O diário impróprio de Ana França

"Ali Está o Taras Shevchenko com um Tiro" na Cabeça é um diário escrito na primeira pessoa por uma jornalista que cobriu o conflito na Ucrânia e procurou restituir a anormalidade da guerra num tempo que a normaliza

Ana França estranha o facto de ter acabado a escrever um livro. Não pensou que isso lhe fosse destinado. “Não cresci numa família em que produzir arte ou coisas que fiquem para a posteridade, seja música, livros, artes plásticas ou teatro, fosse algo normal”, reflete. No entanto, quem lê Ali Está o Taras Shevchenko com um Tiro na Cabeça percebe de imediato o quão dolorosamente perenes são aquelas páginas e, como quase tudo o que acaba por ser impressionante, começou com uma mera circunstância. 

Ana França, jornalista no jornal Expresso, recebeu uma chamada do diretor daquele semanário, quando estava no segundo dia de férias em Trieste, Itália. Era 24 de fevereiro de 2022 e a Rússia tinha invadido a Ucrânia há umas horas. Necessitavam de um repórter no terreno. Mais: precisavam da repórter que há meses acompanhava a situação, estivesse ela ou não apenas “com roupa para os seis dias de férias que tinha previsto”.

Um dia depois, Ana França estava a caminho de Lviv, junto à fronteira com a Polónia, e começava a aventura jornalística que daria voz a milhares de ucranianos que sofriam uma guerra à porta da Europa. É no detalhe das descrições, nas citações desesperadas, na crueza dos cenários, na franqueza da narrativa que paira a sensação de dissociação. As histórias que Ana França conta, a maioria publicadas no Expresso, transportam-nos para as ruas ucranianas. A jornalista convida a visualizar a fábrica improvisada de cocktails molotov, em Lviv, a “Amazon da ajuda humanitária” em Odessa ou até uma estação de comboio apinhada de ucranianos reféns na sua própria terra. 

As fotografias que acompanham os textos no jornal dão vida ao relato, complementando a montanha de emoções a que já nos havíamos proposto. Ir à procura delas no arquivo do Expresso é missão obrigatória.

A arte da narração

A estátua de Taras Shevchenko, poeta ucraniano do século XIX, levou um tiro na cabeça quando soldados russos passaram por Borodianka, em Kiev. Muitos encararam esse ato como uma tentativa de eliminar a memória coletiva. Ao escrever este livro e inspirar-se nesse acontecimento para lhe dar o título, Ana França quis fazer o oposto: preservar essa memória.

A jornalista conta histórias verdadeiras à boleia da sua visão atenta. São as especificidades dos espaços e das pessoas que dão cor a um conflito cinzento e fazem recordar que aquilo a que assistimos a partir do topo da hierarquia tem uma consequência direta nos corpos e nas mentes.

Quase quatro anos depois, sentada numa secretária da redação do Expresso, a jornalista conta que era quando se via sozinha num quarto ou num lobby de um hotel, que finalmente tinha tempo para absorver tudo o que estava a viver. A normalização da situação a que se obrigava era um mecanismo de defesa.

Jorge Gomes Miranda, jornalista e poeta, escreveu no jornal Público: “Parece ser condição e sina (…) dos escritores em particular serem convidados a reflectir sobre qual o papel da palavra, do livro, da arte em geral, neste tempo presente”. A reflexão sobre a existência fica para os criativos, para os que se chegaram à frente no exercício de descodificação da vida humana. Se assim é, não poderia deixar de pedir a Ana França que fizesse esse exercício. O que a levou a pôr num livro histórias já contadas em papel de jornal? Porquê esta metamorfose no formato?

Para Ana França, a resposta reside na anormalidade do que viu e na necessidade de uma espécie de elevação de estatuto dessas histórias. Para muitos, aquele era o novo “normal”: “Foi isso que tentei aproveitar para o livro; coisas que, para mim, se banalizaram passado uma semana. O recolher obrigatório, o não poder comer quase em lado nenhum depois das 16h30, porque as pessoas tinham de limpar o restaurante e depois ir para casa nos seus próprios transportes. Às seis ou às sete da tarde, dependendo das áreas do país, tinham de estar em casa e isso é tudo vai-se tornado tão banal que nos habituamos, mas não é nada normal a polícia mandar-nos parar na rua se estivermos a fumar um cigarro às oito da noite porque podemos, sei lá, ser colaboradores russos ou espiões. Toda a paranoia…”

Ana França quis transmitir como a vida das pessoas em clima de guerra se torna insólita, mas também como o ser humano é obrigado a adaptar-se e normalizar situações que lhe seriam extraordinárias. “Nada disto é normal. Só que é a vida das pessoas. Na Ucrânia, levantamo-nos às quatro da manhã, passamos por uma estrada que no dia anterior levou com não sei quantos mísseis e que, só por acaso, naquele dia não levou com nenhum enquanto eu estava a passar”, diz a jornalista, acrescentando: “Nada disto é normal, mas quase não conseguimos transmitir essa ideia no jornalismo.”

Talvez aí resida o deslumbramento pelo jornalismo narrativo. Há 60 anos, o jornalista Dan Wakefield defendeu num artigo escrito para o The Atlantic, com o título ‘The Personal Voice and the Impersonal Eye’, que “o envolvimento individual pode elevar o ofício do jornalismo à categoria de arte”. É um tipo de reportagem que rejeita a superficialidade revelando “as imagens, os sons e as sensações que rodeiam os factos”. Este método mais artístico de contar uma história, sugere, “não diminui os factos, mas antes lhes confere maior profundidade e dimensão”. 

Ana França dedica 90% do livro aos ucranianos que conhece e aos locais onde passa. Sem o limite de caracteres de um jornal, tem espaço para os pormenores e para a sensibilidade. Consegue dizer que a sair de Shevchenkove usava um colete à prova de bala e um capacete anti estilhaços, ao mesmo tempo que o carro onde ia era seguido por um helicóptero, numa estrada que era “um tapete de crateras” e que Andrii, o seu tradutor, andava a 20km/h “em valsas à volta de buracos”. 

Tem caminho aberto para contar que Oksana Erema, dona de uma casa agora destruída pelas tropas russas, tinha as “unhas e olhos pintados e vestia um fato de treino roxo”, enquanto lhe descrevia a manhã em que “dois morteiros” dizimaram o seu lar. Pode lembrar que viajou num comboio ciclópico que ficou horas parado, após os maquinistas receberem um alerta de que uma localidade mais à frente no troço tinha as sirenes a tocar, pelo que o protocolo mandava os veículos esperarem até ser seguro continuar. Tal como Wakefield ambicionou que o jornalismo narrativo fosse capaz de nos entregar um “relato civilizado, informal e interessante de um fenómeno desconhecido para muitos de nós”: a guerra.

Reconfiguar o nacionalismo

Em Ali Está o Taras Shevchenko com um Tiro na Cabeça levanta-se uma questão que se vai mantendo premente ao longo das páginas: o nacionalismo enquanto defesa.  A ideologia nacionalista assume atualmente muitas formas. Na Europa, parece estar cada vez mais associado a movimentos de extrema-direita  – em Portugal, protagonizados por grupos neonazis como o 1143 e a Reconquista – e “ser patriota” deixou de identificar, de acordo com o dicionário de português, apenas uma “pessoa que manifesta amor e orgulho pela pátria”, para se revestir de múltiplas leituras. Seguindo as palavras da autora, gostar de “inserir nacionalidade implica agora uma explicação complementar, pelo menos, na esfera pública”. Em Portugal, os próprios debates para a Presidência da República converteram-se numa discussão para decidir quem gosta mais do país. Preocupação aparentemente da esquerda à direita do espectro político.

Nesta Ucrânia que lemos, ser patriota assume um simbolismo completamente diferente. As pessoas que Ana França conhece exibem um nacionalismo cerrado, principalmente em oposição àquilo que “não são”. Os ucranianos não são russos. A maior parte quer ver-se livre dessa associação e, como a jornalista explica, “sentem-se muito europeus”. “Parece que eles já estavam mentalmente munidos de uma série de armas culturais para defender porque é que não são aquilo. Há muito tempo que acham isso e são muito patriotas nesse sentido de se sentirem muito europeus”, reflete. 

Para a jornalista, é claro que “a cultura faz muito parte da resistência ucraniana”.  E prossegue: “Achei isso muito fascinante na Ucrânia: o quão instruídas sobre a sua própria cultura as pessoas são. O quanto sabem do ballet, dos escritores, do que é que foram antes. A quantidade de livros e de cultura que têm em casa.”

Quando refletimos sobre exemplos de obras de jornalismo literário, alguns livros despontam imediatamente na nossa mente. Lembramos clássicos como o controverso A Sangue Frio, de Truman Capote, ou a bibliografia de Gay Talese. Dan Wakefield afirmou que a obra do primeiro elevou o jornalismo de investigação “ao nível de interesse social adequado para conversas de cocktail e comentários em críticas pouco convencionais”. Não evitamos incluir autores mais recentes que fazem linha na vanguarda do género, como Svetlana Alexievich (A Vozes de Chernobyl, A Guerra Não Tem Rosto de Mulher). Este livro juntou-se à lista, não fosse Alexievich admirada por Ana França, como a própria revelou.

Por via do jornalismo narrativo, a história da humanidade fica eternizada na mais bela das perspetivas, a de quem apenas é permitido observar, nunca intervindo. A quem resta sentir profundamente com o racional a obrigar-se a um exercício de descrição longe de sentimentalismos. A jornalista, como quase todos os jornalistas, trabalha para o seu empregador, escreve as histórias que os leitores devem conhecer, mas, no final do dia, a realidade que descreve não desaparece. Quando o parágrafo acaba, o autor apenas se desvanece na tela branca.  Na vida real, quando não há mais nada para contar, sobram os olhos pesados e um coração sobrecarregado.

No fim, o jornalismo cumpre a sua função mais pragmática: impedir o esquecimento. A história dos vivos em 2021 vai continuar a assombrar as futuras gerações. E o livro de Ana França será dolorosamente perene. 

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