Nosso estranho jeito de nomear

A fama de criatividade brasileira é reconhecida além-“país do futuro”, para usar o título sugestivo da obra do escritor alemão Stefan Sweig. A questão é o limite onde termina o ser criativo e começa o causar constrangimento. Quem cresce no Brasil ou tem amigos do país vai entender ao se recordar de nomes incomuns ou extravagantes de alguns deles. Somos aqueles que chamam os filhos com finais em “ilson”, com vocativos resultantes de fusões entre nomes de pai e mãe, de homenagens a lugares, objetos e personagens da história. É a terra de Lucimar e Carolaine, de Erivelton e Maicon, de Nailson, Arilson e Marilson. Também de Napoleão, de Astrolábio e de Necrotério. Enfim, a antroponímia brasileira é um léxico aberto.

Partilho uma experiência bem próxima, situada na minha infância. Uma das melhores amigas de escola – com quem até hoje convivo e com quem divido a história de minha existência – se chama Éldora. É assim mesmo, com ênfase na primeira sílaba. No cotidiano, fartei-me de repetir como se pronuncia o seu nome, porque a maioria das pessoas ao ouvi-lo, repete desacertadamente: “El-DÓ-ra?” E lá vou eu corrigir: “É ÉL-dora!”

Ela não é a única, e o seu caso, na verdade, não é de todo tão complicado assim. Vem de Eldorado, acrescente-se um agudo ao princípio, elimine a última sílaba e já está. Não é aquele nome com letras dobradas, recheados de Ws, Ys e que tais, como Whindersson, o famoso comediante. Também outra colega de adolescência é uma evidência de que o excêntrico domina o cenário batismal brasileiro: Naubanir. Não é Nalbany, é com U e com IR ao final. Porém, também com ela não faltava quem escrevesse exatamente do jeito que não é, com L e Y. Qual a inspiração? Aqui vou ao nome dos pais, NAU-BA, a mãe, e NI-RON, o pai, assim: NAUBA + NIR. Como se vê, as origens do insólito substantivo próprio são tão insólitas quanto o resultado.

Estarão agora a pensar: “Conhece duas pessoas, não quer dizer tanto assim”. Se acredita que são exceções, então, vamos ao terceiro caso entre os meus conhecidos. Ainda na minha infância, tinha uma amiguinha de bairro. Seu nome: Blenaly. Seu irmão: Bleno; não, não é BRE-NO, é mesmo com L entre B e E, e não R. Parece mesmo a língua do Cebolinha, da Turma da Mônica, a trocar os Rs pelos Ls.

Blenaly tinha uma amiga a quem fui apresentada. Seu vocativo: Brasília. Isso mesmo, o nome da capital do Brasil e também do antigo carro da Volkswagen. Não é preciso soletrar. Esse é fácil de dizer, só não é de compreender porque os pais fizeram isso com a menina. E falando na capital brasileira, foi lá que fiz amizade com Anireves, irmã de Alire. Não sei de onde vem o nome Alire, mas Anireves é uma escrita espelhada: Severina era o nome da mãe. Dou um tempinho para soletrar ou colocar um espelho para confirmar.

Essa liberdade em dar nomes e promover situações esquisitas no quotidiano dessas crianças passou a ter uma barreira legal no Brasil, desde junho de 2022. Desde então, os indivíduos vítimas de ideias estrambólicas de seus progenitores podem substituir os seus nomes, indo a um cartório (ou conservatória, se fosse em Portugal). O contratempo é que precisa esperar os 18 anos e pagar uma taxa que, a depender do Estado, varia entre os 100 e os 400 reais, algo como 20 e 70 euros. Até esta idade, no entanto, é preciso ter a identidade associada ao designativo que os pais escolheram para si e, depois disso, fica difícil apagar da memória o nome que o acompanhou até então.

Mas a lei chegou em boa hora, porque no Brasil não há uma lista de nomes como em Portugal, que busque evitar estes embaraçosos vocativos. Portugal é a terra das Marias, Ritas, Inês e Madalenas, dos Pedros, Franciscos, Afonsos e Joãos. O Brasil é terra de tudo, junto e misturado. Há, inclusive, a lista dos nomes mais estranhos do país, colhidos nos registos cartoriais. Vou começar pelo nome mais comprido até o momento: Charlingtonglaevionbeecheknavare. Neste caso, não tenho como instruir a pronúncia, sinto muito.

Vejamos outros experimentos nominais, uns selecionados com seus sobrenomes (apelidos) porque ficam mais interessantes. Alguns, inclusive, com uma segunda camada de graça quando se conhece bem o português falado, vulgar ou coloquial, no Brasil: Aeronauta Barata; Amado Amoroso; Amável Pinto; Amazonas Rio do Brasil Pimpão; Antônio Morrendo das Dores; Ava Gina; Chevrolet da Silva Ford; Padre Filho do Espírito Santo Amém; Vicente Mais ou Menos de Souza; Janeiro Fevereiro de Março Abril. Aliás, falando em meses do ano, imagina que esta última família ainda poderia, ao dividir os 12 meses por três, ter mais dois filhos, o segundo de maio a agosto e o terceiro de setembro a dezembro…

Não fica por aí, porque temos ainda a família que acabou por homenagear o berço de todos as vergonhas nominativas: o cartório de registos civis. Em entrevista que realizei nos idos anos em que trabalhei como repórter no Recife, capital do estado de Pernambuco, fiquei a conhecer a história da família Porfírio. O pai desejava dar nomes inéditos, fresquinhos, saídos do forno da criatividade. Pensando no assunto, ao entrar no cartório, defrontou-se com um cartaz a anunciar o serviço de “xerox e fotocópias autenticadas”. Daí veio a inspiração para a sua prole: Xerox Porfírio, Autenticada Porfírio e Fotocópia Porfírio. Todos já adultos, nenhum quis trocar os nomes. Aliás, Xerox também tem um filho que dá continuidade à saga dos nomes cartoriais. O seu nome: Carimbo.

As invenções antroponímicas brasileiras, irreversivelmente, correm ao largo das tentativas legais de constranger a criatividade nacional. Especulou-se, durante a pandemia do Covid-19, que as gerações futuras do Brasil serão recheadas de registos de nascimento de Alcoogelson, Covidson e Coronalda, Alcoolinda, Mascaralda e Fakenewson. Vamos conferir em levantamentos futuros nos cartórios se a praga pegou. Ah, em tempo: o meu filho se chama Pedro.

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