Estrada da Cruz: Os últimos balcões do Caramão

No Bairro do Caramão da Ajuda, em Lisboa, o comércio tradicional resiste hoje pelas mãos de apenas dois homens: Joaquim Lameiras, de 92 anos, e Fernando Silva, de 73. Sete décadas após o nascimento de um polo comercial que chegou a oferecer todos os serviços essenciais à localidade, a rua é hoje o retrato de um bairro onde a proximidade deu lugar à indiferença dos novos consumos

Às quatro da manhã, quando o bairro do Caramão ainda dorme e as janelas permanecem escuras, Joaquim Lameiras encosta a chave à fechadura da mercearia e roda-a com a precisão de um gesto repetido durante décadas. A porta abre-se com um estalo seco que ecoa na Estrada da Cruz quase vazia. Aos 92 anos, é quase sempre o primeiro a acordar a rua. Entra devagar, acende a luz e começa a arrumar as prateleiras como se ainda houvesse vizinhos à porta, à espera de pão, açúcar ou mais um fiado para aguentar o mês. Hoje em dia, as pessoas vivem num quotidiano sem grandes sobressaltos. Fazem as compras nos centros comerciais da zona e mantêm os abastecimentos necessários à distância de um supermercado, num registo de vida banal que poderia pertencer a qualquer bairro de qualquer cidade moderna. Mas nem sempre foi assim.

A rua da Estrada da Cruz, que no final dos anos 1940 era uma estrada de terra batida, é hoje uma artéria igual a tantas outras da capital, apinhada de carros e de edifícios, alguns a precisar de obras de melhoramentos

O bairro surgiu entre 1947 e 1949, projetado pelos arquitetos Luís Benavente e Costa Martins, no âmbito das políticas de habitação do Estado Novo. Era destinado a trabalhadores das Companhias Reunidas de Gás e Eletricidade, a famílias de poucos recursos e a desalojados. Na altura, a Estrada da Cruz era uma rua de terra batida que o vento transformava em nuvens de pó, no verão, e em lamaçais, no inverno, dominada por barracas e hortas onde as pessoas cultivavam o próprio sustento. Foi ali, nessa rua, que nasceu um pequeno centro comercial informal e de proximidade, feito de tabernas, mercearias e oficinas. Era um comércio tosco, sem montras iluminadas, mas era o coração que mantinha o bairro vivo. Joaquim Lameiras e Fernando Silva são a memória viva desse tempo.

Do tempo do fiado

Joaquim Lameiras chegou a Lisboa vindo do Gerês aos 13 anos, à procura de oportunidades. O pai, com oito filhos para sustentar e perante a miséria que assolava o interior do país, viu-se forçado a desfazer-se deles. Há cerca de 70 anos, já homem feito, abriu uma mercearia num prédio que outrora albergara uma taberna com sala de jogos. A porta da mercearia continua a abrir-se todos os dias, às quatro da manhã, num ritual que o corpo já cumpre sem precisar de despertador. Não o faz por necessidade romântica, mas por obrigação: a reforma é de cerca de 520 euros, fruto de décadas de trabalho num tempo em que os patrões não descontavam para a Segurança Social. “Tenho de trabalhar até morrer”, diz, com a serenidade de quem já aceitou o destino, enquanto observa as casas antigas a serem vendidas a novos moradores.

Da mercearia, lembra-se sobretudo do tempo da Guerra Colonial e das dificuldades que a população atravessava. Na altura, não vendia apenas bens; vendia fiado. As famílias levavam os mantimentos e pagavam no fim do mês, quando, e se, houvesse dinheiro. Muitas vezes, não havia. Joaquim Lameiras anotava tudo num caderno, a lápis, com a paciência de quem sabia que a fome não espera. “Isto aqui matou a fome a muita gente. Ninguém tinha rendimento, era tudo fiado e, no fim do mês, vinham pagar. Tenho ali uma conta de 40 contos daquele tempo que nunca ninguém pagou, nem paga”, conta, apontando para o fundo da loja.

A poucos metros, Fernando Silva observa da sua leitaria o movimento escasso da rua. Chegou ali na década de 1970, mas guarda memória do que já foi a Estrada da Cruz: um cenário “enobrecido”, onde duas peixarias, um talho, um sapateiro, uma retrosaria e até uma agência funerária garantiam que ninguém precisava de sair do bairro para nada imperativo. Quem ali vivia, ali encontrava tudo. Do pão ao caixão, como costumavam dizer os antigos.

A pastelaria/leitaria de Fernando Silva é um dos últimos estabelecimentos da Estrada da Cruz, cenário bem diferente do que encontrou na década de 70, quando chegou a esta zona da cidade de Lisboa

Um bairro em metamorfose

A metamorfose da rua começou com uma alteração no percurso do autocarro 727, que antes despejava multidões à porta do comércio. Quando a carreira mudou, o fluxo diminuiu e as pessoas deixaram de comprar. O isolamento agravou-se com a abertura dos centros comerciais nas redondezas, com os seus parques de estacionamento gratuitos e promoções permanentes. “O comércio de bairro consegue sempre sobreviver porque se vai adaptando”, acredita Fernando Silva. Mas a adaptação tem limites. As lojas foram fechando uma a uma e as montras foram sendo tapadas com cartazes de “vende-se”. Hoje, o que resta são sobretudo massagistas e cabeleireiros que servem um público diferente, que pouco tem a ver com a história do lugar.

Fernanda Almeida, ex-cabeleireira do estabelecimento ao lado da leitaria, sabe bem o que é esse desencontro. Ali, trabalhou 40 anos e cortou o cabelo a três gerações. Acompanhou as diferentes fases da vida das suas clientes e viu as mais velhas morrer, uma a uma, até deixar de haver fregueses. Já as gerações mais novas, não a procuravam. “Chegou a uma altura em que já não vinha ninguém. Ficava ali horas a olhar para a rua”, recorda com a tristeza na voz. Também acabou por fechar.

“Os novos moradores não têm memória disto. Para eles, isto é só mais uma rua, mais uma loja fechada.”

Joaquim Lameiras

A Estrada da Cruz vive hoje num prolongamento incerto. A mercearia de Joaquim Lameiras está à venda há anos, com uma renda de 100 euros que ninguém parece querer assumir. Cem euros é menos do que se paga por um apartamento num bairro degradado, mas ninguém quer porque não há futuro ali. “Os novos moradores não têm memória disto. Para eles, isto é só mais uma rua, mais uma loja fechada”, afirma Joaquim Lameiras, enquanto olha para os produtos nas vitrinas, intocados e empoeirados.

A mercearia de Joaquim Lameiras está à venda há anos, com uma renda de 100 euros, mas não aparecem interessados em ficar com o negócio ou com o espaço

Entre o betão dos prédios novos e a memória das antigas hortas, os últimos comerciantes da Estrada da Cruz vão fechando as portas. Não lhes resta a esperança de continuidade. Apenas a certeza de que, quando partirem, levarão com eles um pedaço da cidade que nunca retornará. “Talvez nessa altura, ao olhar para as prateleiras vazias de supermercados, desejem ter por perto comerciantes com vontade de ajudar”, declara Joaquim Lameiras.

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