeiro critério a ter em conta por aqueles que fazem parte da equipa de seleção. “Apesar de sabermos que todos os comentadores têm, cada um, a sua preferência mais política ou ideológica ou partidária, tem de haver sempre um critério editorial no sentido de escolher as pessoas que representem diversidade de opiniões para não ser um bloco completamente direito ou completamente esquerda ou completamente central”, afirma.

José Gomes Ferreira, da SIC, considera que o comentador tem de ser alguém com fortes convicções e que defenda o bem comum

O respeito pelos valores democráticos faz igualmente parte das características de base no momento da escolha. Tanto a SIC como a RTP, como qualquer outro canal de televisão, devem procurar pessoas que, mantendo a sua opinião, ideologia ou visão, tenham sempre um discurso democrático. Como declara José Gomes Ferreira: “Um comentador não pode ser alguém que tenha caído em descrédito, que tenha revelado informações falsas, nem que pelo seu comportamento se tenha revelado menos ético. Tem de ser alguém que pelas suas convicções, concorde-se ou não, seja coerente, lógico no que diz e que visivelmente procure o bem-estar coletivo.”

Também António José Teixeira, jornalista, comentador e antigo diretor de Informação da RTP realça a importância dos espaços de comentários se desviarem de algo que vá contra os valores base da sociedade. “Um discurso extremista, que possa ferir os valores democráticos, é, obviamente, algo que não terei em consideração e, pelo contrário, procurarei que não esteja na antena”, remata.

Para além de se andar à procura de um olhar ético, alguém que vá falar à televisão tem de ser, segundo José Gomes Ferreira, um “bom comunicador”. Em palavras do diretor-adjunto de Informação, define-se “um bom comentador por alguém que sabe passar a mensagem, que cria empatia com o público, que suscita sentimentos de atração pelo discurso que é dito – mesmo quando é algo polémico -, ou não indiferença pelo menos”.

De mão dada com o discurso democrático e com a capacidade de comunicação está um terceiro fator determinante no processo de seleção: a notoriedade. Felisbela Lopes explica que os comentadores são “líderes de opinião”e que, segundo a especialista, para conseguirem alcançar este ‘poder’ de ajudar a conduzir a opinião das pessoas sobre um determinado assunto, “devem ter credibilidade mediática e notoriedade”.

Felisbela Lopes, investigadora na Universidade do Minho e comentadora da RTP, aponta valores como a credibilidade e a notoriedade dos comentadores

Um reflexo da Assembleia

O espaço de comentário das televisões reflete o paradigma político nacional e internacional. Portugal testemunhou uma mudança de espetro político na Assembleia da República, que tem sido acompanhada pelos comentários televisivos. Como menciona o mais recente estudo MediaLab do ISCTE: “Registou-se maior predomínio de número de comentadores com posicionamento político à direita nas televisões, passando de 22 em 2016 para 37 em 2023”. 

O pluralismo exigido aos meios de comunicação no espaço da informação é menor do que o que acontece no espaço do comentário, o que faz com que os órgãos se possam posicionar mais à direita, à esquerda ou ao centro. Contudo, apesar de procurarem dar voz aos partidos escolhidos pela população, os canais televisivos também têm os seus critérios de contratação relativamente a ideologias políticas, sempre com o objetivo de proteger os valores democráticos. Paulo Baldaia explica que “por vezes, as televisões podem estar à procura de alguém com uma certa visão para assumirem um posicionamento, mas que noutros casos querem um comentador de um espetro político específico – como por exemplo o programa da SIC “Linhas Direitas”, que queria só pessoas de direita – e que isso pode levar a negar alguma possível contratação ou convite”.

Apesar do reconhecimento nesta procura específica, o jornalista não deixa de criticar o tempo de antena de comentário reservado a André Ventura e ao partido que lidera: “As televisões estão a procurar dar ao Chega aquilo que ele representa enquanto partido e eu não vejo que esse espaço dado às ideias de um partido faça sentido no espaço do comentário político. Parece-me que há uma preocupação excessiva por ter comentário político para garantir essa diversidade, quando o comentário político não deve ter essa preocupação.”

Os canais televisivos procuram equilibrar o posicionamento político e o dar voz aos partidos representados. No entanto, António José Teixeira confessa existir um sentimento de responsabilidade acrescida por parte da RTP, enquanto canal público, na garantia da independência e do pluralismo: “A RTP tem obrigações redobradas em termos de diversidade e pluralismo. Tem de apresentar um posicionamento independente em relação aos vários poderes, não apenas o poder político, seja público ou também os poderes privados.”

António José Teixeira, antigo diretor de informação da RTP, lembra que a estação pública tem obrigações redobradas em termos de diversidade e pluralismo

Mulheres em antena

A oportunidade concedida a mulheres comentadoras é um outro fator estudado no processo de seleção. Existiu um aumento das contratações de pessoas do sexo feminino para comentar, mas o que indica o estudo MediaLab é que “em todos os espaços de comentário televisivos apenas 24% são mulheres.”

José Gomes Ferreira declara que, no momento da contratação, o “género masculino ou feminino não interfere, desde que a pessoa seja boa comunicadora. Isso não tem a ver com as matérias, podem falar de tudo e de mais alguma coisa”.

No entender do mesmo analista e apesar dos dados apresentados, “a contratação de mulheres é uma tendência crescente, não só na política, mas também no desporto, área em que há cada vez mais comentadoras. É na política, na economia, na sociedade em geral; é nas questões de justiça.”

Maria Castello Branco, da CNN Portugal, é das comentadoras mais apreciadas pelas novas gerações. De acordo com o estudo do Medialab do ISCTE, apenas 24% dos comentadores portugueses são mulheres

Variedade de comentadores

No momento da escolha não são apenas as características pessoais que pesam. Deve-se ainda ter em conta o exercício profissional dos candidatos. Os critérios base de seleção são iguais para todos, porém, o que se exige, na hora do comentário, a um analista político é distinto do que se solicita a um representante partidário e é diferente do que se pede a um jornalista.

António José Teixeira constata as diferenças entre cada uma das ‘categorias’, explicando que “quando se trata de um analista privilegia-se sobretudo a independência”.  Também para um jornalista – que tanto José Gomes Ferreira como António José Teixeira diferenciam e esclarecem que “são mais considerados analistas do que comentadores” –, a independência é o mais importante e deve ser preservada: “O que me interessa nestas circunstâncias é que o jornalista nos dê conta da sua experiência, daquilo que conhece em termos de passado, de contexto, e que pode acrescentar para ajudar o espectador a entender melhor o que é que está em causa”, explica o antigo diretor de informação da RTP.

Quando se trata de um representante partidário, os três jornalistas concordam que devem ser convidados para um estilo diferente de comentário, por exemplo para um debate. Porque, ao contrário de um jornalista, os representantes partidários – conclui Paulo Baldaia – “não estão ali para criticar o seu partido”.

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