Olival tradicional e intensivo no Alentejo: Oportunidade económica ou atentado ambiental?

A rápida expansão do olival intensivo no Alentejo está a transformar a paisagem agrícola da região e a impulsionar a produção nacional de azeite, mas não deixa de levantar preocupações sobre o impacto ambiental. Os ambientalistas alertam para a sustentabilidade dos recursos, se o crescimento deste meio de produção continuar

Árvores espaçadas, de raízes profundas e copas largas constituem o olival tradicional, muito presente em algumas regiões do país. As antigas oliveiras resistem ao clima agreste, em particular, na região do Alentejo, o que as fixa às paisagens por séculos e contribui para o equilíbrio natural do território. Ao apostar no crescimento lento das oliveiras, muitas vezes sem rega, os produtores tradicionais têm-se focado, ao longo de décadas, na qualidade do azeite, ainda que implique uma produção em menor quantidade. O azeite que produzem é, na verdade, um dos maiores orgulhos nacionais. Não será por acaso que os azeites de Portugal foram os mais premiados no 4.º Concurso da Ovibeja, em 2024.

O olival intensivo, que passou a dominar a paisagem em distritos como Beja, veio contrapor o método tradicional. Com foco na produtividade, as árvores são plantadas muito próximas umas das outras, numa densidade que pode chegar às 600 oliveiras por hectare, e são alimentadas por sistemas de rega gota a gota que lhes fornecem água e nutrientes de forma controlada. Em poucos anos, começam a dar fruto e a colheita processa-se quase inteiramente por máquinas. Em troca, a terra precisa de mais água, mais fertilizantes e de cuidados constantes para acompanhar o alto rendimento.

A colheita moderna tem-se expandido de forma impressionante no Alentejo. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, o Alentejo detém cerca de 80% da produção nacional de azeite, sustentada em 66 000 hectares de olival intensivo em sebe, dos quais 53 mil foram plantados na última década. A construção de grandes barragens, como a do Alqueva, e o aumento da procura mundial de azeite de qualidade abriram caminho para grandes investimentos, sobretudo estrangeiros.

Hoje, o olival intensivo cobre mais de 550 mil hectares do distrito de Beja, transformando rapidamente a paisagem e a economia do Alentejo. Entre 2021 e 2022, Portugal produziu cerca de 225 milhões de litros de azeite, um recorde histórico, que o consolidou como o sétimo maior produtor mundial e quarto maior exportador global. A região do Alentejo concentra quase metade da área total de cultivo no país, pelo que se destaca enquanto epicentro do confronto entre tradição e modernidade.

A nova realidade está a dividir a região. Enquanto alguns veem no olival intensivo uma oportunidade de desenvolvimento, inovação e crescimento económico, outros alertam para os riscos que esta mudança pode acarretar a médio e a longo prazo. Ana Rita Martins, técnica de biologia de conservação pela Liga para a Proteção da Natureza (LPN), alerta para o impacto socioeconómico que o divórcio entre o modelo de produção intensivo e as populações locais gera: “O próprio efeito na especulação imobiliária, com o aumento exponencial do preço da terra, apenas acessível a grandes empresas ou fundos imobiliários, provoca uma alteração na propriedade da terra com inevitáveis disrupções sociais”, confirma.

O “ecocídio” das culturas intensivas

A bióloga não deixa de alertar para as consequências ambientais que a instalação de olivais intensivos implica, como “a transformação de áreas de culturas anuais de sequeiro, importantes para manutenção da biodiversidade local, como aves estepárias, numa cultura perene de gestão muito intensiva, com maior aplicação de agroquímicos (fitofármacos e fertilizantes) e consumo de água”.

Ainda que eficiente, o cultivo intensivo do olival impõe desafios significativos a nível ambiental. Estudos da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) confirmam que as monoculturas super intensivas suportam apenas metade das espécies de aves e morcegos em comparação com os olivais tradicionais, o que resulta numa perda acentuada de biodiversidade. “A alteração da paisagem e a perda de habitats é reconhecidamente responsável pelo declínio de diversas espécies, incluindo algumas ameaçadas, nomeadamente de aves de meios agrícolas, como sejam o sisão, a abetarda ou a águia-caçadeira”, recorda Ana Rita Martins.

A Associação Sistema Terrestre Sustentável ZERO, uma Organização Não-Governamental (ONG) sediada em Lisboa, denuncia que o megaprojeto de regadio do Alqueva, com mais de 160 mil hectares convertidos em monocultura, constitui um “ecocídio” para o território, agravado por infrações frequentes ao ordenamento e contaminação de linhas de água.

O diretor executivo da empresa Risca Grande, sediada em Serpa, Alfred Zehnder, reforça o impacto ambiental negativo que as produções intensivas preveem: “Os olivais intensivos em modo de produção integrada têm um impacto negativo nos solos e águas subterrâneas e superficiais devido à aplicação excessiva de herbicidas, pesticidas e fertilizantes”.  

Fundada em 2007 pelas famílias suíças Bernhard e Zehnder, a empresa gere cerca de 220 hectares de olival, com mais de 35.000 oliveiras, algumas com até 800 anos de idade. A marca “Olival da Risca”, lançada em 2016, reflete o compromisso da empresa com a agricultura tradicional e sustentável. As azeitonas são colhidas manualmente e processadas no lagar da propriedade em menos de quatro horas, preservando a frescura e qualidade do azeite.

Enquanto produtor tradicional, Alfred Zehnder não deixa de denunciar o “impacto negativo de olivais tradicionais na erosão dos solos e perda da matéria orgânica, que se deve à mobilização excessiva praticada tradicionalmente nesses olivais, muitas vezes instalados em encostas e solos delgados”.

Segundo Ana Rita Martins, a gestão que é feita ao nível das práticas agrícolas neste tipo de olivais tende a causar pesados impactos ao nível do solo, “desde a sua compactação, pelo uso mais frequente de maquinaria pesada; a erosão, pela mobilização e/ou remoção da vegetação natural entre fileiras; a salinização, produto da irrigação intensiva.”

Produtividade e qualidade em disputa

Jeremias Távora, diretor geral da Olibest, sublinha que o olival tradicional continua a fazer parte do património português, mas defende que “é tão pouco eficiente e precisa de tanto apoio externo que não é possível mantê-lo onde se possa ser mais produtivo, em zonas de regadio”.

No olival tradicional, a produtividade média ronda 7,5 toneladas de azeitona por hectare, produzindo perfis aromáticos únicos e elevados índices de polifenóis. Já as formas de alta densidade, como o olival intensivo, alcançam rendimentos entre 20 e 29 toneladas por hectare. A diferença reside não só na escala, mas sobretudo na forma como os recursos são geridos. “Consegue-se uma produção muito maior em termos de azeitona e azeite com um controlo de custos muito mais eficiente”, afirma Jeremias Távora.

A lógica produtiva baseia-se numa aplicação criteriosa dos fatores de produção. “Somos especialmente atenciosos com a água e com todos os fatores que utilizamos, por uma questão de eficiência no controlo de custos”, sublinha o diretor da OliBest. O setor do olival gera, atualmente, cerca de 95,5 milhões de euros para a economia nacional, com políticas de regadio e mecanização a impulsionarem parcerias público‑privadas e linhas de crédito específicas para grandes produtores.

A empresa OliBest adota este modelo de produção, responsável por gerir cerca de 12 mil hectares de olival intensivo e processar até 1,5 milhões de quilos de azeitonas por dia no seu lagar. Capaz de tratar 650 toneladas diárias, a sua produção garante azeite 100% extravirgem e controlo rigoroso de custos. Em contraste, a empresa Risca Grande cultiva olivais centenários em sequeiro, certificados pela Demeter. Através de uma produção tradicional, atingem azeites biológicos de excelência, reconhecidos em concursos como o Olive Japan.

Precariedade laboral no setor olivícola

O investigador do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) Pedro Reis acrescenta que as mudanças para sistemas intensivos “causaram impactos ao nível das necessidades de mão de obra e das condições fitossanitárias do olival”, que sujeita os trabalhadores a condições laborais precárias, como uma maior exposição a doenças e ritmos de colheita excessivos, mesmo em dias de chuva. Como observa Jeremias Távora, “o campo é grande, refém do clima, por isso faz chuva e faz sol e é impossível pensar cobrir o campo todo para as pessoas estarem abrigadas.”

Incapazes de competir com a escala e a eficiência das grandes explorações intensivas, os pequenos produtores veem-se forçados a vender as terras ou a abandonar a atividade agrícola. “O maior risco do olival tradicional é o abandono devido à baixa rentabilidade”, acrescenta Alfred Zehnder, que não deixa de alertar para o papel fundamental do consumidor na preservação do olival tradicional: “Em situações de mercado como atualmente, em que os preços na origem caíram drasticamente, esse risco aumenta perigosamente. O consumidor será decisivo na sobrevivência do olival tradicional.”

Preservar a biodiversidade

Reconhecendo estes desafios, a União Europeia implementou uma nova certificação para a gestão de olivais que privilegia a biodiversidade e boas práticas, à qual Portugal aderiu em 2023, que exigiu rótulos de conformidade para promover modos de produção mais sustentáveis. Pedro Horta, representante da ZERO, explica que a associação opta por uma transição agroecológica que valorize os mosaicos de culturas e redirecione apoios públicos para agricultores “cuidadores”, que produzem serviços ecológicos, como sequestro de carbono e conservação do solo. “Os consumidores são também cidadãos, pela via do consumo podemos procurar comprar diretamente a agricultores, seja através de grupos de consumo, de organizações de produtores e consumidores (AMAP) ou de outras formas de consumo consciente.”

Em contrapartida, a Olibest acredita que é necessária uma maior dinamização das políticas para esse tipo de olival, visto que dificilmente sobreviverá com o valor médio atual do preço da azeitona.

Entre a herança e a inovação

O confronto entre olival tradicional e intensivo não se resume ao choque de técnicas agrícolas, mas envolve um dilema coletivo sobre o futuro do território, do ambiente e das comunidades. Numa região em que a oliveira é símbolo de vida, resistência e ligação à terra, o caminho a seguir tem o poder de definir aquilo que é o Alentejo. No confronto que opõe a modernidade inovadora à tradição como relíquia, Pedro Horta defende uma opção que concilia os dois tipos de produção diversos.

O representante da ZERO reforça a importância do mosaico de usos, ocupações do solo e descontinuidade nos tapetes de monoculturas como mecanismos que assegurem a diversidade e o equilíbrio do território. “Sem isso, a resiliência da economia agrícola fica dependente de um número limitado de culturas”, defende Pedro Horta, e acrescenta que esse cenário precário “pode ser abalado por fatores naturais, de mercado e geopolíticos, com consequências catastróficas”.

O futuro poderá passar por encontrar um modelo híbrido que respeite a história e a biodiversidade, sem abdicar da eficiência e da modernização necessárias para garantir a sobrevivência das comunidades e do território. Ana Rita Martins considera a possibilidade de implementar boas práticas em olivais sujeitos a adensamento ou intensificação, numa perspetiva que reduza os impactos ambientais negativos. A bióloga apresenta soluções que vão desde a instalação de faixas com culturas para a fauna até à agricultura de precisão, focada no uso mais eficiente da água.  

As origens do olival português remontam ao período romano, mas foi durante a Idade Média que as primeiras oliveiras em sequeiro se consolidaram, cultivadas sem regadio e com espaçamentos superiores a 100 árvores por hectare.  Até ao século XX, os olivais extensivos eram predominantes, geridos por uma ética tradicional, de forma manual e familiar.

O impulso modernizador teve início nas décadas de 1970 e 1980, com a introdução de variedades mais produtivas, a mecanização inicial e a reestruturação de talhões. De acordo com um relatório do grupo European Innovation Partnership ‘Agricultural Productivity and Sustainability’ (EIP-AGRI), de 2023-2024, os primeiros sistemas de alta densidade surgiram entre os anos 1970 e 1990, com densidades na ordem de 400 árvores por hectare e introdução de rega gota-a-gota.

A implementação dos grandes projetos de regadio coletivo, como a barragem do Alqueva, e o acesso a fundos da Política Agrícola Comum foram os principais propulsores da transição. Nas últimas três décadas, o olival intensivo conquistou o seu espaço na paisagem e no mercado, assumindo um papel central na produção de azeite.

Entre 1960 e 1970, Portugal era um produtor modesto, mas ultrapassou as 200 mil toneladas de azeite logo na década seguinte. Em 2019 e 2020, atingiu cerca de 225 milhões de litros. Segundo dados do Eurostat, a transformação de azeitona em azeite passou de 417 950 toneladas, em 2012, para um pico de 1 350 240 toneladas em 2021, tendo-se fixado em 1 293 700 toneladas em dezembro de 2024, números que refletem diretamente a expansão dos olivais intensivos.

A estrutura fundiária também sofreu transformações. Em 2013, mais de 40% das explorações com olival tinham mais de 20 hectares, sendo a área média de 67 hectares por exploração, dados que evidenciam a consolidação de explorações de maior dimensão e mecanizadas em Portugal. Mundialmente, a produção de azeite triplicou entre a época de 1958/59 e a de 2019/20, passando de 1 100 mil para mais de 3 266 500 toneladas, impulsionada pela intensificação agrícola e expansão das áreas irrigadas.

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