Categorias como a Fórmula 1 não têm como requisitos apenas a resistência física e o talento. Exigem uma forte capacidade mental. Cada erro, cada decisão é analisada ao detalhe e cada corrida pode determinar o futuro de uma carreira ou mesmo custar a vida aos pilotos mais experientes. Aconteceu, como muitos recordam e é retratado num documentário da Netflix, a Ayrton Sena, a 1 de maio de 1994, durante o Grande Prémio de San Marino, no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola. A mesma pista onde, no dia anterior à morte da estrela brasileira, também morreu o austríaco Roland Ratzenberger, num acidente fatal na curva Villeneuve. A partir da morte dos dois pilotos, muito se debateram as questões de segurança na Fórmula 1 e as pistas tornaram-se mais seguras. No entanto, o perigo pode estar no interior da cabeça de um piloto.
No contexto de alta performance e exposição mediática global, a saúde mental dos pilotos continua a ser um tema pouco discutido. Antiga atleta, a psicóloga Rosana Teixeira admite que a experiência pessoal enquanto praticante de Atletismo marcou profundamente a forma como hoje trabalha a saúde mental no alto rendimento. “Estive muito focada e preocupada em perceber o comportamento do ser humano, perceber o porquê”, refere. Depois de se afastar temporariamente do desporto devido a lesões e dificuldades que, na altura, não conseguiu processar da melhor forma, encontrou na psicologia uma resposta para uma lacuna que sentiu na pele enquanto atleta.
A especialização nos desportos motorizados surgiu mais tarde, de forma natural, através de convites e do contacto direto com centros de alto rendimento, nomeadamente em Madrid (Motorsport Institute), onde trabalhou com estruturas ligadas ao automobilismo. Ao longo dos últimos anos, tem acompanhado pilotos de diferentes categorias, defendendo uma abordagem integrada que alia preparação mental, regulação emocional e desempenho.
Quando a adrenalina se transforma em medo
Num mundo desportivo cheio de riscos, em que o foco é uma ferramenta essencial, o piloto precisa de direcionar a precisão mental para os objetivos da prova e para o plano competitivo, e não para cenários de risco. “Se o atleta estiver com isso em mente até aumenta as probabilidades disso mesmo acontecer”, explica Rosana Teixeira.
Ainda assim, os acidentes deixam marcas. Tal como uma lesão física noutras modalidades, um episódio traumático em pista pode limitar o desempenho futuro do piloto. “O medo vai condicionar”, assegura a terapeuta, sublinhando que o trabalho psicológico passa pela reconstrução gradual da confiança, através do que descreve como “microdoses de confiança”, respeitando o ritmo e as características individuais de cada atleta.
“Eu sabia que ele ia travar, ele tem mulher e filhos em casa”, disse Fernando Alonso, após ultrapassar Michael Schumacher para vencer o GP do Japão, em 2005. O que poderia ser vista apenas como uma brincadeira do bicampeão do mundo poderá ser aquilo que passa pela cabeça de vários pilotos.

Num desporto em que o risco é real, a recuperação após um acidente não pode ser apenas física. A psicóloga defende que deve existir um plano estruturado de recuperação psicológica, com objetivos definidos e acompanhamento contínuo. Segundo Rosana Teixeira, “a resiliência, a paciência e a forma como o impacto emocional é trabalhado fazem toda a diferença no regresso à competição”.
Um dos acidentes mais marcantes do desporto motorizado foi o de Niki Lauda. Em 1976, o piloto austríaco estava a correr no circuito de Nürburgring, na Alemanha, quando o seu carro se incendiou. Sem conseguir sair do carro, Lauda sofreu várias queimaduras de elevado grau que o acompanharam para o resto da vida. “Disse antes e depois que tinha conquistado o meu medo rapidamente…, mas isso foi uma mentira. Estaria a ser ingénuo se eu transmitisse essa fraqueza aos meus rivais. Em Monza, estava cheio de medo”, palavras de Lauda na sua Autobiografia, To Hell and Back.
Mais recentemente, em 2020, no GP do Barém, Romain Grosjean embateu com o Haas que pilotava nas barreiras, o carro incendiou-se de imediato. Quando se pensava que o pior teria acontecido, o piloto francês conseguiu sair do carro, no entanto, acabou por sofrer algumas queimaduras. Dias depois, Romain Grosjean disse numa entrevista que “viu a morte a chegar”, num momento que garante que vai ficar marcado para o resto da vida.
Pressões externas à pista
Para além do risco inerente ao automobilismo, os pilotos lidam com outros fatores de pressão constante: a exposição mediática e a dependência de patrocinadores. Como explica Rosana Teixeira, este impacto varia consoante a fase da carreira: “Nos pilotos mais jovens, ainda em formação, o peso da exposição e do apoio financeiro pode ser determinante. Há quase uma obrigação implícita de saber comunicar e de se posicionar publicamente, porque os desportos motorizados são extremamente onerosos.” Já os pilotos mais experientes tendem a lidar com esta realidade de forma mais estável e estratégica, detalha a psicóloga.

Pedro Couceiro é uma das figuras mais marcantes do automobilismo português. Ex-piloto de Fórmula 3 e atual piloto do Safety Car do Mundial de Resistência (WEC), destacou-se desde cedo como um dos grandes prodígios nacionais e esteve muito próximo de alcançar a Fórmula 1.
A sua carreira começou nos karts, onde rapidamente se revelou um talento na sua época. Seguiu-se a passagem pela Fórmula Ford e pela Fórmula Opel, categorias fundamentais para a sua formação como piloto. Já nos anos 90, Pedro Couceiro chegou à Fórmula 3, competindo ao mais alto nível e lidando com as fortes pressões associadas ao estatuto de jovem promessa do automobilismo português.
Após a Fórmula 3, participou em vários campeonatos de GT, mantendo uma ligação constante ao desporto motorizado de competição. Atualmente, desempenha a função de piloto do Safety Car no Mundial de Resistência, um cargo de elevada responsabilidade que exige experiência, concentração e profundo conhecimento das corridas.
Para além da sua carreira em pista, Pedro Couceiro continua ligado ao automobilismo através da sua agência de gestão de pilotos, na qual é manager do piloto português de resistência Filipe Albuquerque, um dos nomes mais reconhecidos da modalidade a nível internacional. Entre a paixão pelos carros e a ligação a projetos ligados à música infantil, Pedro Couceiro mantém-se como uma referência do desporto motorizado nacional, deixando um legado que vai muito além das pistas.
Ao longo da sua carreira, Pedro Couceiro esteve sujeito a diversas pressões externas, uma realidade comum no desporto automóvel de alto nível. Embora reconheça que, com o tempo, muitos pilotos acabam por se habituar a essa exigência constante, admite que nem sempre é fácil lidar com ela. “Mesmo nos momentos em que tento ‘desligar’ da competição, como durante as férias, a pressão mantém-se, sobretudo por parte da comunicação social, dos patrocinadores e das responsabilidades financeiras. A parte psicológica é sempre muito importante”, afirma o ex-piloto.
Pedro Couceiro explica ainda que a vida de um piloto é, muitas vezes, marcada pela solidão. “A intensidade dos treinos, as frequentes viagens entre diferentes países e a distância da família e dos amigos contribuem para um desgaste emocional significativo”. A tudo isto juntam-se sentimentos como o stress e a ansiedade, que nem sempre são fáceis de controlar. A este propósito, afirma que “a ansiedade mata e o stress faz bem”, destacando a necessidade de saber gerir estas emoções. O ex-piloto acrescenta também que “apesar de integrarem equipas numerosas, são os pilotos que assumem a responsabilidade final de todo o trabalho desenvolvido”.
O ex-piloto internacional considera que “apesar de o desporto motorizado ser exigente desde cedo, o momento mais decisivo surge com a profissionalização da carreira, quando os pilotos precisam de estar mais fortes psicologicamente”, acrescentando que “para muitos, esse passo é difícil, pois implica abdicar de percursos considerados mais seguros, como concluir a universidade, gerando instabilidade emocional”.

A pressão constante começa ainda antes do primeiro contrato profissional. Pilotos que se destacam muito jovens enfrentam expectativas familiares e sociais intensas, o que torna o acompanhamento psicológico essencial desde cedo. Lewis Hamilton, sete vezes campeão do mundo de Fórmula 1, revelou que enfrenta problemas de saúde mental desde muito cedo. Associou episódios de depressão à pressão precoce da carreira, a situações de bullying e racismo durante a infância.
Começou a competir nos karts aos seis anos e, aos 13, já sentia os efeitos da pressão constante e do isolamento escolar. “Não tinha ninguém com quem conversar”, admitiu ao jornal inglês The Guardian. Aos cinco anos, era a única criança negra num clube de radiomodelismo, competindo contra adultos, experiência que deixou marcas profundas. “Sofri com a minha saúde mental ao longo da minha vida, sofri de depressão”, afirmou.
Lewis Hamilton recorreu pontualmente à terapia, sem resultados duradouros, encontrando na meditação uma forma eficaz de lidar com o desgaste emocional. “Sinto-me mais saudável do que nunca, física e mentalmente”, disse, acrescentando que hoje se considera um piloto mais completo do que no início da carreira. Mesmo no topo do automobilismo mundial, a saúde mental é tão determinante quanto a velocidade ou o talento.
Filipe Albuquerque compete atualmente na Internacional Motor Sport Association (IMSA) com as cores da Cadillac Wayne Taylor Racing e na European Le Mans Series, ou simplesmente, LMP2, pela Nielsen Racing. Nesta categoria, o piloto português foi campeão em 2020, na altura ao serviço da United Autosports.

Iniciou a carreira nos karts em 1993 e, em 2005, estreou-se na Fórmula Renault 2.0, prova que acabaria por conquistar no ano seguinte. Em 2006, foi distinguido como o piloto júnior do ano da Red Bull. Na altura, a marca de bebidas energéticas austríaca estava a dar os primeiros passos no desporto motorizado, ainda longe de ser uma das equipas mais dominantes da Fórmula 1. Em 2007, competiu na GP2 (hoje Fórmula 2), passando depois pela A1 GP, Superstars Series e DTM até chegar ao IMSA, prova em que compete desde 2016.
Nos momentos negativos, as redes sociais costumam amplificar as vozes dos críticos. No entanto, Filipe Albuquerque considera que tem “muita sorte”, pois sente “um carinho espetacular” dos seguidores, que olham para ele como alguém honesto e que admite os erros.

Desde cedo no mundo do desporto motorizado, o piloto natural de Coimbra admite que não consegue relaxar e a pressão está sempre presente no dia a dia. “Sinto que estou constantemente a ser avaliado e um mau resultado pode levar ao despedimento, mesmo que tenha um contrato para o ano a seguir”, confessa. Com os pés bem assentes na terra, Filipe Albuquerque usa quem está perto de si para o motivar. “São eles que me dão confiança para a próxima corrida. Quem me ajudou muito foi o Nuno e o Pedro Couceiro.”
Quando a mente do piloto começa a ceder
Os sinais de desgaste mental nem sempre são imediatos, mas existem indicadores claros. O sono surge como um dos principais alertas. “O sono é um fator em que se consegue perceber, de forma mais evidente, as manifestações de stress”, afirma a especialista Rosana Teixeira, acrescentando que “mudanças no apetite, variações de humor, irritabilidade ou alterações no comportamento habitual devem ser encarados como sinais de atenção”.
Manter a saúde mental ao longo de uma época exigente passa, acima de tudo, pelo autoconhecimento. Para a psicóloga, não existem fórmulas universais. “ O atleta não pode ter como termo de comparação o colega”, sublinha. Por isso, defende que quanto mais cedo o piloto aprender a conhecer os seus limites, rotinas e estados de funcionamento, maior será a sua capacidade de lidar com a pressão: “A melhor sugestão que posso dar a um atleta, inicialmente para tratar da sua saúde mental, é o autoconhecimento.”

Lando Norris tem assumido de forma aberta a importância do equilíbrio mental no auge da sua carreira. Em declarações aos meios de comunicação da F1, o piloto britânico revelou que a sua natureza introvertida o levou, desde cedo, a ser duro consigo mesmo, preferindo sempre olhar para dentro em vez de apontar o dedo a terceiros. “Sempre fui muito duro comigo próprio, porque nunca fui duro com mais ninguém… Nunca fui duro com a minha equipa, com os mecânicos, com o carro, com o acerto. Sempre trabalhei mais em mim próprio do que alguma vez culpei alguém, digamos, e isso acabou por fazer de mim a pessoa que sou”, afirmou, garantindo que nunca se escondeu atrás do desempenho do carro ou da equipa.
Ainda assim, Lando Norris reconhece que essa autocrítica extrema pode tornar-se num obstáculo. “Quero ser perfeito, quero a pole, quero ganhar”, confessou admitindo que a pressão excessiva nasce do desejo constante de excelência. “Preciso de aceitar que não vou ser perfeito”, acrescentou. O atual campeão de Formula 1 revelou que o foco passa por confiar mais na sua velocidade natural e manter a calma nos momentos decisivos. Um crescimento mental que tem sido determinante para o seu sucesso e para a consolidação do estatuto de campeão do mundo.
Apesar de reconhecer avanços, Rosana Teixeira considera que “a psicologia ainda não está plenamente integrada nos desportos motorizados”. Muitas vezes, este papel é assumido por treinadores de performance ou preparadores físicos, ficando o papel do psicólogo para momentos de crise. E alerta para o estigma que ainda associa o apoio psicológico à fragilidade: “A psicologia ainda é vista como algo apenas para resolver problemas emocionais, quando, na verdade, também serve para potenciar desempenho.”
Mais do que resultados imediatos, Rosana Teixeira destaca a importância de qualidades mentais como compromisso, disciplina e sentido de propósito: “A forma como o atleta se perceciona influencia o seu desempenho. Por isso, procuramos que a confiança do atleta e a forma como ele se vê não sejam construídas de forma tão redutora, centradas apenas no resultado final. O foco deve estar em todo o trabalho que o atleta desenvolve para lá chegar, naquilo que está ao seu alcance.”

Pedro Couceiro revela também que, desde cedo, trabalhou com um psicólogo, especialmente quando se encontrava no auge da sua carreira desportiva. Considera que “esse acompanhamento foi essencial para sair da adrenalina constante da competição e para encarar a vida de uma forma mais equilibrada”, ajudando-o a relativizar os erros e a pressão exercida pelos adversários. O ex-piloto acrescenta que “apesar de o desporto motorizado ser frequentemente visto como glamoroso, a realidade de um atleta de alto rendimento é feita apenas de cerca de 15% de sucesso, sendo os restantes 85% marcados por momentos menos visíveis e mais difíceis, que fazem parte do processo de aprendizagem”.
Apesar de ter atingido patamares elevados nas provas de resistência, Filipe Albuquerque afirma que nem sempre os resultados são os melhores e conta que nunca aprendeu a lidar com os momentos negativos. “Quando é um erro da equipa é menos mal, porque sei que pouco posso fazer. Agora quando é um erro meu, deixem-me sozinho. Fico muito chateado comigo mesmo.” Depois de pedir desculpas à equipa, Filipe Albuquerque prefere isolar-se e, quando volta à pista, já esqueceu o erro cometido e procura fazer melhor.
O erro e a exposição constante fazem parte da carreira de qualquer piloto, uma realidade que se aprende a aceitar com a experiência. Pedro Couceiro reconhece que “errar é humano”, mas lembra que “no desporto automóvel, as consequências podem ser particularmente graves”. Ainda assim, considera “essencial não condicionar decisões futuras com base em erros do passado”.
Simulação vs Vida real
Entre a entrada nas Fórmulas e os dias de hoje, o desporto motorizado acompanhou os desenvolvimentos tecnológicos e o desenvolvimento dos carros é feito com maior preponderância do simulador e menos trabalho em pista. Filipe Albuquerque acredita que “os treinos em pista são sempre melhores”, mas compreende que os custos “muito dispendiosos levam as equipas a optar pelo simulador”. Ainda sobre este tema, o antigo vencedor das 24 Horas de Le Mans, na categoria LMP2, deixa o alerta para os perigos do simulador. “Acho que nos podem enganar em termos de afinações. Temos de ter a noção do que se está a fazer e não seguir cegamente”, conclui.
Apesar de, na sua época, os simuladores serem pouco utilizados, Pedro Couceiro considera que estas ferramentas são importantes para os pilotos desenvolverem métodos de trabalho e melhorarem o desempenho. No entanto, sublinha que nada substitui o treino em pista, uma vez que não existe qualquer simulação capaz de reproduzir totalmente a adrenalina e, sobretudo, o risco inerente à competição.
Numa carreira com passagens por diversas categorias, Filipe Albuquerque considera que os saltos que deu ao longo do seu percurso, caso corresse mal, “era o início do fim”. Ao escolher o salto mais exigente da carreira, o piloto aponta para o ano de 2005. “Quando dei o salto dos karts para os Fórmulas, consegui fazer um bom primeiro teste e ser piloto da equipa júnior da Red Bull, o que me possibilitou ter épocas de enorme investimento.”
Desafiado a ir ao baú das recordações para escolher o momento mais marcante da carreira, Filipe Albuquerque apontou para vários e não escondeu o orgulho por aquilo que alcançou ao longo dos anos: “Os tempos dos karts, ser campeão da europa de Fórmula Renault 2.0, andar de Fórmula 1 com a Red Bull, ganhar as 24 horas de Daytona e de Le Mans.”
Com uma carreira de cerca de 20 anos e vários momentos marcantes, Pedro Couceiro destaca como um dos pontos altos o título de campeão nacional, conquistado num campeonato extremamente competitivo, no qual teve como adversário Pedro Lamy, ex-piloto português de Fórmula 1. Para rematar, salienta a importância da sua internacionalização, que lhe permitiu competir ao mais alto nível, frente aos melhores pilotos do mundo.