É dia de treino e, como de costume, chego ao ginásio uns minutos antes. Aparentemente, é tempo suficiente para que já esteja alguém pendurado no espaldar, outro a fazer acrobacias de técnica duvidosa e outro tenha decidido começar a fazer o aquecimento… deitado. No chão. A olhar para o teto. Inspiro fundo. Ainda nem comecei e já estou a fazer exercício mental.
“Pessoal, alinhem para aquecer!” digo, cheia de esperança. Alinham. Em teoria. Porque há sempre um que acha que alinhado significa estar mais ou menos perto dos outros, e outro que insiste em dançar para aquecer. Tento começar com boa energia, mas já estou a tropeçar em perguntas tipo: “professora, vamos fazer jogos hoje?” e “podemos saltar já?”. É sempre assim: motivação total para a parte divertida, amnésia coletiva para tudo o que exige concentração.
Passamos à parte técnica. Hoje, trabalho de precisão no trampolim. Explico a sequência. Clara, objetiva e direta. “Perceberam?” Todos acenam com a cabeça. O primeiro a saltar faz tudo ao contrário. O segundo tenta acertar, tropeça na aterragem e sai-se com um clássico: “Estava só a testar”.
Enquanto observo, dou por mim a pensar como cheguei aqui. Comecei nisto aos seis anos, e só porque as minhas amigas andavam. Continuei porque alguma coisa me prendeu. Talvez os saltos, os desafios, ou o mistério de não saber que parte do corpo é que me iria doer no treino seguinte. Anos passados, e já depois de deixar de competir, surgiu a hipótese de treinar. Aceitei meio sem saber, e agora estou a mandar parar conversas paralelas e a impedir que alguém transforme o colchão num escorrega.
Ao que parece, ser treinadora tem muito menos a ver com mandar e muito mais com ouvir, adaptar, adivinhar o que está prestes a correr mal, e a elogiar o que quase correu bem. Nem todos os alunos se parecem comigo quando tinha a idade deles. Eu levava aquilo muito a sério, até demais. Mas há momentos em que vejo nos olhos deles aquela vontade genuína de acertar, e aí vejo um bocadinho da atleta que eu era.
O treino avança. Um acerta finalmente a posição no ar. Fico com vontade de bater palmas, mas contenho-me. Tenho uma reputação de exigente a manter. Outro cai meio torto e diz “Ups”, como se não tivesse acabado de quase aterrar de cabeça.
No fim, já todos se arrastam como se tivessem corrido uma maratona. Uns alongam, outros fingem alongar, dois dançam ao som da música vinda do treino do lado. Eu finjo que não vejo tudo. Escolhas que se fazem.
Recolho o material, apanho elásticos do cabelo perdidos, uma garrafa de água vazia (sem dono, como sempre) e mando ir para casa um atleta que está a praticar o salto “só mais uma vez, juro!”. Saio do pavilhão com aquele cansaço bom e penso: esta semana foi igual à semana passada, e completamente diferente ao mesmo tempo. E provavelmente, a próxima vai ser igual outra vez. E ainda assim, vou querer voltar.