Lisboa: 5.995 euros; Cascais: 5.543 euros; Oeiras: 4.435 euros; Porto: 3.885 euros. Não é novidade que o metro quadrado tem vindo a encarecer a olhos vistos. Cada vez mais, o nível de vida dos portugueses se vê desalinhado com os preços da habitação, que disparam até chegar a alturas quase impossíveis de alcançar para a classe média e empurram famílias para as periferias das cidades.
De Bruxelas chega um relatório, datado do mês de junho de 2025, no qual a Comissão Europeia aponta ao governo português a sua incapacidade para mitigar a crise na habitação, com sucessivos programas de incentivo à habitação que não foram suficientes para resolver um problema que se tornou tão estrutural no país. As autarquias também vão fazendo o que podem, mas os programas de habitação pública que desenvolvem já não conseguem dar resposta à escala atual do problema. Os grandes centros urbanos – e Lisboa principalmente – estão cada vez mais inacessíveis para a maioria dos portugueses, que encontram nos arredores da cidade a sua única opção.
Silenciosamente, este problema agrava-se e torna-se uma dor de cabeça que perturba muitas vidas. Tornou-se tema central do debate político, bandeira das forças de oposição. Os sucessivos governos também não ficam indiferentes e apostam forte na resolução deste tema – ou apenas em mostrar que estão a tentar resolvê-lo. Tudo isto não altera a realidade imediata: é cada vez mais difícil conseguir casa para viver.
Num problema tão transversal aos vários setores da sociedade, também o desporto não fica indiferente. Na 1.ª Liga de Futebol, o campeonato desportivo profissional por excelência em Portugal, cerca de 70% dos atletas são estrangeiros, conforme estima o portal TransferMarkt. Se baixarmos à Liga 2 e Liga 3, os números encontram-se nos 54% e 28%, não excluindo também as centenas de jogadores deslocados da sua terra natal e tantos outros estrangeiros espalhados por emblemas do Campeonato de Portugal e campeonatos distritais. E olhando para as principais modalidades com competições profissionais ou semiprofissionais no País – basquetebol, futsal, andebol, voleibol, hóquei em patins, entre outros -, rapidamente constatamos a presença frequente de estrangeiros na maioria das equipas de topo. Na 1.ª Divisão de Basquetebol, por exemplo, a Federação já permite que metade dos convocados para uma partida não sejam portugueses.
Perante este cenário, fica no ar a dúvida de como os clubes, principalmente aqueles em zonas mais vulneráveis à especulação imobiliária, sobrevivem e mantêm a aposta em atletas de fora, para os quais é preciso encontrar um local onde morar, além de manterem sedes sociais abertas ao público e salvaguardarem o seu património. Perante tantas adversidades, como se mantêm os clubes e que condições têm os atletas que chegam?
A luta pelo sonho
Natural de Belo Horizonte, Weslei Ferreira chegou a Portugal em 2019, quando tinha acabado de cumprir 18 anos. Depois de passar por vários clubes da cidade durante a formação, o seu empresário trouxe-o até Portugal para jogar no Sporting, mas a mudança para Alcochete nunca aconteceu. Sem sítio onde ficar, Weslei Ferreira acabou por morar algum tempo na casa de um amigo do seu empresário, casado e com dois filhos. “A casa tinha um quarto para cada filho e eles tiveram de dividir um só quarto”, recorda. O jovem brasileiro ocupou o quarto de um dos filhos do casal, mas não se sentia totalmente confortável: “Eram pessoas super simpáticas, ajudavam em tudo, mas senti que estava a atrapalhar a vida deles e decidi procurar casa para morar sozinho.”
A solução chegou por meio da Associação Desportiva de Oeiras, que jogava naquela época a II Divisão Nacional Sub-19. Foi aí que Weslei Ferreira encontrou espaço para crescer e competir e, principalmente, um treinador que se tornou um pai. João Cardeano, treinador dos Sub-19 nessa época, acolheu o atleta na equipa e olhava por ele muito para além do tempo passado em campo, e foi com a sua ajuda que pôde começar a construir a sua vida pouco a pouco.
Além de uma compensação pela função de jogador, o clube deu-lhe também a oportunidade de treinar os atletas mais novos da escola de futebol, permitindo ao jovem arrendar casa para poder morar sozinho. As dificuldades mantinham-se, mas era a oportunidade de um novo começo. “Aluguei um T0 no final de 2019 a 280 euros por mês, mais de metade do que ganhava. Com o que sobrava, carregava o passe e comprava comida”, conta. Muitas vezes, com o orçamento muito apertado, era ao seu treinador que Weslei recorria quando precisava de ajuda: “Às vezes, não tinha dinheiro e o mister João Cardeano pagava-me uma compra ou outra. Estava feliz, a jogar, a trabalhar, a ganhar o meu dinheiro, mas era frequente ficar apertado.”
A época correu de feição ao jovem jogador, mas teve um desfecho infeliz quando, em março de 2020, a pandemia da Covid-19 obrigou à interrupção de todos os campeonatos. O restante da época não se jogou e Weslei Ferreira ficou impedido de desempenhar o trabalho no clube que lhe garantia o salário no fim do mês. Alugou uma mota e, durante os meses seguintes, trabalhou como estafeta da Uber Eats para continuar a conseguir pagar a renda. No entanto, ironia do destino, o Sporting veio bater à porta e, desta vez, a oportunidade era mesmo real. Os Leões estavam prestes a reativar a sua equipa B para disputar o Campeonato de Portugal e Weslei era prioridade para reforçar o plantel. Mudou-se para Alcochete, onde começou a treinar e deixou boas impressões, mas outro contratempo iria deitar as suas ambições por terra: “Na semana em que ia assinar contrato, lesionei-me no ombro. Pagaram-me a fisioterapia, mas viram que era um problema mais grave e pediram para voltar depois de fazer a cirurgia, mas infelizmente isso não aconteceu.”
Sem a possibilidade de fazer a cirurgia a tempo de regressar à competição no Sporting, a única opção foi dar a época 2020/21 por terminada e trabalhar para se manter à tona. Após longos meses a trabalhar novamente na Uber Eats, a porta voltou a abrir em Oeiras, onde o clube o inscreveu para que pudesse beneficiar do seguro, realizar a cirurgia e recuperar-se de modo a voltar aos relvados. Em novembro de 2021, Weslei Ferreira voltou a jogar, mas também não foram tempos fáceis. “Mudei muitas vezes de quarto para pagar o menos possível. Morei em Carnaxide, em Almada, no Pinhal Novo, Seixal…”, recorda. O Seixal acabou mesmo por ser a morada dos últimos meses da época, onde encontrou um quarto a 180 euros. Mas o preço mais acessível da renda trazia consigo um peso maior na rotina. “Saía às 6h30 para ir trabalhar em Algés como jardineiro. Às 17h00, ia para o clube e voltava a casa no fim do dia. Era assim de segunda a sexta; sábados ficava em casa e domingo voltava a Oeiras para o jogo”, descreve.
Diz o ditado que “quem espera sempre alcança” e, no final dessa época, surgiu novamente a oportunidade de dar o salto na carreira. E desta vez não houve nenhum percalço no caminho. Um dos fisioterapeutas do Oeiras, que também trabalhava no CF Estrela, levou Weslei Ferreira para os tricolores, que o integraram no plantel Sub-23. O jogador assinou um contrato de formação que já ajudava a pagar a renda de 300 euros, em Corroios, para onde se mudou, já que o clube não conseguiu uma casa perto da Reboleira. Foi o ponto de viragem na vida e na carreira. Weslei marcou 10 golos em toda a temporada, sagrou-se campeão da Liga Revelação Sub-23 e ajudou a equipa B do Estrela a subir à I Divisão da AF Lisboa, assinando um novo contrato durante a época que lhe duplicou o salário. Estava finalmente a viver do futebol, depois de tantos anos de luta.
Resiliência em nome do futebol
Weslei Ferreira assinou um novo contrato e passou a viver numa casa paga pelo clube, enquanto treinava com a equipa principal e figurava ocasionalmente nos Sub-23. Mas foi precisamente por passar meia época com poucos minutos em jogo que decidiu arriscar uma nova realidade e assinar pela Associação Black Bulls, de Moçambique, onde tinha condições de sonho para qualquer jogador: casa própria, alimentação garantida, carro e um bom salário. “Vi que já estava a caminhar por mim mesmo. Tinha chegado onde queria, já era profissional, podia ajudar a minha família e agora era só manter.”
A passagem por Moçambique não correu de feição e, com dificuldades para se adaptar, optou por regressar a Portugal, onde alugou um quarto no Parque das Nações com o dinheiro que tinha conseguido juntar em Moçambique. Por lá ficou um mês e meio enquanto aguardava propostas. “O União de Santarém contactou-me, mas quando souberam que tinham de pagar a transferência internacional, ofereceram apenas 600 euros. Aí surgiu o Vilaverdense, que pagou a transferência e ofereceu 800 euros com casa e comida”, revela.
O emblema de Vila Verde vinha de uma descida de divisão e atravessava um período conturbado, com a saída de cena do grupo de investidores que controlava o clube. Numa época muito complicada na Liga 3, Weslei Ferreira também sentiu os efeitos: “Ao fim de três meses começaram a falhar no salário e na alimentação. Tínhamos de levar sobras do almoço para comer ao jantar e, ao fim de semana, a alimentação começou a ficar por nossa conta.” Mais uma vez confrontado com a adversidade, foi o dinheiro que juntou que lhe garantiu alguma segurança: “Foi complicado porque também estávamos sem receber, mas como tinha dinheiro guardado, vivi normalmente. Quando cheguei lá disseram que as dificuldades já tinham acabado, mas não foi o que vi. Até tiveram de meter mais atletas na casa onde estava e tive de dividir o meu quarto”.

No fim da época, o jogador aproveitou para voltar ao Brasil e estar algum tempo com os pais. Foi nessa altura que surgiu a proposta do FC Oliveira do Hospital, que se revelou a mais vantajosa entre várias que recebeu e levou o atleta a aceitar o desafio de disputar o Campeonato de Portugal. Com um salário confortável, incluindo casa e alimentação, Weslei Ferreira está agora longe dos dias em que tinha o dinheiro contado para poder pagar o aluguer. Reencontrado com o seu melhor futebol, é o segundo melhor marcador da equipa do distrito de Coimbra e figura habitual no onze inicial. Olhando para trás, não esconde as emoções: “Graças a Deus posso dizer que tenho muito orgulho de onde saí e de onde estou hoje, porque tive muita força de vontade. E quem quiser vir tem de arriscar. Só assim é que conseguimos chegar onde queremos na vida.” E, ao apontar para o futuro, também não esconde que ainda sonha com outros palcos: “Quero chegar a uma liga maior, para poder olhar para mim e dizer «eu mereço estar aqui»”.
Poupar e investir
A história de Francisco Oliveira é, felizmente, de uma chegada ao topo sem tantos percalços. Aos 24 anos, Chico, como é conhecido no futsal, tem já uma licenciatura em Educação Física e Desporto, que conciliou com a sua carreira e que o levou a disputar dois campeonatos do mundo de universitários em 2022 e 2024, somando às várias internacionalizações jovens que tem por Portugal. Com o percurso na formação dividido entre Sporting CP e Leões de Porto Salvo, saiu do clube de Oeiras em 2023 para uma experiência no norte ao serviço do Caxinas, clube também da Liga Placard, onde teve uma época bem conseguida e resolveu mudar novamente de ares, mas desta vez para um destino bem mais pacato: Ferreira do Zêzere.
“Já conhecia os treinadores, o projeto era bastante aliciante e cativou-me desde o início. É um clube em constante crescimento”, explica. O SC Ferreira do Zêzere tem conseguido, de facto, atrair muitos atletas estrangeiros e de várias zonas do país, principalmente jovens, para o seu projeto. Desde 2022 no principal campeonato, o carismático clube do interior do distrito de Santarém oferece casa aos atletas, um fator de atração e sinal de um projeto com aposta forte nas condições dos jogadores. Apesar de a qualidade de vida não ter sido uma prioridade, Francisco Oliveira admite: “Fez-me bem estar numa zona mais tranquila como é Ferreira e perceber como é a vida no interior.”

À semelhança de Weslei, Francisco também soube da importância de poupar o máximo possível, especialmente numa situação em que o clube oferece estas condições, e com aquilo que juntou fez o investimento de uma vida e comprou uma casa juntamente com a noiva, dividindo agora a sua vida entre a capital e a vila de Ferreira do Zêzere consoante o horário de trabalho da equipa. Ainda assim, não esconde a morosidade do processo para um atleta que procure casa perto do clube onde atua: “Para quem esteja à procura de casa e não consiga encontrar, a crise de habitação pode afetar alguns jogadores e a sua carreira. No meu caso não, já consegui comprar casa em Lisboa e, apesar de gostar muito da vida no interior, as nossas vidas acabam sempre por se passar também na Grande Lisboa.”
O diretor da Secção de Futsal do clube, Paulo Nunes, explica também como as condições oferecidas aos atletas têm credibilizado ainda mais o projeto: “O maior trunfo é mesmo a seriedade do projeto, que tem dado palco e projetado vários elementos. A questão de fornecermos todas as refeições e darmos todo o apoio no que for necessário aos jogadores e familiares faz toda a diferença.” São estas condições que permitiram trazer atletas talentosos do Brasil e até mesmo de Angola, além de cada vez mais atletas nacionais: “Antigamente, era mais fácil contratar no Brasil, mas com a subida dos salários por lá e o bom nome do clube tornou-se mais fácil contratar em Portugal, principalmente jogadores jovens”, refere o dirigente. A aposta em trazer jovens talentos nacionais para Ferreira do Zêzere tem sido cada vez mais patente: além de Francisco Oliveira, que chegou com 23 anos, o clube recrutou este verão Lourenço Aguiar, de 20 anos, proveniente do AMSAC, de Loures, bem como Tomás Bento e Rodrigo Monteiro, ambos com 19 anos, provenientes do Burinhosa, além de Cristiano Coelho, de 33 anos, que se estreou como treinador principal depois de duas épocas como adjunto.
Ainda assim, e como ressalta Paulo Nunes, o clube também vive os seus desafios. Uma equipa de alto rendimento num campeonato competitivo traz muita despesa e, embora a realidade da habitação seja diferente de Lisboa, não se pode dizer que é um cenário fácil. “Cada vez que precisamos de mais alguma habitação é extremamente difícil de encontrar e o que normalmente aparece é a preços impossíveis para nós”, desabafa. Ainda assim, o clube consegue dar casa a todo o staff e a vários atletas, disponibilizando até um apartamento para um atleta casado e a mulher. Ainda assim, na opinião do diretor, não há propriamente uma vantagem face aos clubes das cidades: “Os clubes de média dimensão têm mais jogadores da sua zona e precisam de menos casas, e os grandes dispõem de casas próprias. Em alguns casos, no interior há habitação cedida pelo município, o que para a nossa autarquia é impossível neste momento.”
É certo que, mesmo não estando perante a pressão imobiliária de Lisboa ou Porto, Ferreira do Zêzere não é nenhum oásis onde a habitação nunca foi um problema, e o SCFZ construiu e solidificou o seu projeto independentemente das dificuldades que este tema envolve. Como esclarece Paulo Nunes: “A maioria das despesas vem no início da época e a maioria das receitas a meio ou no fim, mas vamos invertendo esta situação.” De forma perentória, conclui: “A habitação é neste momento a maior despesa do projeto.”
Mais que um clube, defender todo um bairro
Na freguesia de São Vicente, em Lisboa, a uma curta subida da estação de Santa Apolónia, encontramos o Mirantense Futebol Clube, originário da Rua do Mirante, a escassos metros da atual sede. O clube ganhou muita atenção nos últimos anos por ter recuperado a tradição da Rampa de Santo António, uma prova de ciclismo que foi muito popular na capital nas décadas de 50 e 60 e que consiste puramente na subida da Rua do Vale de Santo António, uma avenida muito íngreme e longa no coração do bairro – e onde se situa a sede do clube.
Este clube tomou para si a importante missão de manter o espírito de comunidade e família num bairro cada vez mais gentrificado. É algo patente em toda a dinâmica do clube, desde a entrada da sede, preenchida por moradores que jogam alegremente às cartas, até à forma como somos recebidos. A presidente, Michele Faro, chama para a conversa Raul, uma das pessoas com mais horas passadas no clube. Depois de vários anos preso, Raul saiu com quase nenhum contacto para o ajudar a recomeçar, mas houve uma porta que se abriu e deu impulso a um recomeço: o Mirantense Futebol Clube. Para ele e tantos outros, aquela sede é porto seguro, um local onde sabem que serão bem acolhidos e olhados como iguais. Como o próprio diz, “o Mirantense é família”.
Michele Faro, a presidente, é filha de uma francesa que se apaixonou por um taxista e se fixou naquela zona da cidade. Habituada desde sempre à vida e ao convívio nos clubes, começou a frequentar o Mirantense quando outro clube da zona, os Bem-Intencionados, teve de fechar as portas pelo aumento da renda da sua sede. Naquele clube, os filhos podiam passar o tempo, divertir-se e criar laços com o bairro, tal como ela. Foi precisamente numa altura delicada do clube, em 2016, que Michele Faro se chegou à frente. “Havia uma Assembleia Geral de dissolução do clube, porque isto era só dívidas”, conta. “Pedi a palavra e disse: não aceito que o clube feche. Quem é que se junta a mim?”. Logo ali, montou uma comissão administrativa e meteu mãos à obra para salvar o clube. Com os donativos da Voz do Operário e da Caixa Económica Operária conseguiu equipar de novo a sede e começar a fazer algum dinheiro, contando também com a ajuda de fadistas amadores que se disponibilizaram para cantar em tardes de fado no clube. Pequenos gestos que mantiveram o Mirantense à tona.
Um ano mais tarde, um percalço ainda maior: uma carta chegou à sede do clube com a informação do senhorio de que havia vendido o edifício. O novo dono, um fundo imobiliário francês, fez-se representar numa reunião com a direção por um advogado e um tradutor. Michele Ferreira, à data presidente da Assembleia Geral do Clube, ouviu o tradutor confidenciar em francês ao advogado que aquele assunto estava “no papo” e iam avançar com a proposta inicial de quatro mil euros para expropriar o clube dali. Michele bateu o pé e falou com o advogado na sua língua: “Sou Michele de Boullier Faro, diretora financeira de uma multinacional e presidente da Mesa da Assembleia do clube e, como tal, todas as decisões passam pelo órgão que eu dirijo. Ou vêm aqui apresentar uma proposta benéfica para o clube, ou não temos acordo.” A reunião ficou por ali, mas ficou também a certeza de que ninguém se ia aproveitar do Mirantense. A Câmara de Lisboa só tinha um espaço no Lumiar, algo impensável, mas a solução veio uns números acima. Um sócio do clube tinha no n.º 33, a alguns metros do n.º 15 onde estava a sede, um armazém anexo à sua loja de componentes eletrónicos. Era a luz ao fundo do túnel para o clube, que renegociou com o fundo imobiliário e quadruplicou o valor da indemnização, além de ter feito com que os franceses assumissem os custos das obras de adaptação ao novo espaço.

A coragem do Mirantense
Numa sede mais pequena, o clube teve de se adaptar, mas nas adversidades encontraram força para subir e manter a chama do bairro viva, apesar da crescente gentrificação e dos muitos vizinhos do bairro que tiveram de sair. “Temos pessoas daqui que foram para a Lourinhã”, conta Michele Faro. “Uma senhora, sócia do clube, recebeu uma carta do senhorio a aumentar a renda de 700 para 1800 euros. Um casal que recebe o salário mínimo com uma filha e a mãe de um deles a seu cargo. Como é possível?”, lamenta.
A realidade de um clube de bairro naquela zona da cidade é cada vez mais algo fora do normal da cidade de Lisboa, havendo até episódios de autocarros de dois andares parados em frente ao clube para os turistas observarem os costumes daquela gente, um cenário que Michele Faro compara a um autêntico jardim zoológico. Apesar de temer que a gentrificação afaste as pessoas do clube, a presidente não vê perigo imediato: “Há pessoas para quem uma renda de 3 mil euros não é nada, mas que percebem o que é isto e querem fazer parte.”
Apesar das contrariedades, o Mirantense resiste. A sede está cheia de sócios todos os dias do ano, a Rampa de Santo António vai para a 6.ª edição consecutiva em 2026 e já se criaram duas equipas seniores de futebol, uma no Campeonato Inatel e outra na AF Lisboa. Para já, vai ser difícil apagar esta chama no bairro.
Também o SC Ferreira do Zêzere irá lutar por manter o seu projeto, sejam quais forem os entraves criados pela especulação e crise na habitação. E também Weslei Ferreira irá continuar a acordar todos os dias para viver o seu sonho de ser atleta profissional. São histórias de resistência, resignação e luta, que acima de tudo deixam algo bem vincado: o desporto também quer casas para viver.