Estudantes deslocados: Ganhar autonomia longe de casa

Em Portugal, milhares de jovens deixam todos os anos as suas terras de origem para estudar. Ao chegarem ao ensino superior longe de casa, enfrentam desafios como a solidão, as despesas e a adaptação a uma nova vida. Para alguns estudantes, momentos simples do dia a dia tornam ainda mais complicado lidar com a distância da família; para outros, é a conquista da autonomia que desejavam

“Não custa apenas gerir a nossa casa ou o dinheiro. Acima de tudo, é a nossa capacidade emocional que fica afetada. As saudades que tenho da tradição, do hábito e da comida são indescritíveis.” As palavras são de Lourenço Martins, 18 anos, natural da Madeira e estudante do 1ºano de Ciências Políticas, no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. O jovem confessa que sair da ilha natal foi o momento mais difícil da sua vida: “Deixar a família para trás não é fácil para qualquer estudante deslocado, mas, principalmente, vir de um local isolado para uma cidade tão grande acaba por tornar a adaptação muito mais difícil.”

A realidade vivida por Lourenço Martins é semelhante à de muitos outros estudantes deslocados, os quais acabam por ser afetados pela falta de apoio emocional que advém da distância de casa, das preocupações financeiras, da dificuldade de integração social e do desempenho académico. Com os preços dos quartos ou residências de estudantes a subirem ano após ano, uma das maiores preocupações dos estudantes do ensino superior é a pressão financeira e a dificuldade em encontrar um lugar para viver. Dos 120 mil estudantes deslocados, 45 mil são alunos carenciados. Consumidos pelos altos preços das rendas e pelas saudades de casa, a ansiedade e a depressão têm aumentado progressivamente. De acordo com o estudo “Ansiedade, depressão e stress em estudantes universitários deslocados da sua residência”, publicado na Revista Portuguesa de Investigação Comportamental e Social, do Instituto Superior Miguel Torga, “os estudantes deslocados enfrentam maiores níveis de stress, mais especificamente as mulheres devido à sua maturidade e consciência, resultado das dificuldades de adaptação, preocupações financeiras e distância da família”.

“O início é o pior período. Não queremos sair por não estarmos no nosso habitat normal. Mas, ao longo do tempo, acabei por preencher os meus dias para tentar esconder esse vazio, mesmo que ele continue sempre lá.”

Lourenço Martins, estudante em Lisboa

Viver numa cidade estranha, assumir outras rotinas e travar novas amizades, bem como a distância da família tornam os primeiros meses mais complicados. Entre aulas, tarefas domésticas e gerir o próprio dia, Lourenço teve de aprender a lidar com a autonomia e adaptar-se a esta realidade bastante diferente. “O início é o pior período. Não queremos sair por não estarmos no nosso habitat normal. Mas, ao longo do tempo, acabei por preencher os meus dias para tentar esconder esse vazio, mesmo que ele continue sempre lá. É mesmo preciso ter aquela vontade e independência de não querer estar sozinho.”

Recomeçar numa cidade nova

Sofia Dias tem 18 anos, é natural de Alenquer e entrou na licenciatura de Direito em Coimbra. Ao contrário de muitos jovens que saem do seu lugar contrariados, Sofia sempre teve o sonho de ir para fora da casa dos pais: “Desde cedo que queria sair da minha cidade e ser estudante deslocada, principalmente em Coimbra por ter tido familiares que estudaram lá.”

A experiência de ser estudante deslocado varia consoante a cidade. Sofia Dias tem a perceção que “em locais com tradição académica como Coimbra, a integração é facilitada pela forte presença de estudantes deslocados”. Como justifica: “Sou suspeita porque adoro ser deslocada e era a minha primeira opção. Estarmos entregues a nós próprios traz momentos incríveis e, apesar das dificuldades, é algo que muda definitivamente a nossa vida e a nossa experiência académica.”

Enquanto que em grandes centros como Lisboa ou Porto a vida social pode ser mais dispersa, em Coimbra a autonomia é total. “Sair de casa e ter todo o livre-arbítrio que queremos faz-nos crescer de uma maneira que não conseguiria se tivesse ficado em Lisboa. O meu primeiro ano está a ser a melhor experiência da minha vida. Por isso, se têm essa vontade e possibilidade, arrisquem, abram as asas e vão.”

Apesar de sempre ter tido o sonho de ser deslocada e de todos os receios que possa ter sentido, Sofia Dias admite que, em Coimbra, se vive tudo de uma forma muito intensa e que nunca está sozinha. “Vamos às aulas juntos, saímos juntos, fazemos tudo juntos. Há sempre alguém que está na mesma situação que eu e, por ser uma cidade cheia de estudantes deslocados, ninguém quer estar sozinho, uma vez que todos sentem o mesmo. Foi desta forma que acabei por fazer relações que se tornaram a minha família.”

A possibilidade de crescer

O entusiasmo da chegada acaba por dar lugar, por vezes, a uma nostalgia inesperada. Sofia Dias recorda que a adaptação nem sempre foi fácil: “No início, não me custou nada. Fiquei dois meses sem ir a casa porque estava tão empolgada por estar ali, a conhecer pessoas novas e a viver sozinha que não sentia falta de casa.” Mas depois da sua primeira visita à família tudo mudou. “Lembro-me da primeira vez que fui a casa, passados dois meses, e custou-me imenso voltar para Coimbra. Talvez porque, ao estar com os meus pais e amigos de lá, percebi que estar aqui custa no sentido de sentir que estou a perder a vida deles”, confessa.

“O mais difícil é impor-me regras. Sei que devo ir às aulas, arrumar o quarto ou até mesmo orientar as refeições, mas falta-me imensa disciplina nesse sentido.”

Sofia Dias, estudante em Coimbra

Ambos os estudantes concordam que esta experiência lhes trouxe, acima de tudo, crescimento pessoal. “O mais difícil é impor-me regras. Sei que devo ir às aulas, arrumar o quarto ou até mesmo orientar as refeições, mas falta-me imensa disciplina nesse sentido. ara Sofia Dias, o mais complicado, no início, foi ser disciplinada: “O mais difícil é impor-me regras. Sei que devo ir às aulas, arrumar o quarto ou até mesmo orientar as refeições, mas falta-me imensa disciplina nesse sentido. Esse tem sido, sem dúvida, o maior desafio de viver sozinha.”

Esta experiência mudou ainda profundamente a forma como Sofia Dias se vê: “Para além da maturidade que ganhei, comecei a ver o mundo, as coisas e as pessoas à minha volta de uma forma totalmente diferente.” A estudante assume que sempre foi uma pessoa mais arrogante e ríspida, mantendo, por exemplo, uma relação meramente cordial com os pais e o irmão. Contudo, a ida para Coimbra mudou tudo. “Passei a valorizar muito mais os momentos em família e com os amigos de sempre, tornando-me mais compreensiva e flexível perante os imprevistos. Agora, sou uma pessoa muito mais compreensiva e vejo uma evolução em mim, e isso é algo mesmo muito bonito”, assume.

Procurar apoio psicológico

Sair de casa e ir viver a quilómetros de distância envolve inúmeros desafios e problemas. No entanto, a solidão também promove o autoconhecimento, a aceitação de responsabilidades e a resiliência emocional. Várias instituições reforçaram os serviços de apoio psicológico e também alguns programas de integração para os novos estudantes. Recentemente, a Universidade de Lisboa, por exemplo, através de um Programa de Promoção da Saúde Mental e do Bem-Estar, lançou um novo serviço gratuito de apoio para estudantes, docentes e funcionários. A linha “Aqui e Agora” surge como uma forma de apoio à saúde mental da comunidade académica.

“Muitos jovens chegam à universidade preparados para aprender, mas não para lidar com o peso emocional da adaptação.”

Cátia Barreiro, psicóloga

Cátia Barreiro, psicóloga, lida diariamente com inúmeros estudantes deslocados. Da experiência clínica, confirma que “muitos jovens chegam à universidade preparados para aprender, mas não para lidar com o peso emocional da adaptação”. A terapeuta considera que “apesar de ser complicado combater estes problemas, existe sempre espaço para intervenção graças aos acessos facilitados ao apoio psicológico que as universidades proporcionam e a maior normalização da ida ao psicólogo”.

Para ajudar a adaptação a uma nova fase da vida, a psicóloga aconselha os jovens a procurar criar rotinas que lhes ofereçam segurança e desenvolver uma relação consigo próprio. Quando as dificuldades se tornam limitadoras e afetam a saúde mental, Cátia Barreiro sublinha que “é importante pedir ajuda quando assim o necessitar”. Como refere: “A verdadeira mudança acontece quando os meus pacientes deixam de sentir que têm de enfrentar tudo sozinhos e que não se devem sentir sós, mas felizes pelas suas conquistas.” Tendo em conta a sua análise clínica, a terapeuta  afirma que “três em cada dez pacientes que são estudantes deslocados enfrentam dúvidas e problemas”, acrescentando que “a experiência pode chegar a ser traumática e com repercussões para o futuro, se não tiverem o acompanhamento necessário”.

O custo de estudar fora

Apenas uma pequena parte dos estudantes deslocados consegue garantir uma vaga em residências universitárias públicas, o que aumenta a pressão financeira sobre quem precisa de estudar fora da cidade de origem com rendas muito elevadas. Em 2023, o Governo aprovou um reforço do complemento de alojamento para estudantes bolseiros deslocados. A medida aumentou até 38% os apoios, permitindo que alguns estudantes possam receber mais de 5 mil euros por ano para ajudar a pagar o alojamento fora das residências universitárias.

Segundo um estudo realizado, em 2024, pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, no âmbito do projeto europeu Eurostudent VIII, um estudante do ensino superior em Portugal gasta em média cerca de 903 euros por mês, sendo o alojamento a maior fatia das despesas, representando cerca de 33% do orçamento mensal. As bolsas que os estudantes deslocados recebem do Estado ajudam, mas, em muitos casos, são insuficientes. Lourenço Martins denota esse facto: “O dinheiro é sempre um condicionante. Não posso gastar loucamente, tenho um budget combinado que, por razões óbvias, não posso ultrapassar. Há que tomar decisões acertadas e discernir o que é mais benéfico para mim.”

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