É dia de jogo. O apito inicial aproxima-se e a bancada do Pavilhão Henrique Miranda, casa do Clube Atlético de Queluz (CAQ), começa a encher. Como habitual, depois de se reunirem no ringue exterior, os Ultras Queluz entram e ocupam o lugar que antes pertencia à Fúria Negra. Ouvem-se as primeiras batidas do tambor, a bandeira é levantada e o pavilhão começa a ganhar vida. Dentro de campo, o som do drible, o choque entre corpos e o chiar dos ténis são familiares. Fora dele, algumas caras que se veem também o são.
Depois de quase duas décadas fora da elite, o emblema da Linha de Sintra, que foi duas vezes campeão nacional, regressou, na época passada, ao principal escalão do basquetebol português, a atual Liga Betclic. Num retorno que não foi fácil, mas mostrou que, apesar das mudanças profundas, o CAQ não perdeu aquilo que o define: as pessoas. “Os adeptos sempre ficaram com o Queluz e sempre ficarão, independentemente da divisão”, sublinha Josimar Cardoso, jogador que tanto viveu parte da descida como, anos mais tarde, enquanto capitão, levou a equipa de volta à 1.ª Divisão.
A queda de um histórico
A principal figura por trás do grande regresso é João Machado. Proveniente da secção de basquetebol do Belenenses, chegou a Queluz em 2016. Começou como diretor desportivo e assumiu a presidência no ano seguinte. “Não fazia ideia do que era o Queluz, não sabia da sua história, nem de nada”, admite João Machado, que, ainda assim, não hesitou em aceitar o desafio e prometeu “ajudar no que pudesse”.
Fundado a 5 de junho de 1933, o Clube Atlético de Queluz nasceu com a columbofilia, um nome que pode não dizer muito às gerações mais novas, mas que consiste em corridas de pombos. Gradualmente, foram surgindo mais modalidades, tais como a ginástica e o tiro com arco, que ajudaram o clube a afirmar-se como uma instituição eclética. No entanto, foi no basquetebol que o Queluz construiu uma identidade própria e alcançou projeção nacional.
Na época de 1983/84, fruto do fim da secção de basquetebol do Sporting, Mário Saldanha, presidente do CAQ na época, convenceu Carlos Lisboa – apontado por muitos como o melhor basquetebolista português de todos os tempos -, Rui Pinheiro e Augusto Baganha a juntarem-se à equipa. Três contratações decisivas que estiveram na base da conquista do 1.º campeonato nacional do clube.
Foi com o tempo e com o apoio de quem já estava há mais anos no clube que Machado acabou por perceber ter em mãos a gestão de um histórico do basquetebol nacional, cuja última vez que tinha estado no topo remonta à época de 2004/05, quando, sob orientação de Alberto Babo e com Carlos Andrade a ser “peça-chave”, conquistou o 2.º campeonato nacional e a Taça de Portugal.
Na altura, o futuro parecia promissor, longe da dura realidade que se viria a testemunhar. Os custos associados à participação nas competições europeias e à tentativa de manter um plantel competitivo expuseram fragilidades estruturais e erros de gestão, que levaram o CAQ a declarar insolvência em 2006.
Para assegurar a sua continuidade, o clube acabou por abdicar do nome. “A 30 de agosto, um grupo de sócios avançou com a criação de uma nova entidade, o Núcleo de Basquetebol de Queluz (NBQ), que adquiriu os direitos desportivos de todas as modalidades. Foi a maneira que se conseguiu fazer um novo clube, com outro número de contribuinte, para não haver problemas com as finanças”, conta João Machado.
Apesar da instabilidade, o Queluz só desceu de divisão na época seguinte, altura em que a Liga funcionava como uma competição fechada, dependente de garantias bancárias e não apenas do mérito desportivo. O clube não conseguiu cumprir os requisitos exigidos e caiu para a Proliga.
Foi nesse contexto que Josimar Cardoso chegou ao NBQ. Tinha 21 anos e procurava “dar o salto”, num início de carreira que se revelou complicado. “Houve vários problemas com salários. Chegou a haver um jogador que se recusou a jogar por ter um mês de vencimentos em atraso e isso afetou o balneário”, recorda.
O que se esperava ser apenas uma fase acabou por marcar o início de uma queda prolongada. “Entre 2006 e 2017, isto foi muito complicado”, refere o presidente, que, quando chegou a Queluz, encontrou o clube no Campeonato Nacional da 2.ª Divisão (CN2), 4.º e último escalão da modalidade.
De satélite a rival: CAQ VS CBQ
No início do processo de insolvência, surgiram problemas internos no Atlético, que culminaram no aparecimento de um novo clube na cidade, o Clube Basket Queluz (CBQ), até então equipa satélite do CAQ, onde jogavam os atletas que não tinham espaço na Liga.
Segundo uma fonte ligada ao CBQ, que não quis ser identificada, foi “um grande desentendimento entre o dirigente Hugo Martins e outros membros da direção que levou à cisão do clube”. Movido pelo argumento de que “o CAQ estava a investir muito pouco na formação e a pôr demasiado dinheiro na equipa principal de seniores”, Hugo Martins afastou-se e, em fevereiro de 2006, fundou o Clube Basket Queluz como uma equipa independente.
O pior veio dois anos depois, quando o projeto do CBQ ganhou nova dimensão e se alargou para o minibasquete. “Apoiado por alguns pais descontentes, o Hugo levou quase todos os minis do CAQ (NBQ na altura) para o novo clube. Acredito que essa tenha sido a maior facada”, sublinha a fonte ligada ao CBQ.
“Um clube qualquer da Liga tem de ter um minibásquete. Se não tiver, está tramado, porque é isso que depois alimenta toda a formação. Isto é uma pirâmide: estamos lá em cima, mas a base tem de ser grande”, destaca Gonçalo Faneco, atual treinador-adjunto e diretor desportivo do Atlético, que recorda a situação como algo “penoso”.
Em declarações à publicação Planeta Basket, em 2009, Hugo Martins justificou as atitudes com o querer criar em Queluz “uma base forte, sustentável e numerosa, dos minis aos veteranos, sem atropelos, e sem equipas profissionais cheias de estrangeiros, com muita despesa e sem receitas”.
Passados 20 anos, este episódio ainda é recordado pelo Atlético com alguma amargura. O presidente, João Machado, reconhece que, entre os adeptos, “é um tema quase proibido de falar”, uma espécie de tabu dentro do clube. “Na época, a comunidade lidou muito mal e, ainda hoje, não reage bem. A geração mais velha que viveu esse período sente uma rivalidade muito grande”, admite Gonçalo Faneco.
Já o presidente, embora não tenha vivido o momento, conta que, no seu entender, o sentimento “vai além da rivalidade, é ódio”. João Machado não esconde que foi “muito feio o que o CBQ fez” e sublinha que “só um clube como o Queluz, um clube de bairro, é que conseguia aguentar”.

O renascimento do CAQ
Durante anos, o clube viveu num impasse. Apenas em 2017, com mudanças na direção e João Machado a assumir a liderança, é que se iniciou uma reestruturação profunda, hoje tida como o momento de viragem. “O João trouxe a ambição de acordar o Queluz. Quando chegou, mexeu um bocado com isto tudo”, lembra Gonçalo Faneco.
A mudança não passou despercebida a ninguém, sentindo-se, também, entre os mais novos. Duarte Meném, atualmente o jogador há mais tempo no Queluz, tinha 13 anos na altura, mas não esquece o momento: “Foi do género: ‘Isto agora é para começar uma coisa a sério, depois de várias épocas em que não acontecia nada de diferente”.
As palavras que Duarte recorda foram como um presságio. Já com um ano de casa, João Machado percebeu rapidamente onde tinha de intervir. Consciente da importância da identidade do clube, estabeleceu os principais objetivos sem grande dificuldade: recuperar o nome original e o vínculo emocional com a comunidade, que se foi perdendo com o tempo.
“Aqui na zona, sempre fomos conhecidos como o Atlético e o nome Núcleo de Basquetebol de Queluz não dizia nada às pessoas”, começa por explicar o presidente. “As pessoas sabiam que havia basquetebol, mas não sabiam que éramos nós. Até há, pelo menos, quatro anos, pensavam que isto tinha fechado”, acrescenta.
Foram dois anos de batalhas burocráticas, até que, em fevereiro de 2019, o Clube Atlético de Queluz (Património Mundial de Sintra) voltou formalmente. Uma conquista que, à primeira vista, poderia parecer apenas um detalhe, mas que simbolizava a recuperação de parte da identidade do clube e voltava a colocar no mapa o histórico Queluz.
A subida que devolveu o Queluz à elite
Com o tempo, pequenos feitos, como a atribuição do Estatuto de Clube Formador, indicavam que o caminho a ser percorrido era o correto. Ainda distantes do que o clube já tinha sido, o Queluz começava, finalmente, a orientar-se e, degrau a degrau, a subir desportivamente.
Por trás da evolução, existia um plano assumido pela estrutura, que priorizava a paciência em detrimento da pressa: “Era um ano de estabilidade, um de aprendizagem, depois outro de estabilidade e só então um ano mais ambicioso”, explica. Foi seguindo esta filosofia de trabalho que, na época 2020/2021, o clube regressou à Proliga.
Mudada a divisão, o plano manteve-se, mas sofreu alguns ajustes inesperados. A primeira época revelou-se uma verdadeira surpresa, com o Queluz a alcançar os playoffs de promoção e a cair apenas nas meias-finais. Um resultado que poderia ter sido um indicador de um percurso promissor na ProLiga, mas que não teve continuidade imediata.
Contrastando com a época de estreia, as duas seguintes foram marcadas por um desempenho aquém das expectativas, que levou a uma mudança de treinador numa fase inicial da temporada de 2022/23.
César Rodrigues, então com 29 anos, recebeu um voto de confiança e passou de treinador-adjunto a técnico principal. Nas mãos tinha o desafio de conduzir a equipa que se encontrava em último lugar. Algo que fez com alguma tranquilidade. “Apesar de ser muito novo e de ir pegar pela primeira vez numa equipa sénior, não estava a assumir um grupo qualquer”, lembra.
Chegado em 2018 ao clube para treinar os sub-16, César Rodrigues acabou por ficar responsável por um núcleo de atletas que foi passando de ano para ano. Quando assumiu a equipa principal, parte do plantel eram jogadores que já tinha orientado. “O conhecimento do grupo facilitou bastante o trabalho”, recorda César Rodrigues, que operou uma reviravolta e levou a equipa até ao grupo de promoção.
Com esta temporada, o plano de orientação parecia ter entrado nos eixos novamente. Cumprido o “ano de estabilidade”, seguia-se o da “ambição”. Confiantes na qualidade existente no plantel, os treinadores definiram sem grande hesitação o objetivo da época: “Ganhar a ProLiga”.
A mensagem de que “era para subir e era para ganhar sem qualquer tipo de desculpas foi passada na 1.ª reunião com todos os jogadores, mas nas costas do presidente”, conta, entre risos, César Rodrigues. “Havia uma pessoa que não acreditava e era eu”, admite João Machado, que, embora ambicioso, é visto internamente como uma das figuras que mais se preocupa em manter os pés assentes na terra.
Entre jogadores que se alinharam cedo com o objetivo e outros que demoraram mais a entrar no espírito, foi “a química competitiva fora do normal entre eles”, descrita por César Rodrigues, que, jogo a jogo, levou a equipa até à final do playoff de promoção.
A 10 de maio de 2024, o CAQ deslocou-se até ao pavilhão do Galitos para disputar o segundo jogo da final. Um encontro em que tudo ainda estava em aberto: uma vitória do CAQ significaria a consagração imediata de campeão da 2.ª Divisão, enquanto um triunfo da equipa da casa forçaria a “negra”, o jogo decisivo que decidiria o título.
Gonçalo Tavares, conhecido no basquetebol apenas como GT, afirma, sem grandes dúvidas, que a equipa favorita era a dos Galitos. Uma ideia partilhada pelo presidente, que reconhecia o facto de o adversário ser “mais forte”, mas que, na sua opinião, “lhe faltava algo importante que pertencia ao Queluz: a garra”.
Do início ao fim, as emoções estiveram à flor da pele. Depois de o CAQ terminar o 1.º quarto com uma desvantagem de 16 pontos, algo mudou na atitude da equipa. Motivados pelos Ultras, que se faziam ouvir e sentir como se tratasse de um jogo em casa, a equipa foi crescendo e, quando a buzina final soou, o placar marcava 90-96. O Atlético acabava de vencer a Proliga e carimbava o regresso à 1.ª divisão, 16 anos depois.

Recuperar o tempo perdido
“Voltar à Liga foi, basicamente, começar do zero. Era um Queluz novo, com uma direção e jogadores que nunca ali tinham estado”, conta o capitão Josimar Cardoso, o único com experiência na competição.
O CAQ estreou-se na Liga Betclic com uma vitória em casa frente ao Póvoa. Um arranque positivo que acabou por não ter continuidade. “Chegámos com uma moral de todo o tamanho. Sentíamos que, se o que tínhamos feito até ao momento tinha corrido tão bem, não precisávamos de nada de outro mundo. Mas acabámos por sofrer um choque de realidade”, confessa César Rodrigues.
Num regresso de grandes incertezas, a equipa técnica delineou um projeto assente na ideia de aprendizagem. “O nosso objetivo era a manutenção. Uma vez atingida, estaríamos tranquilos, porque sabíamos exatamente onde tínhamos falhado e o que tínhamos de fazer para estar na Liga», diz.
O Queluz, apesar de algumas alterações na equipa, decidiu apostar no grupo que tinha alcançado a subida. “Acreditávamos muito neles», afirma. No entanto, com o decorrer da época, a equipa técnica percebeu que o plantel montado não correspondia às exigências da Liga, sobretudo “a nível de fisicalidade e maturidade competitiva”. Como admite: “Todos os grupos têm um limite e os jogadores não nos conseguiram dar a resposta que queríamos. Aliás, nós próprios também ainda não estávamos preparados para esse nível.”
GT sentiu essas dificuldades na pele. Com pouco mais de 1,80 metros, admite algumas “desvantagens físicas”, que o obrigaram a adaptar o estilo de jogo: “Tive de assumir um papel mais de lançador, com menos bolas, e dedicar-me a ações mais específicas de que a equipa precisava.” Se bem que todos os jogadores tiveram de aprender a encaixar-se num estilo de jogo ao qual não estavam habituados.
O Atlético sofreu mais do que esperava, com a manutenção a ser assegurada apenas na última jornada. Terminaram o campeonato com apenas cinco vitórias, no limite da despromoção, com os mesmos pontos do Póvoa, que desceu.

Uma equipa feita de boas pessoas
João Machado reconhece que “o sucesso mais importante não está nos 40 minutos de jogo ou nos treinos, mas sim no trabalho que os treinadores fazem desde abril até meados de agosto para escolher os jogadores”.
Na preparação para a atual época, Gonçalo Faneco revela que, já conscientes das exigências da Liga Betclic, a direção teve de ser “mais racional do que emocional e cortar relações com alguns jogadores, procurando construir um plantel mais físico”. Na contratação de jogadores, confiante na equipa técnica, o presidente tem como principal requisito uma pergunta: “É boa pessoa?”. A partir daí, passa por respeitar o orçamento, que, segundo o mesmo, são cerca de 200 mil euros – e “não errar nas escolhas, pois dificilmente vão ter oportunidade de ter um substituto”.
Dentro e fora de campo, o CAQ parece ter feito um lançamento certeiro na contratação dos estrangeiros para esta época, que assumiram rapidamente lugar no cinco base da equipa. As estatísticas falam por si: os seis reforços americanos têm uma média de mais de 10 pontos por jogo, com alguns deles a terem os arremessos fora de área como peça-chave de desbloqueio do jogo.
O reforço do plantel, porém, não se ficou pelos atletas estrangeiros. Danilo Horta, José Carneiro e Arnette Hallman juntaram-se também ao grupo, este último com uma carreira extensa e experiência acumulada ao mais alto nível, após passar por Sporting, Benfica, FC Porto e Oliveirense. Aos 38 anos, Arnette Hallman assumiu rapidamente um papel de referência no balneário, consciente de que a sua influência vai além do jogo. O próprio admite que a sua missão passa por “dar o exemplo e ajudar os mais novos a seguirem um caminho de rigor e profissionalismo”.
Nos treinos, a equipa sénior cruza-se com atletas dos escalões sub-23 e sub-18, numa dinâmica acompanhada de perto por André Stratoudakis, preparador físico da equipa principal e treinador dos sub-23, que destaca a importância dessa convivência. “Tiramos imenso proveito de os ter no treino, a fazer frente à malta que joga mais”, diz o antigo jogador do CAQ, acrescentando ainda que “um plantel de treino não pode ter apenas os oito ou nove mais utilizados; precisa dos outros também”.


O Queluz não é melhor nem pior, é diferente
João Machado comenta muitas vezes que “o Queluz não é melhor nem pior, é diferente”. Para quem não conhece a história do CAQ, pode parecer uma afirmação bastante vaga, mas que ganha sentido através da “identidade cultural do clube que, com grande facilidade, envolve os que por lá passam”.
Reconhecido a nível nacional, no Pavilhão Henrique Miranda vive-se um dos estados mais puros e apaixonados do basquetebol português. O barulho no topo da bancada, provocado pela claque dos Ultras Queluz, faz parte da diferença. São um grupo composto, sobretudo, por antigos jogadores da formação e amigos, que encontraram uma paixão no clube e, com o tempo, converteram-se, também, em parte da alma do Atlético.
Os Ultras são os que mais puxam pela equipa e metem a bancada inteira a vibrar, o que se reflete diretamente em campo. Duarte Meném, extremo de 21 anos, que já joga neste pavilhão há mais de 12, confirma que o “barulho funciona como um impulso que não passa despercebido aos atletas”: «Na época passada, eu olhava para a bancada e estava toda a gente a cantar por nós. Olhava para os americanos e notava-se que eles sentiam ali uma vontade diferente, apesar de não perceberem nada do que estava a acontecer. Existe aqui um ambiente que, sinceramente, não vejo em mais pavilhão nenhum em Portugal. Há parecido, mas não igual.”
“Todos os jogadores, todas as equipas gostam de vir aqui jogar. Isto é diferente, isto é arrepiante”, partilha João Machado. A chegada de Arnette Hallman esta temporada vem, precisamente, confirmar as palavras do presidente. Com mais de 20 anos de ligação ao basquetebol e tendo já passado por pavilhões nacionais e internacionais, não esconde o fascínio pelo que se vive no Pavilhão Henrique Miranda: “Quando assinei pelo Queluz, a vontade que tinha de poder conhecer estes adeptos que vêm ao pavilhão era muita… eu sempre estive do outro lado e, agora, é bom estar do lado onde me apoiam e motivam.”
Em poucos meses, o extremo de 38 anos desenvolveu uma relação de grande reciprocidade com os adeptos. Quando sente que a equipa necessita um pouco mais da energia vinda de fora, é o próprio que puxa por eles. “Ao fim ao cabo, é dos jogadores que mais vezes tem interagido com o público”, acrescenta Gonçalo Faneco.
No CAQ, Arnette Hallman está a viver algo que distingue a sua passagem pelos clubes anteriores: “o conceito de família”. “Uma família no verdadeiro sentido da palavra, ampla e presente, que engloba não só a equipa, como também os treinadores, a direção e todo o staff, sem esquecer a querida dona Lívia, responsável pelo tratamento dos equipamentos, assim como os adeptos, parte essencial deste espírito de união.”

Um bairro e uma paixão
Queluz é exceção num país que tem o futebol como “desporto-rei”. A alma bairrista uniu a cidade em volta do basquetebol, criando uma paixão que não só moldou gerações como, em alguns casos, foi passada como um verdadeiro testemunho.
Durante a década de 80, todas as pessoas se conheciam. As crianças brincavam na rua, havia um forte sentimento de vizinhança e os jogos de basquetebol eram o evento mais aguardado da semana. No entanto, os tempos mudaram. Queluz é hoje uma cidade marcada pelo envelhecimento demográfico e por uma multiculturalidade vibrante.
“Muitos jovens da formação desconhecem que o clube já foi Campeão Nacional. O que lhes interessa é a NBA”, partilha o presidente, com algum desconsolo e preocupação, que o levam a afirmar que “quando o Queluz deixar de ser clube do bairro, está tramado”. Mas será que é mesmo assim?
Na última época, o CAQ registou uma média de 520 espectadores nos jogos em casa, superando os 410 da temporada anterior. Independentemente do contexto destas pessoas, os números refletem a reaproximação da comunidade e a vontade de elevar o nome do Atlético.
O atual objetivo passa por “assegurar a manutenção o mais cedo possível e depois tentar picar um lugar no playoff de campeão”, afirma o treinador adjunto. Conscientes de que, para já, o campeonato não é uma possibilidade, no clube partilha-se entre todos que a conquista de uma taça poderá não estar assim tão distante. Na sala da direção, onde a história do CAQ se materializa com troféus, galhardetes e molduras antigas que imortalizam a passagem de alguns dos nomes mais sonantes do basquetebol nacional, permanece a expectativa de novas conquistas.