Agir por quem mais precisa: “Hoje são eles, amanhã podemos ser nós”

Numa cidade como Lisboa, que nunca pára completamente, há realidades que permanecem invisíveis. Enquanto muitos regressam a casa ao fim do dia, outros continuam na rua, sem abrigo, sem rotina e, muitas vezes, sem esperança. É neste contexto que a Comunidade Vida e Paz atua diariamente, procurando responder a necessidades básicas, mas sobretudo reconstruir laços, devolver dignidade e criar oportunidades de reinserção

À noite, quando a cidade abranda e as luzes das casas acendem, há quem continue sem ter para onde voltar. Viaturas fazem o caminho inverso e, em vez de regressarem a casa, dezenas de cidadãos saem para procurar quem ficou do lado de fora. Em Lisboa, essa realidade vê-se em jardins, bancos, vãos de escada e esquinas que passam despercebidos durante o dia. É por esses lugares que, todas as noites, passam as carrinhas da Comunidade Vida e Paz. Levam uma ceia a quem não tem o que comer, mas o objetivo vai muito além da alimentação: o que ali se tenta distribuir, noite após noite, é sobretudo confiança.

Numa realidade em que o número de pessoas em situação de sem-abrigo continua elevado, instituições como a Comunidade Vida e Paz assumem um papel fundamental na promoção da dignidade humana e da reinserção social. Com quase 37 anos de existência, esta associação, ligada ao Patriarcado de Lisboa e reconhecida como Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), distingue-se pela abordagem próxima, humana e interventiva. Como afirma a diretora-geral, Renata Alves, “ninguém é reduzido à condição em que está. Há uma tentativa constante de ver a pessoa para além da rua”. De acordo com dados da autarquia de Lisboa partilhados na Imprensa, existiam, a 31 de dezembro de 2024, 3122 indivíduos a dormir em algum canto da capital. Em junho de 2025, a maior parte das pessoas sem-abrigo – 2682 – vivia em alojamentos temporários, mas 439 pessoas continuavam a dormir sem teto, segundo os dados mais recentes do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA) de Lisboa.

A Comunidade Vida e Paz foi fundada em 1989, embora a sua origem remonte a 1988. Nasceu da iniciativa de uma mulher, a irmã Maria Gonçalves, que, ao deparar-se frequentemente com pessoas a dormir em bancos de jardim, sentiu a necessidade urgente de agir. Movida por essa inquietação, começou por intervir na área da toxicodependência e do alcoolismo, lançando as bases de uma organização que hoje atua em múltiplas frentes.

“A nossa missão não se resume a parar as carrinhas e esperar que os cidadãos venham. É a associação que vai até às pessoas e a sítios onde mais ninguém vai.”

Renata Alves, diretora geral da Comunidade Vida e Paz

Foi essa dimensão mais próxima e direta que percebemos ao acompanhar uma das equipas numa ronda noturna de distribuição de ceias. As voltas estão organizadas em quatro equipas diárias: A, B, C e D. Cada uma é composta por cinco ou seis elementos, entre eles um coordenador mais experiente. Antes de arrancarem, há um relatório onde estão registadas as pessoas já sinalizadas pela associação; aquelas que costumam estar em pontos fixos à espera da chegada dos voluntários, sabendo mais ou menos a hora, conhecendo a carrinha e reconhecendo os rostos. Outras aparecem pelo caminho. Todas recebem alguma coisa, nem que seja uma palavra, um cumprimento, uma pergunta simples: “Está tudo bem?”

É precisamente por essa proximidade que a Comunidade Vida e Paz se destaca. “A nossa missão não se resume a parar as carrinhas e esperar que os cidadãos venham. É a associação que vai até às pessoas e a sítios onde mais ninguém vai”, destaca Renata Alves, diretora geral. A atitude parece simples, mas diz muito sobre o que esta intervenção representa. A aproximação não serve apenas para responder a uma necessidade imediata, funciona também para criar uma relação, perceber necessidades e manter um contacto regular com quem vive na rua.

A ceia ganha, por isso, um significado que vai além do alimento. “Utilizamo-la para estabelecer confiança com as pessoas sem-abrigo”, refere Renata Alves. Construída aos poucos, é essa relação que pode abrir espaço para uma mudança maior. A refeição torna-se um pretexto para conversar, criar rotina e mostrar que há alguém que volta. Mais do que matar a fome numa noite, este gesto procura quebrar o isolamento que, tantas vezes, prende uma pessoa à rua, uma ideia que vai ao encontro do que defende Renata Alves sobre a importância da criação de relações de confiança.

As necessidades não acabam na comida. Ao longo das voltas, os pedidos surgem de forma direta: roupa interior, cobertores, calças, casacos. O que é pedido fica registado em relatório para que a equipa seguinte possa tentar responder. Há uma continuidade no gesto, uma espécie de fio invisível entre voluntários de noites diferentes. Cada volta acontece apenas duas vezes por mês para cada grupo, uma vez que o número de voluntários é elevado, mas o trabalho mantém-se articulado.

A Comunidade Vida e Paz conta com uma rede de mais de 160 profissionais e cerca de 600 voluntários a operar nas mais diversas áreas, desde apoio informático a banco de roupa

Lugares de empatia

Essa rede humana é uma das grandes forças da instituição. A Comunidade Vida e Paz conta com mais de 160 profissionais e com cerca de 600 voluntários, sobretudo envolvidos nas ações noturnas, a que se juntam muitos outros nas restantes valências da instituição, números que mostram a dimensão de uma estrutura que vai muito além das voltas noturnas. Há voluntários nas áreas financeira, empresarial, informática, banco de roupa, jardinagem, acompanhamento lúdico e até cabeleireiro. “Sem os voluntários não seria possível manter a atividade da instituição”, sublinha a diretora-geral, que também destaca a importância dos mais novos: “Os jovens são importantíssimos, têm um papel determinante na sociedade.” Com justifica Renata Alves, “trazem inovação, novas ferramentas, outras abordagens e dinamismo, mesmo que o compromisso nem sempre seja fácil de garantir”.

Ainda assim, ninguém entra sem preparação. Quem deseja tornar-se voluntário passa primeiro por formação e por uma fase de experiência. Só depois, e consoante a adaptação à função, pode integrar a associação. Os mais jovens são, muitas vezes, inseridos em equipas com pessoas mais experientes, sempre sob supervisão de coordenadores. Esta integração permite – salienta –“equilibrar a energia e o dinamismo dos mais novos com a experiência de quem já conhece bem esta realidade”.

A ideia é simples: boa vontade importa, mas não chega. Trabalhar com pessoas em situação de sem-abrigo exige responsabilidade, paciência, escuta e empatia. Como defende a diretora da Comunidade Vida e Paz: “A empatia é muito importante, porque hoje são eles que precisam de nós, mas um dia podemos ser nós a precisar deles.”  A frase resume bem o olhar da associação: ninguém é reduzido à condição em que está. Há uma tentativa constante de ver a pessoa para além da rua.

No terreno, percebe-se que esse trabalho está organizado por etapas. A primeira linha passa pelas equipas voluntárias e técnicas de rua, pelo Espaço Aberto ao Diálogo, em Chelas, e pela Unidade Integrativa para Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, uma resposta residencial com capacidade para acolher 40 pessoas, incluindo os seus animais de companhia. Há ainda apartamentos partilhados de primeira linha em Loures, Amadora e Odivelas. No total, segundo os dados de 2024, a associação apoiou diariamente uma média de 505 pessoas através das equipas de rua, acolheu 595 pessoas no Espaço Aberto ao Diálogo e distribuiu 202.940 ceias.

Mais de 110 pessoas beneficiam do Projeto MAPA, um dos programas criados para assegurar esse acompanhamento continuado

Muito além da rua

O trabalho não termina quando alguém aceita ajuda. A Comunidade Vida e Paz intervém também na reabilitação e no tratamento de pessoas com adições e outras problemáticas associadas. Tem duas comunidades terapêuticas – em Fátima e na Tomada – com capacidade total para 135 utentes, e duas comunidades de inserção, que podem acolher 84 pessoas. “É aqui que entram respostas mais prolongadas, orientadas para a recuperação física, psicológica, social e espiritual”, realça Renata Alves. A própria história da associação começou muito ligada ao combate à toxicodependência e ao alcoolismo, realidades que continuam presentes, embora já não expliquem, por si só, todos os percursos de sem-abrigo.  “Atualmente, o consumo de substâncias continua a existir, mas não é a única variável que deixa alguém nesta situação”, reforça.

Depois da reabilitação, há ainda o caminho da reinserção. Para quem termina o processo e não tem apoio familiar, a instituição disponibiliza apartamentos de reinserção, residência autónoma em saúde mental e acompanhamento pós-alta. O objetivo é facilitar a transição para a vida ativa, apoiar na procura de emprego, garantir alojamento e reduzir o risco de recaída. Mais de 110 pessoas beneficiam do Projeto MAPA, um dos programas criados para assegurar esse acompanhamento continuado.

“A comida que distribuímos resulta de recolhas em supermercados, do apoio do Banco Alimentar e de excedentes de superfícies comerciais. Quando essas ajudas não são suficientes, temos de recorrer a meios próprios para garantir a continuidade deste serviço.”

Sair da rua é um caminho longo… permanecer fora dela pode ser ainda mais difícil. Toda esta estrutura exige meios. O orçamento anual da Comunidade Vida e Paz ultrapassa os cinco milhões de euros. Cerca de 50% a 60% do mesmo advém de acordos com entidades como a Segurança Social, o Ministério da Saúde e autarquias. O restante tem de ser angariado pela própria instituição, através de campanhas, donativos e outras iniciativas solidárias  – entre estas destacam-se campanhas como a consignação do IRS, iniciativas no período de Natal e apelos regulares à solidariedade da sociedade civil. “A comida que distribuímos resulta de recolhas em supermercados, do apoio do Banco Alimentar e de excedentes de superfícies comerciais. Quando essas ajudas não são suficientes, temos de recorrer a meios próprios para garantir a continuidade deste serviço.”

Há outro momento do ano em que essa máquina humana ganha ainda mais visibilidade: a Festa de Natal com as Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, uma tradição iniciada em 1989. Durante três dias, com o apoio de cerca de mil a 1500 voluntários, são disponibilizados serviços como refeições, balneário, cabeleireiro, apoio jurídico, vacinação, consultas, roupa e momentos de convívio. Mais do que um evento simbólico, é uma tentativa de devolver conforto físico e emocional a quem tantas vezes atravessa a época festiva sozinho.

Apesar da dimensão da resposta, o desafio continua a crescer. O número de pessoas em situação de sem-abrigo tem aumentado ao longo dos anos e, como admite a diretora-geral, “é difícil dar vazão a tudo”. Talvez por esta razão a Comunidade Vida e Paz insista tanto na ideia de proximidade. “Antes de qualquer plano de reinserção, há sempre uma conversa. Antes de qualquer resposta técnica, há alguém que aparece. E antes de qualquer mudança, há uma ceia entregue na rua”, acrescenta Renata Alves.

No fim da volta, fica a sensação de que o voluntariado aqui não vive de gestos grandiosos. Faz-se antes de pequenas continuidades: voltar, ouvir, registar, levar o que foi pedido, reconhecer um rosto, chamar alguém pelo nome. Numa cidade onde tantos passam sem olhar, esse pode ser o primeiro passo para que uma pessoa deixe de sentir que desapareceu.

Essa é, de resto, a base do trabalho da associação. “O nosso foco é ir ao encontro de quem vive numa condição extrema de vulnerabilidade, ajudá-lo a reconstruir um projeto de vida e a encontrar o seu lugar no mundo”, conclui a diretora.

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