Quem vê caras, não vê vidas

Subo as escadas do metro e, à minha direita, observo um prédio que faz lembrar algo como um pequeno – e humilde – palácio. “Versailles”? A menos que tenha apanhado a linha amarela em direção a terras francesas em vez de Odivelas, creio que é pouco provável que seja o original. Vejo homens vestidos com coletes apertados e camisas passadas a ferro ao milímetro. Têm cara de quem tem um café curto sem princípio em chávena fria com cheirinho para entregar e já não se lembram quem o pediu. Todas as dúvidas se dissipam. Não são mordomos perdidos de Luís XIV, são empregados de mesa de uma das pastelarias mais antigas de Lisboa.

Estou no Saldanha. À minha volta vejo pessoas apressadas, que andam com algum objetivo. Pessoalmente, o meu único objetivo é descobrir qual é o objetivo delas. Passam por mim vários exemplos do estereótipo lisboeta mais comum. Primeiro, o homem de meia-idade de fato e gravata, que no braço direito balança de um lado para o outro uma pasta preta. Tem cara de quem trata os filhos por você. Depois passa uma senhora, também de fato – mas dos que assentam a silhueta -, e com saltos nos pés que causariam vertigens a uma formiga. Tem cara de quem não arruma o tabuleiro quando come uma refeição num centro comercial porque diz que “é o trabalho do empregado”. Segue-se o jovem de camisa (sem gravata) com uma mochila antirroubo às costas. Tem cara de quem idolatra o Chicão, ex-líder do CDS. Os três caminham como se o chão que pisam se transformasse em ouro. Ai de quem sequer tentasse dirigir-lhes a palavra. A sua saliva merece apenas ser gasta em dois assuntos: trabalho (são workaholics) e a explicar o porquê de Nuno Melo ficar na história como o melhor ministro da Defesa que Portugal já teve.

“As cidades são uma espécie de reflexo do que nós temos dentro da cabeça”, oiço alguém dizer. Tudo faz sentido. A sujidade das ruas parisienses é culpa dos apoiantes do Rassemblement National (e dos adeptos do Paris Saint-Germain). A autonomia e liberdade características de Amesterdão devem-se à descontração de quem lá vive (e às coffee shops que frequentam). Os monumentos históricos que pintam a capital austríaca estão ligados à mentalidade retrógrada dos 29% de eleitores que deram a vitória ao FPÖ nas eleições de 2024. No caso lisboeta, a ligação que estabeleço é entre uma cidade em constante movimento e as mentes dos seus habitantes prestes a fazer curto-circuito de tanto andar de um lado para o outro.

A realidade não é, no entanto, a mesma em todos os 2761 quilómetros quadrados da capital portuguesa. Depois de algumas horas passadas no Saldanha a entrar e sair de cafés históricos e lugares icónicos da cidade, volto para as escadas do metro de onde há pouco tempo tinha avistado o Versailles falso. Saltito de transporte público em transporte público. Às tantas, estou no comboio da linha de Sintra em direção a Algueirão-Mem Martins.

Retomo a minha atividade preferida: observar os viajantes que me acompanham. Os alvos mais fáceis são as três pessoas com quem compartilho o cubículo de quatro lugares típico dos comboios. À minha frente está uma rapariga provavelmente da minha idade. Ao colo tem um bebé que me fixa como se quisesse fazer o jogo do sério. A rapariga sorri para mim como quem sabe que estou a perder. Tem cara de quem mima o filho a cada oportunidade que tem. Não me atrevo a olhar para o lado – sob pena de desmascarar a minha análise-, mas o que oiço basta. É um homem que certamente desconhece o conceito de fazer chamadas com o telemóvel ao ouvido. Fico atenta, mas de pouco me serve já que o crioulo que falavam apenas me permitia fingir compreender. Tem cara de quem está desejoso de chegar a casa para conversar cara a cara com a mulher com quem tanto fala ao telemóvel.

Passo para o indivíduo à minha diagonal. Calça chinelos de enfiar o dedo e as suas roupas estão sujas de tinta branca. Tem cara de quem expeliu dois litros de suor do corpo durante o trabalho. Neste comboio, ninguém caminha como se estivesse num pedestal. Uma cidade, vários tipos de vida.

É enquanto saio na estação de Algueirão e passo por um dos túneis mais malcheirosos de que há registo que começo a refletir. E se eu fosse vítima do meu próprio escrutínio? Em que estereótipo encaixaria? Passo à autocrítica. Desço as ruas de Mem-Martins com os olhos semicerrados por causa do sol, enquanto os óculos escuros enfeitam a minha cabeça. Caminho com a mala ao ombro e o computador dentro de uma capa na mão, como quem veio de uma reunião importante e não teve tempo de o meter dentro da mala. Mas e eu? Tenho cara de quê?

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